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Sol

és um traidor

prometeste-me tanto ser com os teus dias

mas tostaste minhas esperanças

com o fogo injusto das tuas auroras...

bastou o teu amanhecer ilusório

para que os sonhos me presenteados

pela materna Lua

(“Ó Lua, Lua triste, amargurada...”)*

se dissolvessem na indiferença da tua luz...

quando eu mais precisei de ti

me viraste a face

por entre as nuvens

da tempestade...

 

ah se eu pudesse

impedir que viesse o teu verão

asfixiá-lo com a minha névoa

enegrecê-lo com a minha noite

e congelá-lo com a minha geada

para não ter que ver

com o cansaço dos meus olhos

pelas ruas degradantes de calor

o desfilar patético em todos os sentidos

da fútil frívola supérflua

desta imbecil alegria estúpida

da humanidade sem nenhum sentido

 

mas o que digo?

sim, agora eu recordo:

devo estar contigo...

Sol, és meu alento último

és o Fim

Tu acabarás com esta humanidade:

perdoa-me, sou teu amigo.

 

  • verso de Cruz e Sousa

Poesias