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Como ela odiava aquela professora. Gorda, feia e chata. Sentia náuseas ao olhar o rosto daquela mulher, um pouco enrugado e com sardas. Desde que entrara naquele maldito colégio há quase quatro anos, vinha suportando as críticas e mau-dizeres daquela grotesca pessoa. Mas o ódio da professora por ela também era grande e a garota podia senti-lo todas as vezes que a mestra virava sua cabeça enorme e fitava-a com seus olhos azuis aguados. Era o que a garota mais odiava na professora, seus olhos, mas ela era forte e quando a mulher encarava-a ela assumia seu posto em frente à batalha e recusava-se desviar o olhar. De fato, nunca perdera, era sempre a professora que desistia.
O colégio era antigo e grande. Os corredores escuros e os cantos sombrios. A menina gostava disso, pois encontrava diversos esconderijos. Conhecia lugares que nem mesmo o diretor da escola sabia a existência. O jardim era imenso, mas a garota não ia lá, pois era cheio de pessoas fel izes que sorriam sem parar. Depois dos olhos da professora, a coisa mais desprezada pela garota era o sorriso. Ela sentia vontade de arranhar a face daqueles que via sorrindo. “Eu odeio a felicidade” pensava ela.
Agora, debruçada em sua mesa, ela olhava fixamente o corpo gordo da professora, que escrevia no quadro-negro. “Eu odeio você”, pensou. Em sua mente surgiam imagens de seu primeiro dia de aula. Ela, uma menina de 11 anos, raquítica, esquelética e branquela, entrando em uma sala de estranhos. Estremeceu ao lembrar-se da primeira vez que viu a professora; ela estava sentada à sua mesa e nem ao menos perguntou-lhe o nome, apenas pediu para que sentasse, depois olhou pra ela com aqueles malditos olhos e comentou que a menina era branca demais. Depois deste comentário, a garota ficou conhecida como Leite Azedo.
Leite Azedo não tinha amigos. Passava as quatro horas de aula de cabeça baixa, no intervalo enfurnava-se na biblioteca, pegava um livro e sentava-se no cantinho mais escuro e úmido. Os livros eram seus amigos, o resto, apenas os inimigos. Sempre desconfiava de seus colegas, que puxavam suas longas tranças, então, gostava de permanecer invisível. Odiava que as pessoas olhassem-na. O que sentia não era apenas timidez, mas uma terrível fúria. Ela analisava todos. Sabia que sua colega da frente coçava o pescoço ao ficar nervosa. O garoto dentuço do extremo da sala estava triste. “Acho que é por causa do pai dele” observou Leite Azedo. Ela notara que todas as vezes que ia falar do pai, o menino abaixava um pouco a voz. “O que será que aconteceu com o pai dele?”
Naquele dia, a garota estava diferente e mais quieta do que nunca, tão parada que até parecia morta. A professora, notando aquilo, aproximou-se e perguntou:
_Morreu menina? Qual a causa de seu desânimo estúpido?
A garota apenas levantou a cabeça:
_ Não é nada.
_Como não é nada? Não é normal que uma gar ota, por mais chata que seja não faça nenhum amigo. Você é muito anti-social.
“Que mulher maldita” Leite Azedo pensou. Suspirou fundo, olhando aqueles olhos aguados e falou:
_ Eu sou assim.
_ Mas terá que mudar. Não suporto mais ter que ver sua cara branca de desânimo todos os dias.
Todos riram. Leite Azedo olhou em volta e viu dezenas de olhos a encarando.
_ Não olhem pra mim! _ gritou perdendo a paciência. Os alunos apenas aumentaram as risadas.
Seu rosto já não era mais tão branco, estava vermelho. Ela sentiu o coração disparar. Mas ainda não era o bastante para a professora.
_ Talvez se você conversasse mais, não receberia apelidos. Como é que te chamam mesmo? Leite Azedo não é?_ disse ela em um tom de desafio.
Leite Azedo levantou-se , olhou bem fundo nos olhos da professora e sussurrou:
_ Você vai morrer.
_ O que?
A menina agora tremia. Arregalou bem os olhos e repetiu.
_ Eu disse que você vai morrer, querida professora.
A mulher gorda ficou séria. A brincadeira tinha perdido a graça:
_ Você esta louca? Vai ficar sem recreio. Leite Azedo.
Na hora do intervalo todos saíram menos a garota e a professora. Leite Azedo continuou curvada sobre a mesa enquanto a mulher olhava-a. Depois de alguns minutos a menina levantou, pegou um lápis e um apontador , aproximou-se da lixeira e começou apontar o fino objeto. A professora continuava encarando-a com aqueles olhos aguados. “ Eu não gosto que olhem pra mim” Leite azedo pensou. Agora com um leve sorriso a professora encarava-a fixamente.
_ Não olhe pra mim! _ gritou Leite Azedo.
A professora abriu um longo sorriso:
_ Eu olho pra quem eu quiser, na hora que eu quiser.
_ Mas não para mim. E pare de sorrir_ O que aquela maligna mulher queria com ela? Por que não gostava dela? Leite Azedo analisou todas as suas memórias, sempre fora uma boa aluna, por mais que fosse qui eta sempre fizera as tarefas. Nunca começara nenhuma confusão. _ Por que você não gosta de mim?
Os olhos da professora brilharam:
_ Por que você não merece que ninguém goste de você. E ninguém nunca vai gostar.
Depois dessas palavras, uma única lágrima escorreu dos olhos de Leite Azedo. Não era uma lágrima transparente, era vermelha, vermelha de sangue. Com a lágrima, também escorreu pelo rosto branquelo as magoas juntadas durante todos aqueles anos.
_ Você não gosta de mim_ a menina falou_ Por isso você me machuca, eu não gosto de seus olhos.
Com um pulo rápido, Leite Azedo aproximou-se da professora levantando o lápis de ponta perversa. Desferiu um golpe certeiro no olho direito da mulher. Sentiu o olho explodir e o sangue sujou suas mãos. A mulher urrou de dor e ajoelhou-se com as mãos no olho furado.
_ Este olho jamais verá que minha pele é branca. Mas falta o outro.
Com mais um golpe a garota furou a mão da pr ofessora, que cobria o rosto. A mulher levantou atordoada e chorando. Leite Azedo avançou novamente sobre ela, mas foi empurrada para trás. A gorda mulher ensopada de sangue saiu pela porta. Leite Azedo caminhou lentamente até sua mesa e pegou suas coisas. Não poderia mais voltar naquela escola. Mas não estava preocupada com aquilo. Só tinha um problema a resolver agora. Encontrar a casa da ex-professora. Ainda restava um olho a ser furado...

 

Comentários  

+3 #1 Marius Arthorius 24-09-2009 10:48
Ah! Um conto de terror como há tempos eu não lia. Sem sobrenatural e sim demonstrando parte da natureza humana que todos mantemos oculta. O ódio e a raiva sentimentos tão puros e irracionais quanto o amor.
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