Qui, 03 de Setembro de 2009 15:30
Escrito por Rober A. Pinheiro
Olharam-se como se fossem velhos desconhecidos, como se a vida não lhes tivesse sido uma, enquanto o minuto de silêncio se mantinha firme, intacto, um casulo impenetrável em meio à balbúrdia da longa guerra.
As mãos, trêmulas, acariciaram os rostos suados, sujos de sangue e de dores antigas, e um sorriso de para sempre surgiu timidamente, como o sol matreiro em dias de tempestade, para depois se alargar mais e mais, até se transformar na única forma possível de sincero adeus.
Ficaram assim, unidas as mãos e os sorrisos, pelo eterno correr daquele escasso minuto, solenemente ignorando os gritos e os berros todos, ordens cuspidas ao léu e planos de fuga alquebrados, gemidos de dor e de medo, loucura!
Há quanto tempo engrossavam as fileiras daquela guerra sem fim? Anos, séculos, uma vida inteira? Quanto já haviam perdido, de espadas em mão e olhos no horizonte, à espera do eterno inimigo que nunca chegava e, uma vez chegado, demorava-se a ir; qual era mesmo a cor dos dias sem luta, da casa que fora sonhada por ambos e que, agora, abandonada nas distantes terras do sul, não passava de recordação que ia morrendo aos poucos?
Memória.
Tão avidamente desejada para estes momentos e tão malquerida para outros tantos!
Um sopro do vento norte, uma voz que os chamava...
E o minuto, quase eterno, findou-se.
As mãos soltaram-se, os sorrisos se foram, talvez para sempre. A realidade, munida de seu temido pesar, indesejada, tardia, desceu sobre os céus escuros daqueles dias finais. E sua sombra, sob a forma de um imenso dragão negro, correu ligeira por sobre as hordas de homens e bestas, todos impotentes ante as espadas sem coração ou alma. Espadas, apenas!
Um centauro passou a galope, grito alçado aos céus e olhos no inimigo próximo, todo negro e prata e escarlate, seguido por uma maré de outros, seus iguais, rumo ao epicentro daquele atroz réquiem final. Ao observá-los, ambos perceberam que também eram eles personagens daquela peça, cuja encenação se arrastava com os dias vagarosos, e o ato extremo seria o ápice de suas vidas, o momento derradeiro.
Abraçaram-se!
Com força, desejo de não mais soltar, como se, com tal e qual gesto que perdera, com a guerra, seu caráter corriqueiro, quisessem permanecer unidos, abandonar os deveres e a honra, descumprir o pacto e abster-se do destino final, fugir dali. Para longe, bem longe.
Contudo, tal sonho não mais era possível. O abraço, antes forte, desfez-se em braços pendidos ao lado do corpo, inertes, olhos desiludidos, chama morta. Restou apenas a força da mão, e a espada.
Lado a lado, cobertos de silêncio, não por haverem olvidado as palavras, mas por tais artifícios não mais serem necessários, eles se afastaram dali, do minuto eterno, da antiga vida, e seguiram para o inevitável.
Acompanhavam-nos uma criatura bela, de aspecto felino, à direita de um e à esquerda do outro, e, com o único sorriso permitido para aquele momento, incentivou-os a seguir.
Num átimo, os sons tornaram-se outros, os gestos tornaram-se brutos e a guerra separou-os para sempre, definitivamente.
Um último adeus, de longe, foi o que restou. E a incerteza de um novo encontro nas distantes terras imortais.
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