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Algo mudou, eu sinto isso... Não sou mais o mesmo, tudo aconteceu tão rápido e de uma forma tão imprecisa, meus pensamentos já não são mais meus, sim, algo mudou, estou cativo, estou preso, enlaçado.... Eu ia ver Lílian, ou não? Não me lembro, sinto minha mente se perdendo, é, está se perdendo. Estou correndo e a lua me entorpece, me alucina, sinto o desejo de dominar a terra. Algo inverossímil grita dentro de mim, meus músculos estão brutos, queimam, ardem. Eu sinto o chão, o peso do meu corpo macula o chão. Várias sensações, força, brutalidade, sou invencível, sou uma fera.

A lua... 

Eu olho para a lua, está prateada. Ela é minha dona, sou dela! Não, eu sou a lua. 

Uivo para o céu num desvario descomunal. Os cheiros, sim, os cheiros me entorpecem a mente e a fome me enlouquece. Quero algo, algo novo. O quê eu quero? – Carne? Não! Eu quero mais, quero sangue...

...

Marcamos de nos encontrar naquela sexta-feira e conforme previ, tudo estava perfeito. Lílian finalmente seria minha. O pai comprara o carro que eu desejava há tempos e como eu estava feliz. Lílian se mostrava emocionada com a viagem, foi ela quem convenceu seus pais que iríamos passar o final de semana na casa dos meus. Eles não desconfiavam de nada, mas marcamos de nos encontrar no zoológico do Lincoln Park em Chicago, Illinois. 

Preparei-me para o encontro com as melhores roupas, meu tênis novo, o perfume que consegui com a mãe, foi um presente inesperado. Nem tanto! Ela sabia das minhas intenções, a verdade é que minha mãe sempre fora minha maior cúmplice. Só pediu-me que tomasse conta da garota e que esperasse o momento certo e nunca a forçasse. “As mulheres precisam escolher a hora certa”. Esse ponto era difícil para mim, mas isso não importava mais, ela havia decidido, nós havíamos decidido. Estava pronto, eu sabia, mas muito ansioso.

Cheguei mais cedo e para ser mais preciso, uma hora antes. Estava em êxtase, pois Lílian finalmente seria minha. Sentei-me no banco e esperei. As horas não passavam, pareciam intermináveis.  - Dez minutos apenas?  - Não vou agüentar!  - Vou rondar pelo parque! Foi o que eu pensei.

O zoológico nunca teve apelo sobre mim, devo confessar, mas gostava dos felinos, porém eles sempre ficavam tão impassíveis nos habitat´s que fui a outro extremo... 

- Que maravilha, lobos! Os lobos são interessantes, devo vê-los.

Havia uma matilha espaça no terreno, eles brincavam uns com os outros (As fêmeas lambiam as suas crias). Canis Lupus Lycaon espécie nativa do Canadá. Nunca parei para admirá-los, eles eram, por demais,  interessantes. Engraçado nunca ter tido a oportunidade de percê-los em grupo, eles têm tanta vida!

Andei um pouco mais e me deparei com o outro habitat, e foi também neste i nstante que o vi. Ele estava sozinho. Canis Lupus Albus do norte da Rússia. - Outro lobo? Pensei, e ainda: - Por que esse animal está sozinho? - Será que é de uma espécie extinta? Olhei e não havia nenhuma referência nas placas indicativas.

Ele estava assentado numa rocha, tinha um pêlo tão negro e lustroso, que murmurei: – Que animal admirável! 

Então, virou-se para mim e não obstante, se levantou da rocha e percebi, fixou seu olhar persistente em mim. Eu estava sozinho no Zoo, mas isso não me impediu de mirar para um lado e para o outro, porém não vi ninguém. Dei-me conta, ele estava realmente me observando, foi então que sorri. Esse momento de pura descontração logo mudou. Senti-me apavorado com seu olhar perscrutador. O medo petrificou minha alma. Algo estava errado, eu senti o horror me arrefecer. Fechei meus olhos, determinado a fugir daquela situação e  me virei em direção contrária, intentando fugir. (Instava que eu f osse ter com Lílian, justifiquei).

Quando abri meus olhos, em um ângulo estreito de minha visão, uma sombra estava a me cercar. Olhei para trás e o lobo havia sumido (não estava mais em seu habitat).

- Isso é impossível! O pensamento me invadiu e ainda: - Onde ele pode ter ido? 

Aquilo me confundiu por alguns minutos, fiquei assombrado, a respiração também ofegou.  O pulso acelerou e senti meu peito queimar. Neste instante eu me virei e à minha frente a surpresa,  lá estava ele, livre. 

Olhou firmemente para mim e o medo finalmente arrebatou-me, eu estava perdido, foi o que senti, seu próximo passo é o ataque. 

- Como ele conseguiu fugir do cercado? Eu ainda esbocei em minha mente. Mas já não tinha mais importância, o lobo varreu-me com um olhar nefasto em olhos amarelados e vivazes.  Paralisado eu esperei. Ele estava assentado a dez palmos de mim e me observava.

Ergueu-se e então o ini maginável aconteceu, desapareceu numa névoa negra e densa. Olhei para os lados e à frente, mas não o achei. Meu peito doeu, nunca senti tanto medo em minha vida, dei um passo timidamente, todavia temi olhar para trás, ele poderia estar lá. Desloquei-me e fui em direção a entrada do parque, desta vez, sem olhar para trás.

Porém, a certa altura, ouvi um uivo e me virei, não pude resistir em olhar. Lá estava ele, no lugar onde eu estivera há dois minutos atrás. Ele correu, como em câmara lenta, não havia mais um animal, mas uma expressão corpórea de um lobo, manifesto em uma névoa negra e densa que lançou-se sobre mim. Eu caí.

Caído ao chão, petrificado de medo e com um lobo negro enorme em cima de mim eu esperei o fim.  E ele veio... 

O lobo maldito mordeu meu pescoço e uma dor inimaginável arroubou-me, foi aí que desmaiei.

Acordei alucinando numa cama de hospital. Lílian estava lá, eu suava frio, meu pe ito ardia, então olhei para a janela. Uma lua prateada inundou o recinto, vejo Lílian. Ela fica horrorizada. Não me lembro de mais nada! Mas algo mudou, eu sinto isso...



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