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Enxofre queimando os olhos, as narinas...

O estômago revira, paro um momento em meio aos corpos.

O vômito sai quente, viscoso, verde! Verde, o mesmo dos seus olhos, outrora olhos de mar que cantei em versos antes de me afogar neles.

Difícil andar por aqui, desvio de alguns, piso em outros corpos.

Partes, pedaços, vísceras, carnes.

Procuro os seus em meio a tantos, vejo pernas, pés, troncos, seios, genitálias...

Acabo chutando uma cabeça em minha busca inglória, digo inglória porque depois de dias e noites procurando, meu único troféu é seu braço esquerdo que agarro com todas as forças, reconheci pela aliança que permanece em um dos dedos.

A cabeça, aquela que chutei inadvertidamente, depois de rolar uns sete metros, para. Vejo um único olho a fitar-me, da boca, um gemido alcança minha alma.

Será que você sofre? Será que sente dor em seu corpo já sem vida? Seria esse o preço pago por aqueles que descem ao Hades?

Pergunto-me até que ponto é minha a culpa.

Talvez se tivesse rejeitado seu primeiro beijo, ou se não tivesse me permitido naufragar em seus olhos de mar, talvez assim, quem sabe, a loucura da paixão e depois as outras loucuras não tivessem tomado conta de nossas vidas.

Talvez eu não estivesse aqui agora buscando suas partes desesperadamente, querendo montá-la como um quebra-cabeça para ter uma vez mais seu corpo inteiro, e talvez assim aliviar meu sofrimento.

Apesar do cheiro insuportável, como por milagre, sinto um aroma conhecido, cheiro de relva fresca, cheiro de terra selvagem molhada pela chuva, teu cheiro!

Você só pode estar perto!O braço move-se, a mão indica o caminho que devo seguir para encontrá-la.

Alguns seres ainda completos tentam me impedir, agarram-se às minhas pernas, gemendo e gritando ofensas contra mim.

Logo descubro o outro braço acenando em meio a outros corpos, e para minha alegria está com seu tronco e uma perna!

Ah, seus seios... Tantas vezes adormeci aconchegado a eles, tal qual pássaro no ninho! A perna, macia e morena, de alguma maneira tenta dissimular sua intimidade que pulsa tímida como sempre.

Encaixo o braço esquerdo ao resto. Agora carrego nos braços você quase inteira.

Ouço um sussurro, e adivinho uma mecha dos seus cabelos que escapa pela fenda de uma pedra. Cuidadoso, cavo com as mãos e encontro sua cabeça. Os olhos e a boca são os mesmos de sempre!

Engraçado, há vida em seu olhar! Os lábios, graciosos e suculentos imploram por um beijo, mas não há tempo, tenho que resgata-la rápido, pois os seres parecem ensandecidos, querem me impedir a todo custo.

Agora falta apenas uma perna para completar você inteira. Um barulho próximo chama minha atenção, e lá vem ela, andando aos pulos, solitária querendo juntar-se ao resto de você.

Finalmente! Tenho você completa em meus braços!

De repente todos aqueles corpos putrefatos e pedaços avulsos desaparecem diante de mim, um novo cenário se forma.

Um gramado verde, o céu azul, flores de mil cores e pássaros voando em bando.

Coloco você suavemente na grama.

Seus olhos me fitam... Linda!

Mal tenho tempo de vê-la, você sorri enquanto sou tragado pela terra que se abre embaixo dos meus pés.

De volta ao inferno, o mesmo cheiro de enxofre, os mesmos gemidos e gritos horríveis, mas desta vez estou sozinho.

Tento caminhar, uma perna se perde arrancada por uma criatura desesperada, meu braço direito se solta também, meu corpo está se desmontando, mas não sinto dor física, só sinto saudades de você e uma falta imensa da sua presença.

Agora entendo: cada um tem seu inferno pessoal, e ele se apresenta da maneira que acreditamos com tudo o que mais tememos.

Meu maior medo era perder você...


Saudades eternas.


Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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