(0 votes)

Uma noite – eram fins de outubro –, Gervásia acordou e o marido não estava com ela na cama...

É evidente que não era a primeira vez que isso acontecia, mas ele sempre voltava rápido.

Geralmente ia ao banheiro ou beber água.

Ou investigar algum barulho suspeito com as galinhas.

Dessa vez, porém, foi diferente.

Uns dez ou quinze minutos e nada de João aparecer.

Gervásia pensou logo em coisa ruim.

Acendeu o pequeno abajur lilás: o relógio da mesinha marcava 1:17.

Sem esperar nem mais um segundo, ela calçou os chinelos.

Encontrou a porta do quintal escancarada – ai, meu Deus!

Aproximou-se na ponta dos pés e espiou para fora...

Avistou o marido – nu em pêlo – encostado no muro, entre as samambaias:

– João, meu bem, o que você está fazendo aí?

Ele se voltou rápido, como um garotinho pego em flagrante:

– Eu...? Vim ver o luar... Olha só que bonito, mulher! Chegue aí, venha ver também...

– Deus me livre! Aí fora está frio demais. Aliás, é você quem deve entrar, João. Pode adoecer, nessa friagem!

Dando as costas para a esposa, ele respondeu com voz metálica:

Não! Agora, não. Vou ficar mais um pouco. A lua cheia me chama... Chama... Me chama!...

Gervásia deu de ombros e voltou para a cama.

Então adormeceu e teve um pesadelo horrível.

Sonhou que matava João com uma faca.

No quintal, à luz da lua.

Despertou com o coração saindo pela boca:

– João!

Ele dormia profundamente ao seu lado.

Olhou a hora: para seu espanto, o relógio agora dava meia-noite em ponto!

Pensou: “Ora, devo ter me enganado da primeira vez...”

Fez o sinal da cruz e, para-desterrar-o-mau-agouro-do-sonho-para-as-ondas-do-mar-sem-fim, rezou um pai-nosso e três ave-marias.

Exatamente como aprendera com a mãe, ainda menina...

Depois, apagando o abajur, tratou de dormir também.

Pois não é que de manhãzinha, percebendo novamente o lugar do marido vazio na cama – e em três anos de casados ele quase nunca se levantava antes dela! –, pois não é que Gervásia deparou com o corpo nu e ensanguentado lá no quintal, no meio das samambaias?!

Chorou e gritou feito uma louca.

O meu João, morto a facadas?

Não, não podia ser...

Não podia!

Os vizinhos correram todos – uns para consolá-la, e outros, claro, excitados pela ocorrência...

O ser humano é uma selva estranha!

Uma coisa é certa: até hoje, decorridos tantos anos da tragédia, Gervásia não consegue entender quem teria motivos para assassinar seu marido!

Na época, cheia de boa vontade, contou para o delegado do seu sonho medonho...

O gorducho bigodudo fez foi rir na cara dela:

– E a dona realmente acredita que isso pode ajudar a esclarecer os fatos? Só mesmo sendo mulher pra ter uma ideia estapafúrdia dessas!

E, malicioso, deu uma piscadinha:

– A não ser que a dona tenha matado ele...

Ela saiu de lá furiosa – e em lágrimas...

Na semana seguinte, juntou os seus pertences e foi embora daquela cidade para nunca mais voltar...

 

...

 

Deitei cedo hoje porque é noite de lua cheia e porque esta noite faz treze anos que o crime aconteceu...

Deitei cedo hoje – não porque é noite de lua cheia, não porque esta noite faz treze anos que tudo aconteceu...

Sei lá!

Não quero mais pensar nisso!

Agora, não!

Mãezinha já dormiu.

Daqui ouço o ronco dela.

Estou contente, pois acabo de ficar noiva de um viúvo aqui do interior...

É um homem direito, de posses; a gente se gosta demais!

O casamento vai ser em agosto – coincidentemente o mesmo mês em que casei com João...

Bobagem!

Um raio não cai duas vezes num só lugar – e sei que agora eu vou ser muito, muitíííííssimo feliz!

Há, há, há!!!

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Banner
Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho

Do mesmo autor...

Nós temos 5 visitantes online