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De Traição e de Sombras

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    A tarde estava anormalmente agitada. Cada arbusto, moita e cada copa frondosa tomada por seu mundo particular de burburinhos, chilreios, gritos e alaridos. As vozes em meio às árvores eram muitas e variadas, os sons, uma dezena de instrumentos desordenados e, ainda assim, ele distinguia claramente a respiração suave de sete criaturas que não pertenciam àquele lugar. Sete sons delicados, dissonantes, que maculavam a balburdia da floresta.

    O ritmo continuava o mesmo; pelo chão ou sobre os galhos altos ele não abrandara a fuga, mesmo diante do cansaço que lhe chegava de mansinho, cobrindo como uma sombra insidiosa seus pés doloridos. Depois da última loucura, das longas noites de dor e desespero, congeladas sob a sinistra placidez anilada de Anu1, ele só queria um pouco de quietude, recostar-se num canto qualquer e deixar que sua mente se afastasse para longe, que os sussurros e as vozes calassem. Seus pés, no entanto, o haviam traído, levado sua fúria para onde não devia. E, na escuridão da noite da floresta, depois de dias de caminhar ao ermo, seus olhos vislumbraram uma fraca luz e seus sentidos ouviram sons de vida. E a loucura novamente se apossou dele. 

   A Grande Barreira de Gaeya2 constituía o extremo limite meridional do reino Ilmory3 de Liar4 e tal era a dificuldade em se atravessar sua vasta e labiríntica extensão de árvores, rios e morros — aparte de outros tantos caminhos mágicos que negavam aos olhos desavisados a plenitude de seu alcance5 — que sua defesa estava a cargo de apenas alguns poucos guerreiros. Poucos, porém fiéis.

    Para lá seus pés o levaram e, bastou com senti-lo, eles o reconheceram; por lendas ou fatos, eles o reconheceram. Lupus Gaurain, da poderosa Casa Guerreira de Laycan, o maior dentre os guerreiros de todos os clãs Ilmory da grande nação de Liar. O Mitaen6 que resistiu aos invasores de Leiryan e Belastha7; a sombra negra que se abateu sobre Ayos Artharin na Batalha dos Três Dias8; o Defensor da Cidade das Árvores, de Eldor9 e dos Ilmory do Leste... E também o Caído; o Traidor de Idurain10; o Assassino; Aquele que Carrega a Sina11.

    Nomes! Tantos nomes e títulos, e o que significam agora, no final?
    Ele arqueou-se sobre as pernas doídas, cheirou o ar carregado de odores e aguardou. Os quatro surgiram de sob as sombras da lua distante, armas em punho, e bloquearam seu caminho. Os movimentos eram rápidos e sincronizados, sinal de que haviam sido bem treinados; mas os olhos os traiam. Havia ali qualquer coisa de medo e receio, uma incerteza que os tornavam adversários vencidos antes mesmo do início da batalha para o oponente que soubesse explorar tal fraqueza.

E ele sabia. Mesmo em sua loucura, tomado pela sina que vibrava em cada ínfima parte de seu corpo, ele sabia.
— Alto, bradou o que aparentava ser o líder, um jovem guerreiro recém saído da primeira idade. A ninguém é permitida a passagem para além deste ponto.

Lentamente, enquanto as palavras faziam eco entre os sussurros da noite, um grande espectro negro levantou-se e caminhou em direção aos guardas. Os olhos diziam o que a boca e sentidos se negavam a fazer; deveriam se afastar dele, deixá-lo atravessar a barreira e fugir.
Porém, eles não o ouviram.

O primeiro fez um movimento de ataque e Lupus, uma vez mais, se viu acometido da grande loucura, velha companheira. Os olhos cegaram, as garras moveram-se sem comando, automáticas, e um corpo inerte caiu aos seus pés. Depois o segundo e o terceiro e o caminho tornou-se livre.
O último Kieran12 resistiu o quanto pôde; no entanto, quando o brilho dos olhos desapareceu e o corpo tornou-se tão-somente uma casca vazia suspensa entre suas garras manchadas de morte, toda a esperança de que, quem sabe, aquela vez pudesse ser diferente, quiçá a última noite de dor e loucura, morreu mais uma vez dentro dele.

Quando tudo acabaria? Até quando teria de suportar o peso esmagador da sina de ser um... Um outro brilho, fraco, desafiador, se desprendeu do sabre do guerreiro caído e rumou para o céu, onde foi engolido pela noite, e Lupus soube que, em breve, não estaria mais sozinho. Outros viriam em seu encalço, como antes, e antes e antes. Entretanto, desta feita, encontrariam apenas seu legado; quando chegassem, ele não estaria mais ali.
Enganara-se.

Três noites haviam se passado desde então, o brilho frio da lua desaparecera de seu coração, a barreira há muito que ficara para trás e, ainda assim, eles o haviam encontrado. A presença dos caçadores, apesar de fraca e dissimulada, invadia seus sentidos como uma doença. Por que não o deixavam em paz? Sua sina já não era castigo suficiente?

Lupus cessou a fuga, recostou-se pesadamente ao troco de uma árvore e escutou. Continuavam seguindo-o. Mais algum tempo e, cansado como estava, inevitavelmente o alcançariam.
E, mesmo que estivesse em plena forma, mesmo que não sentisse o cansaço da última lua em seus ossos, não escaparia dela. Seu cheiro, depois de tanto tempo, ainda o inebriava; como era bom e terrível senti-lo tão perto.
Levantou-se com dificuldade, escalou em três pulos um grande tronco e escondeu-se sob o verde de uma ramagem particularmente espessa, expulsando de lá, com duas dentadas, um casal de pequenos macacos.
E esperou.

Eles surgiram do nada, como era de ser. Primeiro um, depois outro e mais outro até que seis corpos escuros formaram um círculo imperfeito abaixo de onde estava. Vestiam, todos, trajes em tons de negro, marrom e verde, cujos contornos obscuros os confundiam com o ambiente em volta; folhas, galhos, troncos e guerreiros formando uma coisa só.
Um deles ergueu a cabeça e, por um breve instante, seu rosto de pelos acinzentados foi inundado pelo brilho triste da tarde.

E Lupus a viu.
Passada uma vida inteira, ele a viu dentro de seus olhos e percebeu como continuava bela, bela como jamais havia sido.
O rosto se lhe afigurava um pouco mais velho, cansado até, cada linha de traços alongados demonstrando que o tempo não se apiedava de ninguém, mas o brilho dos olhos continuava vívido, mortal, como ele os lembrava. Fora há quanto tempo mesmo?

    Ambos haviam nascido sob a mesma lua, crescido juntos, iniciado os treinamentos juntos, cada pequeno passo dado sob o olhar atento de seu pai e do rei de Liar; ele, pela tradição guerreira de seu clã; ela, pela necessidade de encontrar um sentido para si, um lugar. Haviam atravessado os nove estágios e as iniciações13 e, de todos, apenas ela tinha conseguido igualá-lo, apenas ela se mantinha irremediavelmente a seu lado, testando-o, instigando-o a continuar, desafio após desafio.
E ele a havia amado por isso. Por sua força, por sua vontade...

    A irmã do rei, a improvável filha adotiva da casa real que havia arrebatado um coração forjado para a batalha, que havia lhe mostrado um mundo diferente daquele presente na vida de guerreiro que o destino lhe havia imposto, no brilho frio das espadas de seus oponentes ou nas ordens severas de seu pai; alguém que estava feita para seu espírito, para sua mão...

    Um movimento súbito; uma fração de luz que se moveu pelo canto esquerdo do olho chamou sua atenção e Lupus esquivou-se apenas tempo suficiente para evitar uma lança prateada que partiu a ramagem em duas, jogando-o de qualquer modo em queda livre rumo ao solo distante. Um erro fatal; distraído em meio a tantos pensamentos, não percebera a aproximação do sétimo guerreiro por suas costas.

    Lupus girou no ar e tentou amortecer o impacto da queda dobrando-se sobre as pernas, mas um novo ataque vindo de lugar nenhum o acertou de lado, jogando seu corpo maltratado contra as árvores e o solo duro.

    O guerreiro que o derrubara das alturas saltou para o ar e caiu sobre ele, a pequena lança de ponta dupla habilmente encaixada sob seu queixo. Um segundo moveu-se, um brilho tênue surgindo de sob a capa...
    — Ainda não! Disse uma voz, cortante e fria como gelo.

    O movimento cessou de imediato, enquanto uma figura de negro aproximou-se e puxou a túnica de sobre o rosto de forma lenta e deliberadamente teatral, revelando por entre as sombras do capuz um olhar intenso e sem emoção que o feriu mais que a lança que pressionava seu rosto.
— Finalmente o encontrei, assassino.

Lupus sentiu aqueles olhos sobre ele, aqueles mesmos olhos que já foram casa de outras emoções mais sublimes e que agora queimavam sua essência como brasa ardente. Tentou se levantar, mas a dor na lateral do corpo forçou-o se curvar novamente.
— Não tenha pressa em morrer, traidor.

O guerreiro pressionou a lança ainda com mais força, enquanto mantinha os olhos fixos nele. Lupus tentou girar a cabeça a mais lentamente que pôde, e perscrutou de relance seus captores. Eram prioritariamente jovens, fortes, alguns já avançados na segunda idade, mas todos de olhar severo e corpos vigilantes, o que, a despeito da já difícil situação, denotava um problema sério a ser considerado.
— Vejo que assumiu o comando dos Nai Lore14, disse ele, tentado pôr-se o mais ereto que a situação, e a ponta da lança, lhe permitiam. Como vai nosso jovem rei?

As garras desceram e roçaram sua pele com a rapidez de um relâmpago e três pequenos filetes de sangue lhe escorreram por sobre os pêlos da cara, deixando na boca um gosto acre de impotência.
— Não ouse se referir ao rei...

Lupus encarou-a, não sem certa tristeza, a esperança mais uma vez abandonando-o; segurou a ponta da lança com a mão, empurrou-a para trás com força e se levantou. Pequenas gotas vermelhas desenharam círculos irregulares junto a seus pés, enquanto um outro círculo, maior e mais ameaçador, se formou ao seu redor, corpos semicurvados e pequenos brilhos de garras e adagas refletindo a luz triste da tarde que se ia.
— Neera. Por que veio?

A pergunta, assim de pronto, pareceu tomá-la de surpresa, e por menos de um segundo, Lupus percebeu qualquer nota de incerteza em seu olhar.
Mas foi só.

Ela recompôs-se de imediato, afastou-se para além do círculo de guerreiros e, ainda de costas, como se lesse um pergaminho sentencial, proclamou:
— Pelo assassinato de Fear Urraerin, rei e senhor de Liar, e de sua família, pela traição à Casa de Idurain e pela deslealdade para com sua promessa, você foi sentenciado ao esquecimento15 nas entranhas de Agnur16, sentença esta que terei enorme júbilo em levar a cabo.
— Já fomos prometidos, continuou ele, como se não tivesse ouvido nada do que dissera. Já nos...
— Nai Lore, eu ordeno que...
— Já nos unimos...

Neera girou sobre os calcanhares e emitiu um urro tão intenso, tão furioso, que ele não teve outro remédio a não ser calar-se.
— Como se atreve... como ousa lembrar-me de algo que não existe mais, trazer à tona um passado que há muito já se foi?
— Eu não... Lupus deu um passo em sua direção e, imediatamente, seis adagas curtas e uma lança longa bloquearam seu caminho.
— Você traiu tudo o que eu acreditava, explodiu novamente Neera, Traiu tudo o que havíamos planejado. Matou meu irmão e... Subitamente, como se percebesse a atenção de seus guerreiros voltada, mesmo que indiretamente, para si, ela engoliu as últimas palavras em seco e emudeceu.

A floresta ficou repentina e desagradavelmente em silêncio; nem mesmo a respiração do vento ou o roçar das folhas era ouvido e, nesse ínfimo segundo de calma, Lupus tentou ainda uma última vez:
— Deixe-me ir.

Como resposta, o mesmo olhar frio de antes, o mesmo desprezo, a mesma raiva.
— Lupus Gaurain, doravante denominado sora, é meu dever levá-lo de volta a Liar e à sentença do rei!
— Sabe que não vou voltar, desafiou ele.

Ela lançou-lhe um sorriso gélido.
— Era somente o que eu queria ouvir.

Tudo foi rápido demais, mais até do que ele previra. Neera não fez qualquer movimento, mas bastou o eco de suas palavras silenciarem e os Nai Lore caíram sobre ele como uma chuva de garras e adagas e urros ferozes. Moviam-se como se fossem extensões de um mesmo ser, seis partes diferentes, separadas entre si, mas que agiam com a familiaridade dos pensamentos e gestos comuns, um terminando o que outro havia começado.
Os golpes vinham de todos os lados, em sequências improváveis e praticamente impossíveis de determinar, até que uma dor aguda nublou sua visão e Lupus se viu encurralado por sombras vagas que se moviam em círculos a seu redor, ferindo-o, magoando sua carne e membros, dilacerando-o.
As pontas de uma lança prateada atravessaram o ombro esquerdo, apenas para encontrar, num beijo de morte, uma adaga que descia ligeira entre suas costas; a dor quase o enlouqueceu. Lupus girou sobre o corpo, a agonia subitamente alimentando a resposta, e suas garras despedaçaram até o mais ínfimo obstáculo que encontraram pela frente, lança, madeira, adaga, corpos..., tudo foi afastado de seu caminho, atirado para longe.

— NEERA...

Num movimento rápido e inacreditavelmente preciso, dois guerreiros moveram-se para os lados em um meio círculo, enlaçaram ambos os braços e o atiraram de joelhos ao chão, enquanto um terceiro escalou em dois saltos uma árvore próxima e saltou para o ar, a adaga girando entre os dedos e os olhos cravados em sua garganta.

A dor no ombro dificultava qualquer pensamento, porém, Lupus acostumara-se com ela e já não se fazia necessário, passados tantos anos de lutas e pelejas, pensar sobre a guerra para fazer a guerra.
Plantou o pé esquerdo o mais firme que pôde no solo úmido, deslocou parte do corpo para frente e, num ímpeto, arremessou um dos guerreiros por terra. Com o braço livre, agarrou as vestes do segundo e o atirou para o ar, fazendo-o voar de encontro ao outro que descia ligeiro das alturas da floresta. Membros desconjuntados e corpos feridos caíram a seus pés, e antes que qualquer deles pudesse levantar, Lupus fê-los cair novamente, desta feita, pra sempre.

— Vejo que a loucura não o fez perder seus dons, disse-lhe Neera, a voz baixa e estranhamente serena. Parecia mesmo que toda aquela loucura não a afetava, que incluso já era, de certo modo, esperada.

Lupus nada disse, faltava-lhe à respiração, e ainda havia obstáculos em seu caminho até ela.
Os outros guerreiros reagruparam-se e, sem nem mesmo hesitar, se preparavam para uma nova investida; mas ele há muito que se cansara daquele jogo de guerra e, em menos tempo do que qualquer mente sã poderia conceber, todos estavam a seus pés, sob seus pés.
Neera olhou com desdém para a figura manchada de negro e vermelho que se aproximava, desatou os laços da capa e a atirou para o lado. Lentamente, abaixou-se e ficou de cócoras, esperando; os olhos, dois pequenos pontos fixos, nele!

— Vá para casa, disse-lhe Lupus, arfante, parado a meio caminho entre ambos. Isso já acabou.
Antes mesmo que pudesse notar, Neera estava sobre ele, o rosto tocando de leve o seu e as garras dolorosamente enterradas em seu peito.
— Só acaba quando eu disser que acabou.

Outro salto; ela afastou-se e caiu com graciosa leveza metros à frente.
— Maldita seja... grunhiu ele, cambaleando de encontro a um tronco próximo.
— Acabaram-se as bravatas, traidor? Neera voltara a ficar imóvel, o corpo hirto, o sorriso tresloucado e cada palavra soando mais violenta do que qualquer outro golpe que ele já sofrera. Os deuses sabem o quanto esperei por este momento, e hoje, sob a luz desta tarde maldita que me amaldiçoou com a tua visão, juro que porei fim a minha dor.

O que se seguiu não foi sabido por criatura alguma, desta terra ou de outras, e mesmo os espíritos da floresta que presenciaram aquele momento jamais o contaram a ninguém, seja por medo, indulgência ou respeito, pois a luta entre eles não era apenas de corpos, mas de almas, de dores antigas, de sonhos desfeitos.

Neera atacava-o cegamente, movida pela dor e pela raiva há tanto acumulada, pela vida que havia sonhado e que acabara no dia em que ele a traíra por simples ambição e matara seu futuro, o futuro de ambos.
Lupus defendia-se como podia, mas o peso de outras batalhas lhe pesava nos ossos e, com vê-la, novas dores se somaram às antigas, arrebatando-lhe o corpo e a mente.
— Teu irmão... era um fraco, grunhiu ele, quando o rosto dela passou a centímetros do seu. Ele não era digno do trono do nosso povo...
— Não ouse..., uma garra surgiu do nada e dilacerou seu peito..., Sequer mencionar..., pequenos círculos multicoloridos dançaram diante de seus olhos à causa da súbita dor...,  O nome dele.

Ela era assim tão forte ou era ele quem estava cansado demais para conter tanta fúria? Mas, não importava mais, nada importava mais, somente detê-la, parar a loucura, antes que a verdadeira loucura o dominasse e tudo se tornasse trevas.
Um resquício de pensamento surgiu em sua mente; havia um meio, quiçá o último... deveria esquecer a dor, a acusação em seus olhos, tentar pensar com clareza, usar os poucos artifícios que ainda lhe sobraram...
— Fear era um tolo iludido, não merecia governar, provocou ele, escolhendo cuidadosamente cada palavra. Você, mais do que ninguém, deveria saber disso.
— Meu irmão era um guerreiro honrado, um rei generoso, vociferou ela em resposta. Seu único erro foi ter aberto as portas de sua casa para criaturas vis e sem honra, ter estendido a mão para a maldita Casa de Laycan.
Parecia transtornada, como se uma lembrança ruim a tivesse dominado.
Lupus se aproveitou disso, do súbito descontrole que suas palavras provocaram, e a golpeou abaixo do ventre; um longo filete de sangue manchou suas vestes, e Neera afastou-se cambaleante.
— Não fale com tanto desdém da Casa de Laycan, minha senhora. Não se esqueça que seu primeiro nascimento17 foi entre...
No entanto, sua frase ficou a meio caminho, pois Neera gritou furiosa, avançou num ímpeto e enlaçou seu corpo com ambos os braços, cravando os dentes em sua orelha esquerda e arrancando-lhe um generoso pedaço.
Lupus urrou de aflição e jogou-se para trás, chocando-se ambos contra a massa de corpos dos guerreiros caídos. Uma raiva súbita nasceu em algum lugar dentro de si e lhe subiu pela garganta como fogo; havia chegado o momento de pôr termo àquela luta.
Mas, a luta já acabara.
Estendida junto a seus antigos companheiros, Neera agonizava; as mãos no centro do peito emoldurando o brilho manchado das pontas de uma lança.
— Neera.
E, no entanto, ela não esboçou qualquer reação; manteve-se calma, os olhos fechados e, da boca manchada de sangue, saíram apenas duas palavras:
— Eu... confiei...
Lupus a segurou entre os braços, aproximou-a de si uma última vez e tentou confortá-la, até que sentiu, como sentira tantas vezes antes, a vida escapar por entre suas mãos, ir embora, junto com a esperança tola que por tantas vezes alimentou.
Naquele fim de tarde incolor, junto ao corpo da única criatura que havia sido sua por inteiro, Lupus Gaurain sentiu que uma sombra triste cobrira seu coração e, em meio ao grito de desespero que teimou em não sair de sua boca, teve a clara certeza de que nada mais poderia salvá-lo.


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1 — Traduzido do Anthár; lua. Como também é conhecida a semideusa da noite no Panteão Thargoriano.

2 — Uma das quatro grandes passagens que conduzem ao reino de Liar. Porém, por ser a mais distante da fronteira de contato com Argor, o mundo dos humanos, é também a menos protegida (em termos bélicos), ficando sua proteção mais centralizada na forte magia presente ali.

3 — Ilmor – O Povo das Sombras; raça thargoriana criada pelos Aymhóry, os Deuses Supremos, que têm por característica feições que se assemelham a felinos e lobos, de acordo com a casta e a etnia ao qual pertencem, indo desde os allury, que os humanos de Argor chamam de panteras, aos güin, os leões e os xian, chamados comumente de raposas.

4 — Reino Ilmory localizado no interior da grande floresta de Auturim (Amazônia, para os humanos), governada pelo rei Feros Fearin.

5 — Após o Isolamento de Argor, evento que separou definitivamente ambos os povos, todos os reinos thargorianos foram “retirados” do mundo dos homens, isolados e escondidos atrás de cortinas mágicas, e todo o contato entre humanos e thargorianos foi quebrado.

6 — Traduzido do Ilmóry: mitta = senhor; eny = guerra; Os Senhores da Guerra de Liar, o mais alto cargo de comando dos exércitos Ilmory.

7 — Cidades gêmeas localizadas próximo à fronteira leste do reino de Liar. Duas das mais importantes cidades de Argor, nelas estão localizadas a Ordem dos Mestres de Yanür e a Casa dos Embaixadores, as duas grandes instâncias de controle das leis do Isolamento, além de importantes rotas de comércio e troca. Durante o governo de Fear Urraerin, ambas as cidades foram invadidas pelos exércitos do imperador Techwa, de Nacchu. Com os guardiões da cidade derrotados, coube a Lupus, na época Mitaen de Liar, resistir à investida e expulsar os invasores.

8 — Poderoso guerreiro que desafiou o Conselho dos Sete, provocando o início da guerra entre os reinos Ilmory de Samos e Ennos. Para por termo à guerra, Liar, então aliada de Samos, propôs um desafio e enviou seu maior guerreiro, Lupus, para combater Ayos. A batalha entre ambos durou três dias e terminou com a vitória do guerreiro de Liar.

9 — O maior dentre todos os vales mágicos de Argor, situado no coração de Auturim (Amazônia); é uma imensa área criada e protegida magicamente para servir de morada aos seres místicos que não mais podiam ficar às vistas dos homens.

10 — O grande palácio do rei de Liar, situado na Cidade do Meio, um dos três grandes níveis da Cidade das Árvores.

11 — Maldição imposta a Lupus pelo rei Fear Urraerin, pouco antes deste morrer vítima de sua traição. A partir daquele dia, a cada novo ciclo da lua, ele se tornaria insano e descontrolado e seu coração ficaria para sempre maculado pela perfídia e pelo sangue que ele derramou.

12 — Primeira posição hierárquica dentro do exército Ilmor.

13 — Ritos de passagem da cultura Ilmory que compreendem a mudança da fase infantil para a fase adulta. Os nove estágios abrangem todos os treinamentos impostos àqueles nascidos para as castas guerreiras.

14 — Nai Lor – A Guarda do Rei; elite de guerreiros da ordem hierárquica dos Leruine especialmente treinado para a proteção do soberano dos Ilmory. Estão diretamente subordinados ao rei e, além dele, obedecem apenas ao Mitaen por ele indicado para ser seu líder.

15 — Considerado como o pior castigo imposto a um Ilmor, o Esquecimento consiste em despojar o prisioneiro de todo e qualquer vínculo como seu passado; é-lhe tirado o nome e a posição, sua etnia e seu clã lhe negam o nascimento e a existência e a mera citação de qualquer um de seus atos passados é proibida. Ele passa a viver como um sora, um “nada”, e até mesmo a morte lhe é negada.
    
16 — Como é conhecida a prisão de Liar. É formada por um conjunto de celas e corredores labirínticos encaixados entre as profundezas das raízes das grandes árvores que sustentam a cidade.

17 — Na tradição Ilmory, além do primeiro nascimento (quando o filhote vem ao mundo e vê, pela primeira vez, a luz de Ilar, o sol), há o chamado segundo nascimento, celebrado após os ritos de passagem, quando o jovem Ilmor é apresentado por seu clã ao resto dos Ilmory como um adulto formado.

Comentários  

 
0 #1 PrazerM. D. Amado 31-05-2009 20:36
A atmosfera de Lordes de Thargor invadiu o Estronho. É um prazer publicar Rober A. Pinheiro aqui. Principalmente sabendo que o conto foi escrito para o Estronho.

Não sei se consigo tecer um comentário que seja digno do grande Lupus. Prefiro apenas agradecer pela colaboração.

Valeu Rober! Sucesso sempre!
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0 #2 O prazer é meu!Rober A. Pinheiro 31-05-2009 21:00
Marcelo,

Sem dúvida a honra é minha em ter uma história publicada aqui, neste espaço que aprendi a frequentar quase que diariamente (senão, de hora em hora :D)

Valeu pela força e pelo espaço.

Grande abraço
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0 #3 Mr. LupusEric Novello 01-06-2009 08:55
Agora faça o favor de escrever um conto sobre a Neera. Cada vez mais interessado no povo felino da mitologia de Thargor! Parabéns pelo conto. Lupus rulez! =) Abss!
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0 #4 SIMPLESMENTE BRILHANTE!MÁRSON ALQUATI 02-06-2009 07:25
Difícil encontrar palavras para elogiar um trabalho tão perfeito como este. Meus parabéns Rober, o universo de THARGOR fascina e encanta, seja no livro de mesmo nome, seja nos pequenos contos tão magistralmente escritos e envolventes, com personagens bem construídos e tramas contundentes!
Adorei a história de Lupus. E ~´a estou ansioso pelo próximo...
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0 #5 AtmosferaEdson Bueno de Camargo 02-06-2009 10:31
Atmosfera é a palavra que me vem a cabeça, um bom conto fantástico é aquele que nos convida a percorrer as estradas desertas nas florestas e a nos sentir como guerreiros antigos.

Este conto consegue plenamente isto, escreva mais.

Abraços,
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0 #6 Muito BomHejus Benhur Oliveira Mello 02-06-2009 16:20
começei a ler mas infelizmente tive de parar mas irei retomar hj mesmo
mas so o começo ja esta muito bem escrito
parabens rober :P
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0 #7 Lupus e NeeraAngélica Bernardino 12-06-2009 11:38
Gostei muito do Lupus e da Neera, você retratou muito bem a força dos sentimentos entre os dois, elas me fizeram passar por um caleidoscópio de emoções, adorei! Isso, somado ao ambiente "assombrado" do embate entre ambos deixaram o conto impecável.

O conto reforçou em mim o desejo de ler Lordes de Thargor que está entre os meus 60 títulos em "vou ler" no skoob... Com certeza ele vai furar a fila... :-)

Parabéns, Rober! bj da angel ;-)
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0 #8 Duda Falcão 16-07-2009 17:14
Rober, demorei pra ler, mas finalmente consegui um tempo. E não foi perdido. Muito boa a história, Thargor vai ficando mais e mais concreta. É um trabalho muito difícil de realizar, perder as referências pode ser muito fácil. Porém, Thargor não é uma brincadeira de final de semana, pode-se perceber a construção de todo um universo somente a partir do glossário. O final da história para Lupus Gaurain é de desesperança e para o leitor a certeza de que Thargor cada vez mais se afirma na literatura nacional.
Um grande abraço!
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