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1986, 26 de abril às 01h23 horas,
Bosques de bétulas e cipestres,
Rincão nebuloso da fértil Ucrânia.
Tchernozion onde plantaram soldados
Com metralhadoras.
Não alimentaram o trigo e as prímulas.
Outra coisa:
Hospital do Câncer em cidade brasileira.
Outra coisa: carcinoma papilífero de tireóide,
Um dos nomes mais poéticos
Do Manual Merck.

Carlos Magno em seu tempo
Pregava o evangelho com
Espadas cegas no pescoço.
Não sei.
Em 1939 algo que virou sucata
Rompeu sobre uma passível Polônia,
Tod der tod ist Meister aus Deutschland
E estudamos isso até hoje nos
Caderninhos de garatujas,
Onde começam nossas fábulas;
E ainda não vimos os cabelos
De Margareth e Sulamita
A dormitarem no formol.

Ora, porque amanhã algo mais
Rastejará pelas horas
E não estarei mais aqui, e a isso
Dou graças.
Sabendo que uma só guilhotina muito afiada
Cortou tantos pescoços quanto
Carlos Magno, em nome da liberdade
E não de Deus, que ficou para trás.

Um homem rústico de minha terra
Travou luta de facão com outro
Homem rústico,
E os dois tiveram pescoços semi-decepados,
E eu não sei por que um está vivo
E contando vantagens,
Não sei.
A causa foi uma novilha que pulava cerca...

Acabo de lembrar o futebol Maia
Que não tinha goleiros...
Somente atacantes, somente... Meu pai!


Então há algo soturno que rasteja,
Espalhando-se fortuitamente
Qual nuvem radioativa e rápido,
E não são os busca-pés
Da minha infância que morreu
Sem que eu percebesse.

Acho que cortamos pescoços demais
Desde que éramos trilobitas,
E é custoso parar com isso,
E dispersamos nuvens contagiosas
Desde a primeira fogueira.
E isso está na minha mente, e por que
Isso me incomoda?

Porque sinto que participei disso
Desde sempre,
Cortar e dispersar porcarias,
E minhas mãos tremem se não o faço.


Pus-me, então, a reescrever a carta, ainda sem esperança que ela me desse uma resposta mais aceitável:

“Prezada Hiena, até quando, até quando?
Ainda tenho a dizer que
Há sobre o meu peito, voraz,
Você, Hiena, monstruosa Hiena rubra,
E seguirá arrancando
A minha carne por longo tempo,
Este que vai do útero a uma cova
Sem que eu descubra o porquê
De tanto veneno e tanto sangue.
As bocas dessas cabeças não abrem!
Velha Hiena, não ouve meus apelos?
Com fúria e risos carimba selos
Por todos os meus vãos esforços?”

Ainda o gotejar vermelho sobre
Minha cabeça uma única resposta
Perdida em tempos imemoráveis:

“Ainda há tempo de alcançar o teu pescoço
E o homem rústico está feliz
Apalpando orgulhoso a cicatriz
Não menos que a asfixia nos moços.
Nada irá tirar a minha paz,
Como a de tantos outros, pois esta Hiena
Bem sabe o que faz”

 

Poesias do Porão - Poesias

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