Luciana Fátima: Imagem em palavras II - arte tumular

Luciana Fátima: Imagem em palavras II - arte tumular

Texto por Luciana Fátima

Recentemente, fui lembrada pelo Facebook do aniversário da exposição LAPIDAR. Esta foi uma mostra que realmente gostei de fazer. Não somente por ser apreciadora da arte funerária, mas também por ter tido a oportunidade de dividir com as pessoas um pedacinho do meu mundo fotográfico. Muita gente acha estranho quando falo que eu não associo a arte tumular à morte, mas é verdade. Eu a vejo como todos os demais tipos de arte... e arte é vida!

Sempre gostei de esculturas. Adoro fotografá-las, seja na rua, em museus ou nos cemitérios. No auge do nosso projeto fotográfico – Diálogos com a Cidade –, fizemos duas mostras envolvendo pessoinhas de pedra: Monumentos e pessoas no espaço urbano e Carinhas(os) Urbanas(os) – esta última transformada em livro. E, após registrar muitas estátuas pelas ruas da nossa querida Pauliceia Desvairada, nada mais natural do que explorar as silenciosas paisagens cemiteriais.

Contudo, engana-se quem acha que tenho uma boa relação com a morte. Concordamos apenas que ela é a única certeza da vida e que virá para todos, cedo ou tarde. Mas eu não gosto de ver defuntos. Para falar a verdade, nunca vi nenhum de perto. Evito ir a velórios e sepultamentos e, quando é extremamente necessário, procuro a companhia dos vivos, mantendo boa distância do caixão. Não tenho medo. Apenas acho que este – e tantos outros, como batizados, casamentos, formaturas – é um ritual de passagem, importante para que estejamos preparados para a próxima fase. E o luto é sempre uma fase muito difícil para quem fica.

Também não aprecio qualquer tipo de cemitério. Uma vez que meu interesse é artístico, aqueles que não têm esculturas tumulares (como os cemitérios-jardim) não chamam minha atenção. Às vezes, também fico deprimida por ver cenas que intensificam ainda mais o abismo entre ricos e pobres, que perpetuam as diferenças sociais para além dos limites da morte. Isso é muito triste.

Mas, voltemos à arte tumular. Por que, então – depois de tudo isso –, minha escolha recaiu em uma imagem que, apesar de ter sido feita em um cemitério, não retrata apenas uma de suas belas estátuas? Porque eu queria ilustrar este texto com uma imagem singela, que passasse a ideia de contemplação. Eu queria expressar um pouco da sensação de tranquilidade que sinto quando caminho pelas alamedas de um cemitério como este. A oportunidade que tenho de olhar para a imensidão do céu, de ouvir o canto dos pássaros e de sentir um profundo respeito pela grandiosidade do mistério do “post-mortem” que aguarda a todos nós.

Quando eu recortei esse pedacinho, eu tentei eternizar a percepção de paz e de serenidade que os mortos compartilhavam comigo naquele momento. Tentei congelar a impressão de que o tempo havia parado e, talvez por uma fração de segundos, poderíamos viver para sempre.


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