Publicado originalmente na antologia Poe 200 Anos [Ed. All Print, 2010]. Baseado no conto “Manuscrito encontrado em uma garrafa”, de Edgar Allan Poe.


Capitão Ivor Balder é o meu nome. Vivo e respiro, há mais de trinta anos, os aromas amadeirados de meu glorioso navio, Birgit. Melhor seria dizer que eu vivia e respirava, pois se esta missiva está em suas mãos, seja lá quem for o leitor de tais palavras escritas em total desalento e desesperança, é porque me encontro no fundo do oceano. Por todos os deuses, eu juro que não abandonarei Birgit por nada nesse mundo. Preparei com todo cuidado o invólucro no qual você encontrou esses papéis amassados, para que ele resista a uma longa viagem. Onde nos encontramos agora, nem mesmo os deuses têm o costume de caminhar. Se existe algum lugar que se possa chamar de fim do mundo, este é aqui.

Nos últimos anos meu trabalho era exclusivamente dedicado a uma tarefa da qual não me orgulho muito, mas que fui obrigado a aceitar. O pagamento material era feito até então por um estranho homem de feições quase demoníacas, que sempre nos encontrava nos portos das principais cidades europeias. Nunca nos deixou faltar o que comer, beber ou mesmo itens supérfluos como roupas, acessórios de vestuário e até mesmo mulheres para a diversão de toda a tripulação. O pagamento espiritual, segundo ele, se daria no dia em que meus serviços não fossem mais necessários. E pressinto que se dará nas próximas horas, talvez minutos. Segundo este homem, cujo nome sempre me foi negado saber, minha alma e de toda minha tripulação teria lugar garantido no paraíso a que temos por direito, conforme a sede de nossos espíritos. Minha sede é o mar. Espero que seja aqui minha morada eterna.

A peculiaridade de nossa carga, talvez lhe faça zombar desse pobre homem que vos escreve. Não o culparia por tal zombaria, pois eu mesmo, quando contatado pela primeira vez, não me aguentei de tanto rir. Parei apenas quando vi com meus próprios olhos aqueles espíritos acorrentados uns aos outros, atravessando as grossas madeiras de Birgit, indo se instalar nos porões do navio. Nossa carga: almas. Nosso destino: incerto. Sempre que partíamos, causávamos estranheza por parte dos trabalhadores locais. Apenas suprimentos entravam no navio e nenhuma carga. Muitas vezes nos perguntavam de que sobrevivíamos e a única desculpa que tínhamos eram nossos poucos canhões enfileirados nas laterais. Eu dizia estar a serviço de algum país, a procura de antigos piratas que ainda assolavam os mares. Mas, percebia nos olhos das pessoas que essa mentira não as convencia, devido as características de Birgit, que nada possui de um navio de guerra, exceto tais canhões.

Nosso porto de desembarque nunca existiu em nenhuma das viagens. O misterioso homem me apontava, nas cartas náuticas, os locais para onde eu deveria seguir. Uma vez posicionados, e devidamente ancorados, éramos tomados por um terrível e incontrolável sono que nos derrubava por um dia inteiro. Ao acordarmos, me certificava de que os espíritos não mais estavam nos porões. Devo dizer, em tempo, que sou o único capaz de enxergá-los. A tripulação, embora me ache completamente louco, sempre me foi fiel e nunca questionou tais viagens. Principalmente, porque sabiam das recompensas que nos esperavam no próximo ponto de encontro com nosso contratante.

Há alguns dias, porém, um curioso e quase inacreditável fato nos aconteceu. Ao voltar de uma de nossas entregas, uma tempestade de proporções nunca vistas por esse velho marinheiro, nos surpreendeu em alto mar. Perdemos por instantes a noção de nossa localização. Em determinado momento de desespero, de dentro da cabine de comando, percebi que estávamos na crista de uma gigantesca onda. O céu nos era apresentado em sombrios tons de cinza escuro. Em questão de segundos, porém, o navio mergulhou no azul escuro das águas abaixo de nós. De relance, avistei um pequeno barco na base da onda que nos carregava. O choque foi inevitável. A fragilidade da pequena embarcação se mostrou de imediato. Partida ao meio, quase não provou danos a minha querida Birgit.

Mas a imagem mais marcante e surpreendente desse desastre foi a de um homem sendo lançado diretamente ao nosso convés. A violência do impacto de seu corpo foi tão grande que o som se sobressaiu ao da tempestade. O sangue que escorreu imediatamente de seu crânio aberto, mal permaneceu em Birgit. As ondas que varreram o convés logo em seguida levaram o corpo e seus vestígios ao mar. No entanto, pendurado nos cordames, avistei o espírito daquele homem. Vi quando ele saltou no convés e se enfiou em uma das escotilhas que dava acesso ao porão. O pobre coitado sequer entendeu o que lhe aconteceu.

Durante um dia inteiro não o vi. Mesmo depois da calmaria que nos deu falsas esperanças de que íamos sobreviver, ele não apareceu. No dia seguinte, porém, dei por falta em minha cabine, de alguns papéis, pena e tinta. Passei a vigiar escondido o meu aposento. Não tardou para que o visse se esgueirando pelas laterais do corredor. Fingi não o ver. Queria que ele mesmo descobrisse sua condição de desencarnado, mas foi em vão. A pobre alma escrevia – e não me perguntem como isso foi possível – uma carta de despedida, a qual ia colocando as páginas dentro de uma garrafa, que julgo eu, ele jogará ao mar dento de instantes, se já não o fez. Coisa que, aliás, também pretendo fazer e devo aqui começar a me preocupar em resumir essa história, pois vejo que parte de Birgit já está submersa e não tenho muito mais tempo.

O fato é, que desde que esse espírito embarcou em meu navio, não conseguimos mais dar destino a nossa viagem. Nada mais funcionou como deveria. A tripulação se esforçou como pode e não obteve êxito nas tentativas de reparo das velas e do leme. Perdi alguns homens, levados pela fome e sede. Nossos suprimentos, os que não foram levados pela tempestade, já se esgotaram há dias. Alguns homens pularam ao mar e tentaram procurar por terra. Estamos muito longe de qualquer coisa que não seja essa enorme geleira que nos cerca. Esqueci de dizer: hoje, ao amanhecer, nos vimos cercado de um branco infinito e um frio de igual proporção. Creio eu, que a maioria deles não vai conseguir sobreviver a essa temperatura.

Agora estamos apenas eu e meu último passageiro. Vejo-o agora lançando sua garrafa ao mar. Farei o mesmo com esse meu invólucro improvisado, pois noto a algumas centenas de metros adiante, uma nova onda gigante se formando. E com ela, um enorme pedaço de gelo, semelhante ao que nos atingiu hoje no início da tarde e partiu o casco de minha doce Birgit.

Despeço-me agora do que conheci por vida. Dou adeus à minha amada Birgit, agradecendo-a por anos tão incríveis navegando pelas veias do mundo. Ao leitor, peço que não deixe minha história morrer. E desejo que o novo navio que transportará as almas perdidas, para os portais do inferno, possa ter um final menos sofrível. Que eles não tenham a mesma má sorte de ter em seus porões, tal espírito de mau agouro. Aliás, não fosse ele já um espírito, minha vontade era de pegar aquela garrafa e…

Por todos os deuses nórdicos! Vamos ser engolidos!

 

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