Conto publicado originalmente em 2009, sob o título de “O Jantar”, na antologia Paradigmas Definitivos (Tarja Editorial).


Nos ombros ele trazia a carne. E escorrendo junto com o sangue, o visco de sua culpa. A cada passo eram deixados para trás resquícios de um suposto arrependimento.

O som das sirenes anunciava outro bombardeio. Nem todos conseguiram chegar a abrigos seguros e alguns teimaram em ficar em suas casas, esperando que uma bomba os atingisse em cheio para que não houvesse sofrimento e dor na hora da morte. No apartamento da senhora Peecock, o som abafado quase não era percebido por ela. Há alguns anos já não escutava direito e mesmo que fosse possível, não abandonaria o seu lar. Numa rápida olhada pela janela, viu pessoas correndo… desesperadas. Observou o céu tentando avistar algo, mas seus olhos também já não eram os mesmos. Fechou as cortinas de renda como se aquilo a protegesse de alguma forma. Lentamente se dirigiu até a sua poltrona preferida, pegou suas agulhas e pacientemente voltou a tecer um xale, que pretendia dar de presente para a netinha de sua vizinha.

Pouco acima de sua cabeça o relógio teimava em movimentar seu pêndulo, apesar das trepidações causadas pelo cair das primeiras bombas, a algumas quadras dali. O tique taque era o único som que ela se permitia ouvir. Estava bem próximo. Tão próximo quanto suas lágrimas ainda frescas, visitas constantes desde o início da guerra… Seu marido e seu netinho…

Um leve movimento de cabeça a permitiu olhar para a janela. Agora mais distante de toda aquela cena, e com a cortina deixando aquele cenário levemente embranquecido, notou apenas que uma nuvem de poeira invadiu sua rua. Praguejou por uns segundos. Teria que limpar novamente a sacada e as janelas depois que tudo aquilo terminasse. Voltou sua atenção para o piano, um pouco à sua frente. Pareceu sorrir para as fotos sobre ele. Mas não era um sorriso. Talvez um espasmo involuntário. O reverso de seu ódio.

Foi num domingo cinzento que tudo aconteceu. Seu neto mais velho, Earl Peecock, iria para a guerra. Parte do seu destacamento faria um breve desfile na avenida principal. A Rainha queria mostrar que seus soldados estavam dispostos a lutar por ela. Mas não estavam.

Além da insatisfação da maioria do contingente, existia um problema bem maior: a falta de preparo. Jovens, que mal tinham saído das barras das saias de suas mães, carregavam desajeitadamente suas armas. As expressões de medo desfilavam diante do olhar da senhora Peecock, de seu marido e do netinho de apenas sete anos. Earl, ao contrário, passava orgulhoso diante de todos. Não pensava em outra coisa a não ser em servir à Rainha.

A inexperiência dos soldados se mostrou evidente ali mesmo, dentro da cidade. Não foi preciso sair dos limites da capital para que uma pequena tragédia acontecesse. Pequena para o grande exército, mas de terríveis proporções para a família Peecock. Um dos soldados disparou sua arma acidentalmente. Antes mesmo que alguém pudesse identificar de onde teria saído aquele disparo, um Jeep, que carregava uma grande metralhadora antiaérea, perdeu o controle. Seu motorista fora atingido de raspão e perdeu os sentidos. As pessoas que estavam mais próximas do cordão humano que acompanhava o desfile se afastaram. No entanto, nem todos perceberam o perigo se aproximando. Caída perto de uma lixeira, depois de ser empurrada por parte da multidão, a senhora Peecock viu dois corpos debaixo das rodas do carro sobre a calçada… seu marido e seu netinho.

As imagens se dissolveram e escoaram pelas teclas do piano. Os olhos marejados voltaram a se concentrar no xale a ser terminado. A música da guerra começava a diminuir lá fora. Os alvos estavam mais distantes e as pessoas já não gritavam tanto, ao menos naquele lugar. Se alguém quisesse ver o que acontecia lá fora, já não seria possível sem abrir as janelas. O pó da guerra banhou todos os prédios da Rua Hemingway.

Não muito longe, corpos de soldados se amontoavam numa esquina. Destroços cobriam a história de cada um deles. Em meio ao som de chamas consumindo parte do que restava de pé, ouvia-se também o barulho de água escorrendo dos encanamentos destruídos. Gemidos. Pedidos de socorro. O choro de crianças que escaparam milagrosamente, enquanto seus pais jaziam mortos ao seu lado. Dentre os gemidos que compunham aquela incômoda sinfonia da guerra, um soldado caído junto à porta da capela. Seu rosto não estava tão sujo ou machucado, mas suas pernas estavam em frangalhos. A dor ainda não o atingia a ponto de desejar morrer. Tudo aconteceu muito rápido. O corpo ainda não havia absorvido o trauma.

Earl Peecock.

O jovem soldado, que não fora atingido por nenhum escombro ou fragmento de bomba, se aproximou do rapaz caído no chão. Aquele rosto não era estranho. Os olhos imploravam por ajuda. O neto da senhora Peecock fazia parte da equipe médica. Era seu dever ajudar aquele homem. Naquele momento não haviam culpados, vítimas ou vingadores. Colocá-lo em seus braços lhe pareceu a princípio um enorme sacrifício. Um pesado fardo que não gostaria de estar carregando. Seu destino oscilava em sua mente. Hospital ou uma sarjeta qualquer…

Mais tarde no hospital improvisado na Rua St. Margareth, Earl não conseguiu conter um breve sorriso sujo de poeira e sangue. Uma das pernas de Charles Stevenson fora amputada na altura do joelho.

Três dias depois, Earl convidou o rapaz para jantar no apartamento de sua avó. Era sua folga e eles estavam a pouco mais de cem metros de sua casa. Depois do jantar, o aleijado poderia voltar para a sua casa. O exército não precisava mais dele.

Na sala de visitas, Charles se sentiu o pior dos homens. E não foi por causa dos seus ferimentos ou pela sua atual condição. Reconheceu, através das fotos em cima do piano, as pessoas que ele, indiretamente, havia matado. Suando frio e sem conseguir falar uma palavra sequer, ainda sem prática com as muletas, tentou se dirigir até a porta de saída, mas foi barrado por Earl.

─ Vovó ficaria muito desapontada se você fosse embora sem jantar conosco.

─ Mas… Earl… eu… as fotos no piano…

─ Não nos faça essa desfeita, Charles. Sente-se à mesa. Já vamos servir.

Assustado demais para tentar argumentar, o rapaz acatou a ordem. Nos primeiros minutos o silêncio foi quebrado apenas pelo tique taque do velho relógio. Foi a senhora Peecock que atirou as primeiras palavras sobre o jantar.

─ Não sou contra a guerra, sabe meu jovem?

E olhando para o prato diante do rapaz, ela emendou um “Coma, meu rapaz. A carne está deliciosa”, antes de voltar para o seu pequeno discurso.

─ Não quero esses porcos nazistas andando por aí, decidindo quem é bom ou ruim. Quem é digno de viver livre ou não. Espero que possamos vencer essa maldita guerra e logo, pois eu não aguento mais limpar essas janelas.

Sem entender o comentário a respeito das janelas, Charles arriscou uma primeira garfada. Cansado da comida horrível do exército, se deliciou com o tempero de vovó Peecock e passou a prestar mais atenção no que ela dizia. Por alguns minutos ela falou o que pensava sobre os alemães, russos e de tudo que envolvia a guerra.

Earl percebeu que o jovem tinha mais fome e estava envergonhado o suficiente para não querer colocar mais comida no prato. Ele mesmo o serviu. No entanto, a senhora Peecock fez questão de dificultar a digestão de Charles com as palavras que viriam a seguir:

─ Mas, o que eu realmente não aceito é que incompetentes como você saiam por ai matando pessoas inocentes. Se a culpa é sua ou não, não me interessa nem um pouco. Como cidadã tenho o direito de evitar que estúpidos cretinos, feito você, continuem matando, já que seus comandantes não fazem nada.

Earl se levantou, limpando a boca com o guardanapo, e se posicionou atrás da cadeira de Charles. Os olhos inquietos do soldado procuraram por ele, ao mesmo tempo em que o pavor lhe tomava a face. A comida estaria envenenada? A sua expressão de dúvida foi tão evidente que a Sra. Peecock se dobrou de rir. Em seguida ela se ergueu e pegou uma faca. Earl forçou a cadeira para trás, deixando-a inclinada sobre duas as pernas, fazendo com que Charles quase caísse.

─ Há meses procurávamos por você, mas não se preocupe, pois não perdemos nosso tempo.

Nesse momento, a aparentemente bondosa velhinha, levou a faca na direção da orelha direita de Charles, que já estava sendo bem seguro por seu neto. Em poucos segundos os gritos de pavor do soldado tomaram conta de todo o ambiente.

─ Vocês são loucos! Jesus Cristo! Mas o que é… Meu Deus!

Calmamente, Madeleine Peecock mergulhou a orelha no molho da carne e continuou a falar, ignorando o choro e os gemidos do rapaz.

─ Como eu dizia, não perdemos tempo, porque nesse intervalo até o acharmos, Earl aproveitou para eliminar outros covardes como você. Alguns não gostaram da minha comida. Jogaram a culpa nos meus temperos.

Uma tentativa de morder a orelha…

─ Maldição! Vai ser preciso cozinhá-la… tenho certeza que ficará tão boa quanto a sua perna. Aliás, percebi que você gostou muito, o que prova que o problema não é o meu tempero. Tudo depende da pessoa, do corte ou mesmo da parte do corpo que comemos. A sua batata da perna é boa.

Aquela revelação lhe pareceu tão absurda, que ele ignorou o fato de que ele havia comido a sua própria carne no jantar. Continuou pasmo, paralisado, sentindo o sangue quente tomando conta de seu pescoço, peito e braço.

─ Sabe, meu rapaz? Os outros foram enterrados faltando pequenas partes. É verdade que praticamente todos foram forçados a comer seus pedaços. Sabiam o que estavam comendo, enquanto agonizavam diante de mim. Quando Earl trouxe a sua perna amputada há alguns dias, eu quis fazer algo especial para você. E confesso que me surpreendi com o gosto de sua carne. Espero que não se chateie, mas gostaria de experimentar as suas coxas também.

Não houve tempo para outro grito. Earl atirou quase a queima roupa. Uma emboscada. Essa seria a desculpa que daria ao chegar ao hospital com aquele corpo. Na correria da guerra, não haveria tempo para investigações. E ele mesmo seria encarregado dos procedimentos: o destino do corpo. Deixaria as coxas com a velha Peecock.

Nos ombros ele trazia a carne. E escorrendo junto com o sangue, o visco de sua culpa. A cada passo eram deixados para trás resquícios de um suposto arrependimento.

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