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O Amanhecer da Batalha

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No amanhecer da batalha, o astro-rei ergue-se qual um colosso incandescente no horizonte, expulsando a escuridão que outrora se apossava da terra. Os grasnos dos corvos e abutres atraídos pelo cheiro de morte que o vento espalha, era o som predominante naquele momento. A noite foi selvagem e centenas de corpos mutilados agora cobrem os campos.

Assim que a claridade da manhã se estabeleceu por completo por todo o vale, Hodarak fincou sua espada no chão e, apoiando-se nela, sentou-se num rochedo. Sentia as pernas cansadas e os braços doloridos de tanto golpear. O líquido vermelho que escorria de sua lâmina ainda estava quente. Uma fadiga pesada como uma bigorna gigante caiu sobre ele. Sua garganta seca mal conseguia produzir saliva. Em seus pensamentos, ansiava por uma caneca de vinho. Dando uma olhada ao redor, avistou seus irmãos se recompondo, tomando fôlego e comemorando a vitória. Alguns terminavam de matar os inimigos feridos, caídos pelo campo verde, um outro ria e gracejava enquanto urinava na bandeira romana, tombada ao lado do cadáver do homem que antes a empunhava.
? Não tardará e as ilhas Britânicas serão dominadas! ? bradou um dos bárbaros e, logo em seguida, foi saldado pelos compatriotas com urros.
Todos sabem que o numeroso exército de Roma é disciplinado e determinado, sabem que os escudos dos adversários são famosos por serem sólidos como as rochas que compõem uma montanha. Contudo, aqueles bravos que invadiram terras alheias com a finalidade de conquistar o império Romano, são oriundos de um povo essencialmente guerreiro, procedente de uma sociedade onde todos os homens aprendem muito cedo que a arte mais respeitada é a guerra. Foram ensinados pelos seus ancestrais que venerar os antigos deuses e morrer pelo fio da espada do inimigo no campo de batalha é a maior honra que um homem pode obter em sua vida. Os bárbaros acreditavam fielmente que morrendo na selvageria da guerra, seriam levados além das estrelas por deusas seminuas e lá, em Valhala, veriam seus heróis e deuses. Hodarak pensava nisso naquele exato momento. Perguntava-se mentalmente qual seria o dia em que iria morrer e rever seus irmãos tombados no ardor das pugnas. Um tremor significativo de terra acompanhado de um retumbo surdo despertou Hodarak de seus pensamentos. Ele levantou-se com espanto estampado no rosto.
? Mas o que é isso!? ? exclamou.
Todos se mantiveram alerta, sem saber qual a origem do tremor. Olhando na direção contrária à do sol que acabara de se erguer, os germanos avistaram nas colinas distantes uma massa incontável de soldados marchando em fila, rumando para onde estavam. Os passos cadenciados das legiões faziam com que a terra tremesse e o som intimidador da marcha aumentasse com o avanço das tropas. Bandeiras erguidas mantinham-se na dianteira, seguidas pela infantaria armada com escudos e lanças. Cavaleiros postavam-se alinhados nas laterais. Compondo aquelas fileiras devia haver cerca de dez mil homens ou mais. Os romanos pareciam decididos a expulsar os invasores de suas terras.
? Venham cães, minha espada ainda está com sede! ? bradou Hodarak.
Os bárbaros, em menor número, reagruparam e prepararam-se para, mais uma vez, derrotar os soldados de Roma ou juntar-se aos irmãos mortos. A selvageria estava preste a recomeçar.
Mesmo cansados, com fome e com sede, para os guerreiros nascidos do vento negro, do fogo e do aço, as opções eram bastante restritas: esmagar seus inimigos ou morrer, tendo seus espíritos libertos enquanto os corvos e abutres se alimentam de seus corpos. Acreditando na vitória, lançaram-se com ódio contra as legiões de Roma. O som agudo do choque entre os aços ecoavam na companhia de gritos de ódio e de dor. Do alvorecer, a batalha se estendeu até a tarde, quando os mais numerosos conquistaram sua vitória e os abutres se banquetearam com os cadáveres dos invasores. Mas, a guerra estava no início e o solo britânico ainda seria palco de horríveis e furiosas batalhas.  
Decorridas horas, uma lua branca e fria já lançava pálidos raios de luz sobre a noite enevoada quando as tropas Romanas se retiravam, levando consigo seus feridos. Os invasores foram aniquilados. A ordem do comando havia sido clara: “Não haverá prisioneiros”. Dias depois, um exército espantoso de bárbaros selvagens - que se estendia por léguas - migrou da Ásia Ocidental para o norte da Europa, convencidos de se fixarem naquelas terras. Os germanos, os eslavos e os tártaro-mongóis atacaram com tudo o que tinham. Sem piedade, acometeram e dominaram várias cidades e vilarejos. A guerra durou anos. Anos espalhando sangue, lutando na claridade do dia e na escuridão da noite, deixando centenas de corpos cobrindo os campos a cada amanhecer da batalha.      
       

Comentários  

 
0 #1 MÁRSON ALQUATIMárson Alquati 23-03-2009 08:39
Maravilhosa reconstituição histórica dos tempos da antiga Roma e suas batalhas. Inspirador e envolvente, nos remete ao longínquo, mas real passado de nossa própria história.
Meus parabéns Evandro! Fabuloso como sempre! E mais uma vez, a tua arte fala por si e majestosamente ilustra este, que considero um dos melhores contos que já li!
Um forte abraço!

www.ethernyt.com
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0 #2 Juliano Sasseron 25-03-2009 16:31
Difícil me expressar depois do grande Márson ter feito esse comentário que resume tudo.

Simplesmente magnífico!
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0 #3 igor santos 05-05-2009 14:07
Um bom conto, as ultimas horas de um guerreiro que após batalhar com muito ardor morrer em gloria apos ter matado muitos inimigos...

Muito bom!
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0 #4 Evandro Guerra 09-05-2009 20:15
É isso ai Igor!... Morrer banhado pela glória e honra!RS
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0 #5 walisson 11-05-2009 13:02
sem palavras...perfeito
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0 #6 Daniele 24-06-2009 09:28
Perfeito!!!! simplesmente muito bom, esse vai longe!
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0 #7 Diego Mendes 13-07-2009 07:50
Vou ser breve . . .

MUITO BOM , PARABENS !
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0 #8 Noguera Mosh 17-10-2009 00:14
Mto bom!
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0 #9 evandro guerrajuliane 24-10-2009 22:26
mto bom msm
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