Toco algo frio ao meu lado.
Uma adaga inerte em meu leito depois de exercer sua função.
Agora me lembro...
Apenas segundos que parecem uma eternidade.
Toco meu seio esquerdo,pelo corte aberto o líquido viscoso escapa
lento e dolorosamente, não a dor física, que há muito foi sobrepujada pela dor da alma, mas a dor de nunca mais tornar a sentí-lo.
Embora saiba que agi certo, pois só assim poderei esquecê-lo,
neste momento a falta de esperança me causa desespero.
De repente um corpo se forma nas sombras, sinto seu toque.
Um terremoto me sacode a alma já pronta para partir.
Será mais uma alucinação? Uma materialização do meu mais profundo desejo?
Mãos gélidas agora me puxam, ouço sua voz.
Dos teus lábios saem urros de dor.
Não é ilusão, você está aqui!
-Porque demoraste meu amor? Porque deixou-me sem resposta entregue à minha sorte?
Em meio a brumas seus lábios se aproximam dos meus, sinto o gosto da morte.
Já não há tempo para nada.
-Demoraste demais meu amor...
Fraca, já não reajo mais.
-Levarei teu beijo como lembrança para os confins da eternidade.
Agora nada sinto,apenas me desdobro pelo cosmos.
Luzes dançam ao meu lado, ouço a música das esferas.
Ainda vejo como num filme meu corpo deitado inerte em meu leito, e você debruçado sobre ele.
-Adeus meu amor, chegaste tarde.
Miriam Castilho