Luciana Fátima: Imagem em palavras

Luciana Fátima: Imagem em palavras

Texto por Luciana Fátima


Quando o Estorvo expressou a ideia de um blog no qual os autores da Editora Estronho pudessem ‘falar’ com os leitores, ponderei com meus botões, “sobre o que eu poderia escrever?” Claro que a primeira coisa que me veio à cabeça foi falar sobre Álvares de Azevedo! Mas pensei melhor e resolvi ampliar um pouquinho meus horizontes. Tenho tantas paixões que chega a ser difícil escolher um único tema.

Aí pensei em combinar duas coisas que gosto muito: fotografar e escrever. Decidi criar uma espécie de ‘série’ em que eu possa fazer pequenas digressões sobre uma imagem de minha autoria. Talvez isso soe prepotente para alguns, mas é inegável que vivemos hoje em um mundo repleto de imagens que são, muitas vezes, banalizadas – infelizmente.

Minha proposta é um convite à reflexão sobre as imagens que nos cercam, sejam elas fotográficas ou não. Dizem que, nas últimas décadas, foram feitas mais fotografias do que desde a sua invenção, lá no século 19. Nunca fotografamos tanto! Mas, também, nunca deixamos tanto de ‘ver’ essas fotos. É por isso que eu quero fazer a minha parte e dedicar algumas palavras às minhas fotografias, para que elas não caiam no esquecimento, como as suas irmãs espalhadas por aí.

E, para iniciar essa série, escolhi a imagem de um dos meus prédios favoritos no Centro de São Paulo: o Teatro Municipal. Trata-se de uma representação de Cupido e sua mãe Vênus. Ambos têm uma forte ligação com o amor. E, para mim, este é o sentimento que emana dessa cena. Um amor belo, inocente, necessário. São Paulo é a cidade em que tudo é exagerado, tudo é veloz, tudo é ciclópico... Na megalópole que nunca para, poucos diminuem o ritmo para apreciar a poesia urbana que ainda resiste. Resgatemos, então, o amor! Apreciemos o belo!

Alguns acreditam que a fotografia é a representação mais fiel da realidade. Eu vejo a fotografia como uma narrativa ficcional, feita a partir da imaginação do fotógrafo. Por exemplo, há uma infinidade de imagens do Teatro Municipal; uma mais linda que a outra! Mas, ao escolher recortar esse pedacinho, eu quis ressignificar não apenas a representação mitológica, mas também congelar eternamente esse beijo que não chegou a ser; esse gesto tão eloquente em seu mutismo de pedra.

Diante do oceano de imagens que nos afoga todos os dias, creio que precisamos ‘pensar’ a fotografia. Pensar sobre a fugacidade que ela representa. A mesma fugacidade da vida: uma fração de segundo e aquela cena pode mudar. Cartier-Bresson cunhou o “momento decisivo” da fotografia; mas, todos os dias, temos nossos próprios momentos decisivos. Aqueles momentos em que um simples ‘sim’ ou ‘não’ pode mudar para sempre o curso de nossas vidas.


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