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ANDRE BOZZETTO JR. IAM GODOY - Muito obrigado por disponibilizar um tempo para esta entrevista. ANDRÉ BOZZETTO JR – Sou eu quem agradece pela oportunidade de divulgar os meus trabalhos. Até porque, sou um leitor assíduo dos fanzines “Fun House Xtreme” e “Flores do Lado de Cima” da Ravens House Brasil e da coluna Sangria, de forma que é uma satisfação para mim estar em contato com quem trabalha de forma independente para divulgar as manifestações artísticas ligadas ao horror, ao obscuro e ao fantástico de uma maneira geral. |
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IAM GODOY - Existe alguma motivação por detrás deste seu fascínio pelo mito do lobisomem ou é apenas uma mera escolha de gênero?
ABJ – Eu já perguntei isso para mim mesmo e cheguei à conclusão de que não fui eu quem escolheu os lobisomens, mas sim fui escolhido por eles. Digo isso em função da constatação de que não houve um fato ou motivo específico que me levou a me tornar um aficionado pelas criaturas licantrópicas, mas sim uma combinação de diversos elementos. Em primeiro lugar, acho que foi bastante significativo o fato de eu ter nascido e crescido em uma minúscula cidadezinha chamada Ilópolis, localizada no interior da região serrana do Rio Grande do Sul, onde os “causos” não apenas sobre lobisomens, mas também sobre assombrações em geral sempre foram bastante comuns e, pelas informações que tenho, continuam passando de geração para geração até nos dias atuais, ainda que de forma possivelmente menos intensa do que no passado. Mas, além de ter passado toda a infância ouvindo histórias supostamente “reais” contadas pelos mais velhos, eu ainda fui muito influenciado pela televisão. Em meados da década de 1980 a Rede Globo exibia a novela “Roque Santeiro” onde havia um personagem que se transformava em lobisomem e ele me assustava e fascinava na mesma proporção em cada capítulo em que aparecia. Nessa mesma época – ou pouco depois – comecei a assistir a aqueles filmes maravilhosos que eram exibidos e reprisados com grande freqüência pelo canal SBT, como “Grito de Horror”, “Bala de Prata” e o inesquecível “Um Lobisomem Americano em Londres”, que ajudaram a consolidar não só a minha paixão pelos licantropos, mas pelos filmes de terror em geral. A “conversão” se completou entre 1989 e 1990, quando a Rede Globo exibiu a série norte-americana “O Lobisomem ataca de novo” (apenas “Werewolf” no título original). Os episódios dessa fantástica série eram exibidos no sugestivo horário das sextas-feiras, exatamente à meia-noite. Eu ficava acordado até àquela hora para assistir e isso era o máximo! Com certeza, me marcou muito, pois se trata de uma das coisas mais legais que já assisti envolvendo lobisomens, tanto que lamento o fato de nunca ter sido lançado o box da série em DVD aqui no Brasil. Acrescente a isso tudo muita leitura de HQs do tipo “Kripta”, “Calafrio” e “Mestres do Terror”, entre outras similares e pronto: está desvendada a origem do meu fascínio pelos lobisomens (risos)!
IAM GODOY - Sabe-se que as lendas sobre o "mal da lua" são constantes na Europa. Os lobisomens dos seus contos são tipicamente europeus ou você costuma incrementá-los com o folclore nacional?
ABJ – Eu diria que os meus lobisomens são acima de tudo cinematográficos, pois as minhas histórias são muito mais influenciadas pelos filmes que citei na resposta anterior do que propriamente pelas lendas européias ou de qualquer outra vertente. Porém, todos os meus contos são ambientados no Brasil, em sua maioria na região sul do país, de tal forma que os elementos regionais muitas vezes estão presentes em meio aos enredos, pois acredito que isso dá um toque especial ao trabalho. Não tenho nada contra os autores brasileiros que ambientam suas histórias na Europa ou nos EUA, mas me agrada muito mais a idéia de explorar (pelo menos alguns) elementos da nossa própria cultura e realidade para dar às histórias uma perspectiva tipicamente brasileira. Isso, a meu ver, é bem mais cativante do que a mera reprodução de contextos estrangeiros.
IAM GODOY - Como é conciliar os papéis de professor universitário e escritor de contos de horror?
ABJ – Eventualmente as coisas ficam um pouco complicadas em função do pouco tempo para desempenhar as duas funções. Mas isso é mais ocasional, pois em circunstâncias normais consigo me organizar para dar conta de tudo. Eu adoro lecionar e escrever, então isso é algo que não desgasta, mas ao contrário, me proporciona uma grande satisfação. Acho que quando o nosso cotidiano gira em torno de coisas das quais gostamos, fica mais fácil para atingirmos nossas metas. Às vezes me flagro pensando sobre isso e me sinto privilegiado por poder viver fazendo aquilo que gosto.
IAM GODOY - Fale-nos um pouco sobre seu novo livro, "Na Próxima Lua Cheia"?
ABJ – Esse é um livro que eu comecei a escrever em 2007, mas parei porque me mudei para Santa Cruz do Sul depois de ter ganhado uma bolsa de Mestrado. Só consegui me dedicar a ele novamente em 2009, depois de ter me transferido para Pinhalzinho – SC, onde resido e trabalho atualmente. O enredo do livro gira em torno de um personagem chamado Lucas, que, obcecado em desvendar a verdade por trás de uma história antiga e obscura narrada por seu pai no leito de morte, decide partir na companhia de dois amigos em uma viagem a um lugarejo remoto no interior da região serrana do Rio Grande do Sul. Chegando ao seu destino, ele descobre que há um alto preço a ser pago pelos segredos revelados, pois quando surge a lua cheia, o trio de amigos se vê diante de horrendas criaturas dispostas a manchar de sangue os tons sombrios da noite. Trata-se de uma história sobre vingança e lobisomens, com bastante ação, violência e sangue, muito sangue (risos)! Gosto de acreditar na idéia de que o pessoal que vem acompanhado o meu trabalho – e mesmo os fãs de lobisomem em geral – têm tudo para gostar do livro, pois me esforcei em criar uma trama envolvente que culmina em um final impactante e surpreendente. “Na próxima lua cheia” ainda não tem data de lançamento definida, mas com certeza será publicado ainda no primeiro semestre de 2010, pela Editora Multifoco.
IAM GODOY - A literatura fantástica nacional está vivendo um "boom" vampírico. Como é entrar "uivando" num mercado tomado por sugadores de sangue?
ABJ – É uma experiência e tanto. Se formos fazer uma análise, veremos que ao longo do tempo sempre foram raríssimas as publicações de livros abordando a temática dos lobisomens no Brasil, e quando estas ocorreram foram quase sempre traduções de obras estrangeiras, como por exemplo, o romance “A Hora do Lobisomem” de Stephen King, ou então livros teóricos voltados ao estudo do mito, cujo exemplo mais emblemático é o clássico “O Livro dos Lobisomens”, de Sabine Baring-gould, que também já foi publicado por aqui com o título de “Lobisomens – Um tratado sobre casos de licantropia”. Publicações de autores nacionais além de escassas também tendem a ser mais direcionadas para abordagens do folclore, como o interessante (e raro) “Lobisomem”, de Maria L. V. Ribeiro Pinto, ou então obras não diretamente relacionadas ao gênero horror, como “O Coronel e o Lobisomem”, de José Cândido de Carvalho. Porém, eu vejo o momento atual como favorável, pois tivemos recentemente o lançamento da antologia de contos “Metamorfose: A Fúria dos Lobisomens”, organizada por Ademir Pascale para a Editora All Print, e já é bastante perceptível que o livro está rapidamente alcançando status de “cult” entre os apreciadores do gênero. Além disso, a receptividade ao meu blog de contos “Escrituras da Lua Cheia” tem sido tão positiva que eu me sinto tentado a crer que há sim espaço para a publicação e mesmo consumo de obras literárias que tenham os lobisomens como protagonistas, embora não seja sensato acreditar que os licantropos possam tomar o lugar dos vampiros, que historicamente possuem uma tradição literária muito mais fortemente consolidada, em função de uma série de motivos. Em síntese: encaro a situação como um grande desafio, mas convencido de que o sucesso é possível.
IAM GODOY - Quais as suas principais inspirações literárias e cinematográficas?
ABJ – São tantos nomes que fica até difícil citar apenas alguns. Na literatura, é impossível não mencionar os clássicos como Bram Stoker, Mary Shelley, Poe, Lovecraft, Álvares de Azevedo e Stephen King, embora eu acredite que o meu estilo de escrita é mais influenciado por Clive Barker, que não poupa minúcias nas descrições de cenas de violência e escatologia, no intuito de espantar e por vezes até chocar o leitor. Em relação ao cinema, meus diretores favoritos são George Romero, Wes Craven, John Carpenter e James Whale, embora eu também seja infinitamente grato ao John Landis por ter escrito e dirigido “Um Lobisomem Americano em Londres”, mesmo que este seja o único filme dele que eu gosto (risos)! Contudo, acho que aqui é importante deixar claro que, ao contrário da literatura, onde a gente acaba incorporando as influências (mesmo que sutis) dos autores que costumamos ler, nos filmes amadores que costumo produzir não há nada de similar a qualquer obra dirigida por esses cineastas que citei. Seria extremamente pretensioso e até ridículo de minha parte sugerir algo assim (risos)!
IAM GODOY - Você é editor do blog "Escrituras da Lua Cheia". Além do blog você contribui para outras páginas na web?
ABJ – Durante vários anos eu escrevi artigos e resenhas sobre filmes de horror e suspense (sobretudo de lobisomens) para o cultuado site “Boca do Inferno”. Pelo que eu me lembro, meus primeiros textos foram publicados por lá no final de 2002, e os últimos foram em janeiro deste ano. Agora em 2010 estarei escrevendo para o “Gore Boulevard” – um dos mais novos portais da web dedicados ao horror – onde desempenharei a função de colunista ao lado de amigos como Renato Rosatti, Iam Godoy e R. Raven, além de várias outras feras.

IAM GODOY - Atualmente você lançou o curta "Lua Perversa". Qual a diferença deste trabalho em meio a tantos outros já produzidos?
ABJ – Falar de cinema de horror independente brasileiro é muito difícil. Digo isso, sobretudo pelo fato de que temos consciências de que existem muitos filmes sendo produzidos diariamente nos quatro cantos do país, mas as dificuldades de divulgação e distribuição são tão grandes que acabamos não tendo a oportunidade de conhecer nem um quinto de tudo é criado por aí. Por isso eu não gosto de generalizações do tipo “o cinema independente nacional é assim”, ou “os filmes brasileiros amadores são de tal forma”, pois como não há uma cena organizada e integrada, poderemos sempre falar de alguns apenas, e nunca de todos. Tendo isso em vista, eu falo apenas com base no (pouco) que conheço e posso destacar as insanidades de Petter Baiestorf (que admiro muito) e os trabalhos de Rodrigo Aragão, que chamam a atenção pela qualidade técnica superior a qualquer outra coisa que eu já tenho assistido dentro do gênero (e isso se aplica não só ao “Mangue Negro”, mas também aos curtas-metragens “Chupa-Cabras” e “Peixe Podre”, ambos excelentes). O resto me parece apenas “homenagens”, “paródias” e reproduções nem sempre sutis de elementos oriundos dos filmes estrangeiros. Nesse sentido, o diferencial do “Lua Perversa” é que ao invés de tentar se encaixar em alguma das tendências mais recentes (slashers, zumbis, etc), ele é totalmente retrô, com uma proposta estética inspirada nos filmes das décadas de 1920 e 1930.
IAM GODOY - Como surgiu a idéia de produzir o curta como se fosse uma película dos tempos do cinema mudo?
ABJ – Felizmente eu conheci os clássicos filmes de monstros em preto-e-branco da Universal depois dos meus 25 anos de idade, e isso fez com que eu pudesse apreciá-los com maturidade, valorizando cada um dos elementos que fizeram com que eles se tornassem as referências imortais que são hoje e serão para sempre. Eu fiquei tão maravilhado com esses filmes que comprei todos os DVDs que encontrei à venda, em um curto espaço de tempo, e é desnecessário dizer que o personagem que mais me cativou foi o Lobisomem, interpretado pelo grande Lon Chaney Jr (risos)! Nessa mesma época, eu voltei um pouco mais no tempo e comprei também o “Nosferatu”, de Murnau, e fiquei profundamente impressionado com a qualidade da obra, que para mim pareceu poética e perturbadora na mesma proporção, ainda mais se levarmos em conta que ela foi produzida há mais de 80 anos atrás. Sem dúvida, o meu filme de vampiro favorito. Então chegou o dia em que, no início de 2009, eu assisti a um filme norte-americano chamado “The Call of Cthulhu”, inspirado na clássica história de Lovecraft e dirigido por Andrew Leman em 2005, mas reproduzindo toda aquela estética dos filmes mudos da década de 1920. Confesso que gostei tanto do filme que disse para mim mesmo “quero fazer algo assim quando tiver oportunidade!”. Acrescente a isso um roteiro sobre lobisomens, calcado no nosso folclore regional e cuja história se passa no início do século XX em uma região rural do interior do RS, adicione a participação especial de Petter Baiestorf e Coffin Souza e todas aquelas características bem peculiares das produções amadoras brasileiras e você terá uma boa noção do que é o “Lua Perversa”.
IAM GODOY - O seu conto "O Melhor Amigo" foi recentemente publicado na antologia "Metamorfose: A Fúria dos Lobisomens". Existem outros trabalhos seus publicados por aqui. E no exterior?
ABJ – Em antologias eu tenho uma participação no livro “Uma trajetória e muitas lembranças – Volume 5”, da editora Edunisc (2008), além de outros três livros solo, sendo que um deles é o romance sobrenatural “Odisséia nas Sombras” (Editora Grafite, 1998) e dois de não-ficção voltados à área da História, ambos publicados em 2004. Também tenho uma grande quantidade de artigos científicos direcionados à teoria literária e à História, publicados em revistas especializadas do Brasil e também do exterior. Creio que para os leitores dessa entrevista possa interessar um em especial, que foi publicado na “Revista Espéculo”, da Universidade Complutense de Madri (Espanha), onde abordo o paralelo metafórico entre lobisomens e sexualidade existente no conto e no filme “A Companhia dos Lobos” (o artigo pode ser lido na versão on-line da revista acessando o seguinte link: http://www.ucm.es/info/especulo/numero42/colobos.html). Um artigo baseado nesse mesmo estudo será publicado em breve em uma das próximas edições da revista “Leituras da História”, editada por Sérgio Pereira Couto.
SANGRIA - Quais as novidades para o ano de 2010?
ABJ – Em 2010 a prioridade é trabalhar na divulgação do livro “Na Próxima Lua Cheia” pela editora Multifoco (http://www.editoramultifoco.com.br/) e do filme “Lua Perversa”. Também seguirei dando continuidade ao trabalho do blog “Escrituras da Lua Cheia”, que tem sido algo muito gratificante em função dos elogios e comentários positivos, além do já mencionado “Gore Boulevard”. Eventualmente, também pretendo participar de algumas antologias cujas temáticas me pareçam interessantes, e mesmo a idéia de me divertir produzindo um novo filme amador não está descartada (risos)!
IAM GODOY - Obrigado pelo bate papo e fica registrado aqui que as portas sangrentas do Estronho estarão sempre abertas para os seus projetos. Pelo menos até antes da próxima lua cheia...hehehehe.
ABJ – Valeu! Sou grato pela oportunidade de conceder essa divertida entrevista e pelo espaço para a divulgação dos meus trabalhos. Desejo sucesso a todos os empreendimentos do Estronho e da Ravens House Brasil... E cuidado com a lua (risos)!
