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06 Março 2009
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Contos Estronhos -
Contos e Crônicas

Nas primeiras horas do dia, o menino João espera na praia com os olhos presos no mar. Sobre sua cabeça, se estende um céu azul sem limites. No ponto mais distante que sua vista pode alcançar, o firmamento se curvava tocando o oceano. Estava inquieto, excitado, apreensivo; quase não dormiu durante a noite pela ansiedade. Tudo isso porque esta é a primeira vez que o jovem partirá com o pai e o irmão mais velho para uma pescaria. Não tão distante dele, pescadores se preparam para mais um dia inteiro de trabalho no alto-mar. Logo, seu pai Osías surge acompanhado por seu irmão, Paulo e sua mãe, Maria.
Um forte receio existia dentro do coração daquela mãe. Desgostava da idéia de que seu filho muito garoto ainda, enfrentasse inconstantes marés. No entanto, dez anos era a idade tradicional para a iniciação de crianças na prática daquele ofício através do qual vivia exclusivamente aquele humilde vilarejo. Contudo, o coração da mãe reclamava, espremendo-se dentro do peito, pois sabia que não raramente, pescadores iam e não voltavam. Findavam desaparecidos ou naufragados. Ela esforçou-se para tentar disfarçar o próprio receio.
O barco de Osías era de pequeno porte, com capacidade para, no máximo, seis pessoas. E foi neste número que seguiram. Maria acenava da areia para o marido e seus dois filhos com um único pensamento: “que Deus os acompanhe e traga-os de volta.” Quase uma dúzia de barcos parecidos, muito perto uns dos outros, adentrava cada vez mais no mar aberto. O som dos motores das embarcações diminuía conforme se distanciavam da praia. Quando não havia terra à vista, eles pararam e jogaram suas redes. Passaram a tarde inteira neste serviço. Um bando de gaivotas acompanhava-os, flechando o ar. Osías sentia-se orgulhoso de seu filho caçula porque este mostrava trazer nas veias o dom da pesca. O suor causado pelo forte sol fazia com que as roupas dos pescadores colassem em seus corpos. Osías retirou o chapéu de palha da cabeça e colocou na cabeça de João. Logo, o dia já estaria declinando, a noite não tardaria a chegar.
Bem sucedidos no trabalho, todos se preparavam para o regresso quando alguém apontou uma nuvem negra ainda distante. Chuva. E parecia das grandes. Navegaram de volta, mas foram surpreendidos por um fenômeno estranho: sem mais nem menos, foram envolvidos por uma espessa neblina cinzenta. Aconteceu em segundos. O nevoeiro trazia consigo uma tempestade de fúria nunca antes vista por aqueles experientes trabalhadores. Como se as mãos do Satanás agitassem o mar, ondas impetuosas surgiram. Os barcos passaram a balançar de modo perigoso, de um lado para o outro. Osías, que por toda vida enfrentou a fúria das marés, estava com medo. Sentia o perigo iminente. A chuva caía em pingos grossos. O vento soprava em tom de vilania. Foi com espanto que Osías e os tripulantes de sua embarcação assistiram um barco próximo rodopiar e tombar. No momento em que o mar rugia raivoso e suas ondas batiam insistentes nas tábuas dos botes, trovões partiram os céus e roncaram como monstros. No truculento recuo do mar, três caíram nas águas. Osías e seu filho Paulo fizeram o que puderam para ajudar os náufragos, mas tudo foi inútil.
A tempestade não dava trégua. O motor do barco de Osías parou de repente. Agitando-se em movimentos loucos, as ondas alcançavam alturas incríveis e separavam as embarcações. Para equilibrar o peso, Osías ordenou aos filhos que ficassem agachados no centro do barco e, de súbito, foi obedecido. Sem nenhuma visão ou referência, eles sequer imaginavam para onde os levavam as ondas. Sob visibilidade zero, vagaram por horas naquele horrível temporal até que colidiram com um rochedo de uma costa desconhecida. O casco do barco foi seriamente danificado e os corpos da tripulação foram jogados ao mar. Por sorte, estavam próximos da ilha. Em tom de desespero, Osías agarrou João e carregou-o até terra firme. Seus pés afundavam na lama das margens. A família ficou imóvel por instantes, observando o barco ser jogado com tremenda fúria pelo mar contra as rochas, reduzindo-o a pedaços de madeira.
? Como vamos voltar? ? indagou Paulo, num misto de aflição e preocupação.
? Daremos um jeito. ? seu pai demorou a responder.
Em sequência, tiveram nova surpresa: a tempestade passou a cuspir pedras. Não, não eram pedras, e sim granizo. Cinquenta e cinco anos de idade e Osías nunca havia visto aquilo. Já ouvira falar de cidades onde, em determinadas épocas do ano, chovia pedaços de gelo, mas eram apenas histórias de viajantes e turistas. Eles ficaram surpresos e descrentes. A pele ardia quando atingida. Com sensatez, Osías tratou de encontrar um local onde pudessem se estalar até quando aquele temporal passasse. Num ponto da ilha verdejante, avistou o que parecia ser uma caverna, quase oculta por arbustos. “Vamos” – ordenou aos filhos. Quando chegaram perto da entrada da caverna, Paulo lançou:
? E se tiver um urso ou uma onça morando ai?
? Deixe de besteira! ? exclamou o pai e completou ? Como é que esses bichos podem viver numa ilha?!
Paulo calou-se. Refletiu que seu pai deveria estar certo, não haveria como um urso ou uma onça nadasse por tamanha distância até aquela ilha perdida no meio do oceano. Contudo, Osías retirou seu facão do cinto de couro e seguiu na liderança. Passaram pelos arbustos e adentraram na caverna. De lá, protegidos do dilúvio, só tinham como opção esperar e assim fizeram. A chuva parecia que não mais terminaria. Foram obrigados a dormir na escuridão da furna. No dia seguinte, logo cedo, despertados foram pelos fachos de luz do sol. João, após ouvir um som indefinido, sem que seu pai e seu irmão percebessem, seguiu para o fundo da caverna. Escorregou numa superfície lisa e caiu num buraco fundo. Gritou. Alertados pelo grito, Osías e Paulo ? que se encontravam do lado externo da caverna ? correram em seu auxílio. Igualmente ao menino, ambos escorregaram e despencaram de uma altura de seis metros, sobre uma generosa poça de água barrenta. João já se encontrava em pé, rodando a vista pelo ambiente quando seu pai e seu irmão se ergueram queixando-se de dores. Mudos pela admiração, eles fitaram um mundo de beleza inigualável. Uma imensa floresta virgem e inexplorada.
Certos de que não daria para retroceder pelo mesmo caminho de onde vieram, resolveram caminhar explorando o terreno. Sem noção do local onde estavam, caminharam ao léu, prestando atenção à paisagem. Logo, João queixou-se de fome. Descansaram um pouco embaixo de uma árvore, voltaram a andar depois, resolvidos a encontrar alimento. O pai seguia na frente, cortando os arbustos e moitas com o facão. Não demorou muito e encontraram bananeiras, goiabeiras, jaqueiras... Mataram a sede num riacho de água fresca e cristalina. Viram-se obrigados a passar mais uma noite no local desconhecido. Antes do anoitecer, amontoaram uma porção de pedaços de paus secos e fizeram uma fogueira esfregando madeiras. Com isso, tinham claridade e repeliam insetos. Ruídos estranhos vindos da mata dificultavam o sono, fazendo com que eles não dormissem bem durante a noite. Quando novo dia nasceu, recomeçaram a busca por alimento e pela saída daquela terra. Sob um sol inclemente, retiraram suas camisas. Cansados e suarentos, não pensavam noutra coisa a não ser voltar para o aconchego de seu casebre humilde.
Papagaios passaram a gritar das copas das árvores. Até então, aves eram os únicos habitantes que eles haviam visto naquele lugar. Mas logo isso mudou. Depois de se alimentarem de frutas, ouviram galhos que estalavam perto. Assustaram-se. Num ponto da mata, a folhagem passou a se abrir. Alguma coisa seguia na direção deles. Um rosnado rouco, pesado e intimidador fez com que os três se agrupassem. Espantados, de olhos arregalados, aguardaram fosse o que fosse aquilo sair das matas. Seria um urso? Um gorila? Osías postou-se na frente dos filhos. Empunhou o facão. Não tardou e a fera se descortinou da mata alta. Era um felino enorme, pré-histórico, muito maior do que um leão. As presas do canto da bocarra eram exageradamente enormes. A fera rugiu alto. Osías, Paulo e João fizeram o que qualquer pessoa comum faria: correram. O felino pré-histórico seguiu-os sem nenhuma dificuldade. Saíram da mata fechada. Ficaram encurralados numa área rochosa. Era o fim. Pai e filhos serviriam como alimento para aquele monstro peludo de quatro patas. Mas algo inusitado ocorreu. No momento em que estava pronta para atacá-los, a fera parou. Silenciou-se. Passou a prestar atenção nos sons ao arredor. Farejou o ar. Grunhidos baixos, quase inaudíveis, passaram a vir de todos os lados. Inacreditavelmente, o monstruoso felino assumiu uma postura medrosa, assemelhando-se com um gato doméstico assustado. Com evidente covardia, fugiu desconcertadamente, desaparecendo entre a folhagem da floresta. Quase em seguida, um bando de criaturas surgiu da mata, fazendo um semicírculo nos três pescadores. Eram uns quinze ou mais. Mudos de espanto, os homens fitavam aqueles estranhos seres. Eram primatas peludos, com mãos e pés grandes, orelhas pontudas e apenas um olho. Isso mesmo!... Apenas um olho no centro da testa. “Mas que diabo é isso?!” Lançou Osías, como se falasse consigo mesmo. Os primatas carregavam lanças feitas de madeira e Osías logo as associou à caça. De olhar calmo, não pareciam violentos, no entanto, movimentaram-se de forma pouco amistosa. Como fazem as tribos indígenas, apontaram suas lanças para os desconhecidos e os obrigaram a caminhar. Enquanto andavam rumando para a morada das criaturas, pai e filhos num misto de curiosidade e medo fitavam os seres que analisavam em suas mãos o facão retirado de Osías. Logo chegaram. Foram conduzidos para uma montanha, onde adentraram numa caverna grande. De lá, tinham privilegiada vista da selva.
Um medo crescente tomou os cativos quando avistaram diversos esqueletos espalhados. Esqueletos de animais e, estranhamente, de humanos. Não frequentemente, pescadores ganhavam o alto-mar e não retornavam para suas famílias, foi o que passou pela mente de Paulo naquele momento. Uma ossada do mesmo felino que os seguira há pouco se encontrava num canto do chão. Pararam. Uma das criaturas aproximou-se de João. Cheirou-o. Lambeu seu braço. Osías de súbito percebeu do que se tratava. Entendeu o porquê do enorme felino ter fugido amedrontado: eles se alimentam de carne! O menino João foi puxado e obrigado a se afastar de seus familiares. Numa demonstração de coragem, Osías agrediu uma das criaturas, tirou dela seu facão e, como tomado pela loucura, passou a atacar aqueles seres.
? Corre Paulo! ? ele gritou em tom de ordem ? Pegue seu irmão e fuja!
Paulo não pensou duas vezes. Agrediu os primatas e pegou seu irmão pelo braço. Seguiram por uma bifurcação. Esconderam-se numa reentrância escura. Esperaram. Despistaram seus perseguidores. Continuaram adiante. Estavam ofegantes, com o coração disparado e o medo no ápice. Ouviram passos apressados se aproximarem. Viraram numa entrada à direita. Os olhos de Paulo esbugalharam-se ao encontrar pedras brilhantes entre um chão pedregoso e repleto de esqueletos de animais. Algumas pedras brilhavam em tons verdes, outras em vermelho e outra ainda eram transparentes. “Diamantes, esmeraldas, rubis!...” – sussurrou Paulo. Nunca antes tinha visto um, mas sabia, sentia que eram verdadeiras e valiosas pedras. Agachou-se e encheu os bolsos. Sem notar, um sorriso enfeitou-lhe o rosto. O menino João apenas o observava em pé, sem nada entender. Então, foram surpreendidos. Pelo menos, meia dúzia de criaturas surgiu. Espetando suas costas com lanças, obrigaram-nos a caminhar, retornando para onde estavam antes. Quando lá chegaram, uma visão fê-los chorar: João estava caído, sem vida e quatro daqueles seres de um olho só, brigavam sobre seu corpo, disputando a refeição. Os olhos úmidos dos irmãos assistiram arrancarem pedaços das pernas e dos braços de seu pai a ferozes mordidas. Sob total desespero, João ajoelhou-se e levou as mãos à cabeça. Chorou convulsionadamente. Apesar de pouca idade, sabia que seu fim seria o mesmo que o de seu pai. Parado ao seu lado, seu irmão Paulo visivelmente em pânico, retirou dos bolsos as pedras preciosas que há pouco acabara de encontrar. Encheu as duas mãos com elas. “Tanta riqueza e nenhum desfrute” ? foi seu último pensamento. Um bando incontável daquelas criaturas rodeou-os e seus corpos garantiram o alimento de muitos.
O barco de Osías era de pequeno porte, com capacidade para, no máximo, seis pessoas. E foi neste número que seguiram. Maria acenava da areia para o marido e seus dois filhos com um único pensamento: “que Deus os acompanhe e traga-os de volta.” Quase uma dúzia de barcos parecidos, muito perto uns dos outros, adentrava cada vez mais no mar aberto. O som dos motores das embarcações diminuía conforme se distanciavam da praia. Quando não havia terra à vista, eles pararam e jogaram suas redes. Passaram a tarde inteira neste serviço. Um bando de gaivotas acompanhava-os, flechando o ar. Osías sentia-se orgulhoso de seu filho caçula porque este mostrava trazer nas veias o dom da pesca. O suor causado pelo forte sol fazia com que as roupas dos pescadores colassem em seus corpos. Osías retirou o chapéu de palha da cabeça e colocou na cabeça de João. Logo, o dia já estaria declinando, a noite não tardaria a chegar.
Bem sucedidos no trabalho, todos se preparavam para o regresso quando alguém apontou uma nuvem negra ainda distante. Chuva. E parecia das grandes. Navegaram de volta, mas foram surpreendidos por um fenômeno estranho: sem mais nem menos, foram envolvidos por uma espessa neblina cinzenta. Aconteceu em segundos. O nevoeiro trazia consigo uma tempestade de fúria nunca antes vista por aqueles experientes trabalhadores. Como se as mãos do Satanás agitassem o mar, ondas impetuosas surgiram. Os barcos passaram a balançar de modo perigoso, de um lado para o outro. Osías, que por toda vida enfrentou a fúria das marés, estava com medo. Sentia o perigo iminente. A chuva caía em pingos grossos. O vento soprava em tom de vilania. Foi com espanto que Osías e os tripulantes de sua embarcação assistiram um barco próximo rodopiar e tombar. No momento em que o mar rugia raivoso e suas ondas batiam insistentes nas tábuas dos botes, trovões partiram os céus e roncaram como monstros. No truculento recuo do mar, três caíram nas águas. Osías e seu filho Paulo fizeram o que puderam para ajudar os náufragos, mas tudo foi inútil.
A tempestade não dava trégua. O motor do barco de Osías parou de repente. Agitando-se em movimentos loucos, as ondas alcançavam alturas incríveis e separavam as embarcações. Para equilibrar o peso, Osías ordenou aos filhos que ficassem agachados no centro do barco e, de súbito, foi obedecido. Sem nenhuma visão ou referência, eles sequer imaginavam para onde os levavam as ondas. Sob visibilidade zero, vagaram por horas naquele horrível temporal até que colidiram com um rochedo de uma costa desconhecida. O casco do barco foi seriamente danificado e os corpos da tripulação foram jogados ao mar. Por sorte, estavam próximos da ilha. Em tom de desespero, Osías agarrou João e carregou-o até terra firme. Seus pés afundavam na lama das margens. A família ficou imóvel por instantes, observando o barco ser jogado com tremenda fúria pelo mar contra as rochas, reduzindo-o a pedaços de madeira.
? Como vamos voltar? ? indagou Paulo, num misto de aflição e preocupação.
? Daremos um jeito. ? seu pai demorou a responder.
Em sequência, tiveram nova surpresa: a tempestade passou a cuspir pedras. Não, não eram pedras, e sim granizo. Cinquenta e cinco anos de idade e Osías nunca havia visto aquilo. Já ouvira falar de cidades onde, em determinadas épocas do ano, chovia pedaços de gelo, mas eram apenas histórias de viajantes e turistas. Eles ficaram surpresos e descrentes. A pele ardia quando atingida. Com sensatez, Osías tratou de encontrar um local onde pudessem se estalar até quando aquele temporal passasse. Num ponto da ilha verdejante, avistou o que parecia ser uma caverna, quase oculta por arbustos. “Vamos” – ordenou aos filhos. Quando chegaram perto da entrada da caverna, Paulo lançou:
? E se tiver um urso ou uma onça morando ai?
? Deixe de besteira! ? exclamou o pai e completou ? Como é que esses bichos podem viver numa ilha?!
Paulo calou-se. Refletiu que seu pai deveria estar certo, não haveria como um urso ou uma onça nadasse por tamanha distância até aquela ilha perdida no meio do oceano. Contudo, Osías retirou seu facão do cinto de couro e seguiu na liderança. Passaram pelos arbustos e adentraram na caverna. De lá, protegidos do dilúvio, só tinham como opção esperar e assim fizeram. A chuva parecia que não mais terminaria. Foram obrigados a dormir na escuridão da furna. No dia seguinte, logo cedo, despertados foram pelos fachos de luz do sol. João, após ouvir um som indefinido, sem que seu pai e seu irmão percebessem, seguiu para o fundo da caverna. Escorregou numa superfície lisa e caiu num buraco fundo. Gritou. Alertados pelo grito, Osías e Paulo ? que se encontravam do lado externo da caverna ? correram em seu auxílio. Igualmente ao menino, ambos escorregaram e despencaram de uma altura de seis metros, sobre uma generosa poça de água barrenta. João já se encontrava em pé, rodando a vista pelo ambiente quando seu pai e seu irmão se ergueram queixando-se de dores. Mudos pela admiração, eles fitaram um mundo de beleza inigualável. Uma imensa floresta virgem e inexplorada.
Certos de que não daria para retroceder pelo mesmo caminho de onde vieram, resolveram caminhar explorando o terreno. Sem noção do local onde estavam, caminharam ao léu, prestando atenção à paisagem. Logo, João queixou-se de fome. Descansaram um pouco embaixo de uma árvore, voltaram a andar depois, resolvidos a encontrar alimento. O pai seguia na frente, cortando os arbustos e moitas com o facão. Não demorou muito e encontraram bananeiras, goiabeiras, jaqueiras... Mataram a sede num riacho de água fresca e cristalina. Viram-se obrigados a passar mais uma noite no local desconhecido. Antes do anoitecer, amontoaram uma porção de pedaços de paus secos e fizeram uma fogueira esfregando madeiras. Com isso, tinham claridade e repeliam insetos. Ruídos estranhos vindos da mata dificultavam o sono, fazendo com que eles não dormissem bem durante a noite. Quando novo dia nasceu, recomeçaram a busca por alimento e pela saída daquela terra. Sob um sol inclemente, retiraram suas camisas. Cansados e suarentos, não pensavam noutra coisa a não ser voltar para o aconchego de seu casebre humilde.
Papagaios passaram a gritar das copas das árvores. Até então, aves eram os únicos habitantes que eles haviam visto naquele lugar. Mas logo isso mudou. Depois de se alimentarem de frutas, ouviram galhos que estalavam perto. Assustaram-se. Num ponto da mata, a folhagem passou a se abrir. Alguma coisa seguia na direção deles. Um rosnado rouco, pesado e intimidador fez com que os três se agrupassem. Espantados, de olhos arregalados, aguardaram fosse o que fosse aquilo sair das matas. Seria um urso? Um gorila? Osías postou-se na frente dos filhos. Empunhou o facão. Não tardou e a fera se descortinou da mata alta. Era um felino enorme, pré-histórico, muito maior do que um leão. As presas do canto da bocarra eram exageradamente enormes. A fera rugiu alto. Osías, Paulo e João fizeram o que qualquer pessoa comum faria: correram. O felino pré-histórico seguiu-os sem nenhuma dificuldade. Saíram da mata fechada. Ficaram encurralados numa área rochosa. Era o fim. Pai e filhos serviriam como alimento para aquele monstro peludo de quatro patas. Mas algo inusitado ocorreu. No momento em que estava pronta para atacá-los, a fera parou. Silenciou-se. Passou a prestar atenção nos sons ao arredor. Farejou o ar. Grunhidos baixos, quase inaudíveis, passaram a vir de todos os lados. Inacreditavelmente, o monstruoso felino assumiu uma postura medrosa, assemelhando-se com um gato doméstico assustado. Com evidente covardia, fugiu desconcertadamente, desaparecendo entre a folhagem da floresta. Quase em seguida, um bando de criaturas surgiu da mata, fazendo um semicírculo nos três pescadores. Eram uns quinze ou mais. Mudos de espanto, os homens fitavam aqueles estranhos seres. Eram primatas peludos, com mãos e pés grandes, orelhas pontudas e apenas um olho. Isso mesmo!... Apenas um olho no centro da testa. “Mas que diabo é isso?!” Lançou Osías, como se falasse consigo mesmo. Os primatas carregavam lanças feitas de madeira e Osías logo as associou à caça. De olhar calmo, não pareciam violentos, no entanto, movimentaram-se de forma pouco amistosa. Como fazem as tribos indígenas, apontaram suas lanças para os desconhecidos e os obrigaram a caminhar. Enquanto andavam rumando para a morada das criaturas, pai e filhos num misto de curiosidade e medo fitavam os seres que analisavam em suas mãos o facão retirado de Osías. Logo chegaram. Foram conduzidos para uma montanha, onde adentraram numa caverna grande. De lá, tinham privilegiada vista da selva.
Um medo crescente tomou os cativos quando avistaram diversos esqueletos espalhados. Esqueletos de animais e, estranhamente, de humanos. Não frequentemente, pescadores ganhavam o alto-mar e não retornavam para suas famílias, foi o que passou pela mente de Paulo naquele momento. Uma ossada do mesmo felino que os seguira há pouco se encontrava num canto do chão. Pararam. Uma das criaturas aproximou-se de João. Cheirou-o. Lambeu seu braço. Osías de súbito percebeu do que se tratava. Entendeu o porquê do enorme felino ter fugido amedrontado: eles se alimentam de carne! O menino João foi puxado e obrigado a se afastar de seus familiares. Numa demonstração de coragem, Osías agrediu uma das criaturas, tirou dela seu facão e, como tomado pela loucura, passou a atacar aqueles seres.
? Corre Paulo! ? ele gritou em tom de ordem ? Pegue seu irmão e fuja!
Paulo não pensou duas vezes. Agrediu os primatas e pegou seu irmão pelo braço. Seguiram por uma bifurcação. Esconderam-se numa reentrância escura. Esperaram. Despistaram seus perseguidores. Continuaram adiante. Estavam ofegantes, com o coração disparado e o medo no ápice. Ouviram passos apressados se aproximarem. Viraram numa entrada à direita. Os olhos de Paulo esbugalharam-se ao encontrar pedras brilhantes entre um chão pedregoso e repleto de esqueletos de animais. Algumas pedras brilhavam em tons verdes, outras em vermelho e outra ainda eram transparentes. “Diamantes, esmeraldas, rubis!...” – sussurrou Paulo. Nunca antes tinha visto um, mas sabia, sentia que eram verdadeiras e valiosas pedras. Agachou-se e encheu os bolsos. Sem notar, um sorriso enfeitou-lhe o rosto. O menino João apenas o observava em pé, sem nada entender. Então, foram surpreendidos. Pelo menos, meia dúzia de criaturas surgiu. Espetando suas costas com lanças, obrigaram-nos a caminhar, retornando para onde estavam antes. Quando lá chegaram, uma visão fê-los chorar: João estava caído, sem vida e quatro daqueles seres de um olho só, brigavam sobre seu corpo, disputando a refeição. Os olhos úmidos dos irmãos assistiram arrancarem pedaços das pernas e dos braços de seu pai a ferozes mordidas. Sob total desespero, João ajoelhou-se e levou as mãos à cabeça. Chorou convulsionadamente. Apesar de pouca idade, sabia que seu fim seria o mesmo que o de seu pai. Parado ao seu lado, seu irmão Paulo visivelmente em pânico, retirou dos bolsos as pedras preciosas que há pouco acabara de encontrar. Encheu as duas mãos com elas. “Tanta riqueza e nenhum desfrute” ? foi seu último pensamento. Um bando incontável daquelas criaturas rodeou-os e seus corpos garantiram o alimento de muitos.
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Comentários
Abertura competente, desenrolar envolvente e final inesperado e chocante. Adorei a descrição da tempestade e dos ciclopes.
Sem contar a ilustração, que por si só já merece dez estrelas, mas como só tem cinco, esse é o meu voto...
Um forte abraço, meu amigo e colega escritor!
www.ethernyt.blogspot.com
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