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A lua cheia reinava absoluta no firmamento, tendo por companhia milhares de estrelas reluzentes, que enfeitavam o céu noturno como minúsculos brincos de diamantes. A noite transcorria calma e tranquila, à exceção das duas dúzias de vultos negros que esgueiravam-se por entre as árvores, posicionando-se de forma a cercarem todo o perímetro do rancho que servia como sede para a “Legião de Lúcifer”, suposta seita de adoradores do demônio acusada pelo rapto e posterior assassinato de várias jovens em macabros rituais de sacrifício humano.
 
O major Johnson, da bem treinada unidade anti-terrorismo da polícia de Los Angeles, checou o seu fuzil de assalto M-16, enquanto revisava mentalmente o plano de ataque, cuja missão era capturar com vida os líderes da tal seita demoníaca que, segundo as informações prestadas pelo agente federal Steve Gorski da CIA, ainda encontravam-se na casa.
Johnson não gostava de sujeitar-se às ordens de estranhos, porém, pela imposição de seus superiores, precisara ceder o comando da operação ao engomado agente federal, que mesmo ali, no meio do mato, insistia em vestir-se como um executivo de multinacional, de terno e gravata por debaixo de um comprido sobretudo de lã.
 
Fazia muito frio e a residência de dois pavimentos encontrava-se mergulhada na mais completa escuridão. Nenhum barulho, nenhum movimento, nenhuma fumaça na chaminé, nenhuma luz. Absolutamente nada. Parecia deserta e abandonada às traças.
— Preparem-se para invadir. – Gorski ordenou aos policiais.
— Eu ainda acho que devíamos seguir os tramites legais e anunciar a nossa presença. – Johnson retrucou – Talvez consigamos fazer com que eles se rendam sem derramamento de sangue desnecessário.
— Major, devo lembrá-lo de que o comando dessa operação é meu, portanto, faremos a coisa do meu jeito. – Gorski retrucou – Vamos invadir o rancho atirando para matar e, se tivermos sorte, talvez consigamos prender um ou dois desses bastardos com vida.
— Mas isso vai contra o regulamento e o que combinamos, além de ser ilegal e...
— Detenha-se por aí major, ou serei obrigado a mandar prendê-lo por desobediência e desacato. Agora vamos. Já perdemos tempo demais com essa conversa fiada.
 
A um sinal seu, os policiais começaram a se mover em direção ao rancho. Foi quando o mundo explodiu ao seu redor. De repente, o terreno todo pareceu convulsionar-se, indo pelos ares em sucessivas e violentas explosões. Pego de surpresa pelas inúmeras granadas arremessadas em sua direção, em questão de poucos segundos, o grupo dos policiais viu-se desfalcado de metade dos seus homens, no que os arrepiantes gritos de dor e agonia dos mutilados e feridos, espalhados agora por toda a extensão do terreno em volta do rancho, misturaram-se ao trovejar ininterrupto de dezenas de armas automáticas, oriundo tanto da casa, quanto dos fuzis de assalto dos remanescentes membros da reduzida força de ataque, transformando o normalmente pacato lugar, em uma verdadeira filial do Inferno.
— E agora, você entende os meus motivos para invadir atirando para matar? – Gorski gritou, enquanto rolava pela grama úmida, acionando o seu M-16.
Johnson também atirou-se ao chão, escapando por centímetros de uma rajada que fez revolver a terra no ponto aonde ele estivera um milionésimo de segundo antes. E então, o seu dedo passou a pressionar continuamente o mecanismo de disparo do fuzil.
Uma chuva de projéteis se abateu sobre a casa, eliminando a maioria dos inimigos que se atocaiavam nas janelas, de forma que, em pouco tempo, o silêncio voltou a imperar e o caminho para o rancho ficou livre. 
 
2

Enquanto Gorski e os seus homens revistavam o piso inferior da construção, repleto de cadáveres. Johnson e três policiais subiram ao segundo andar e começaram a revistar os quartos. De súbito, escutaram um ruído procedente do último aposento e imediatamente correram para lá. Apesar do frio, a janela encontrava-se totalmente aberta e ao olhar através dela, o major avistou o agente da CIA penetrando novamente na floresta que cercava o rancho, em desabalada carreira, o que certamente o intrigou sobremaneira, mas não tanto quanto o sujeito loiro e alto – também de sobretudo e que, à propósito, não era nenhum dos seus policiais – partindo em seu encalço.
Ordenando aos subordinados para que continuassem a revista, Johnson não pesou as consequências de seus atos e saltou pelo beiral da janela, deslizando pelo telhado e caindo próximo do ponto onde avistara os dois pela última vez. Rolou para amortecer a queda e, ato contínuo, ergueu-se, adentrando a mata. Corria como nunca, desviando-se dos galhos mais baixos e demais obstáculos naturais do caminho. E qual não foi a sua surpresa, ao penetrar em uma clareira, dar de cara com os dois, Steve Gorski e o loiro, frente a frente, encarando-se mutuamente, com fulminantes olhares, repletos de ódio e raiva. O agente da CIA apontava o seu M-16 para o loiro e este, por sua vez, inacreditavelmente o desafiava, empunhando uma enorme espada de lâmina azulada que fez com que o veterano policial se arrepiasse até o último fio de cabelo e recuasse, escondendo-se atrás de uma moita.
Atônito, Johnson viu Gorski largar a arma no chão, para empunhar idêntica espada – que durante todo o tempo mantivera oculta debaixo do seu sobretudo – e com ela investir contra o suposto adorador do diabo, que instintivamente jogou-se para o lado, desviando-se e aparando com a própria lâmina, o golpe endereçado à sua cabeça. Então, devolveu na mesma moeda, atacando o federal. O longo embate que se seguiu entre os dois foi feroz e violento. Ambas as espadas subiam e desciam, avançavam e recuavam, chocando-se em um ritmo alucinante e mortal, no que as faíscas que brotavam de seus entrechoques, conferiam um aspecto sobrenatural à já bizarra e assustadora cena.
Paralisado pela estupefação do que presenciava, Johnson limitava-se a assisti-los como se aquilo não passasse de um filme de televisão ou uma simples encenação teatral.  
De súbito, ao lograr bloquear um golpe de seu adversário, o agente da CIA tropeçou em uma pedra e caiu. O loiro de imediato aproximou-se com a espada erguida, pronto para matá-lo ali mesmo, sem nenhuma compaixão.
Ao ver o seu companheiro em apuros, Johnson subitamente recuperou-se da letargia que o dominava. Destravou o fuzil e girou o seletor de fogo para o modo semi-automático, de modo que lhe propiciasse uma rajada tripla a cada nova pressionada do gatilho.
— Hei você! Pare onde está e solte a espada, ou eu atiro! – o major gritou, deixando a cobertura natural da floresta, que até ali o mantivera oculto.
Mas o loiro não parou. E a lâmina começava a descer impiedosamente rumo à cabeça de Gorski, quando uma rajada certeira do M-16 de Johnson fê-lo estremecer e tombar para trás. Com isso, o golpe acabou por desviar-se do alvo, de modo que a lâmina passou de raspão pelas costas do federal, sem, contudo, atingi-lo mais seriamente. Já o seu sobretudo não teve a mesma sorte e partiu-se em dois.
Gorski levantou e livrou-se dele, no que um par de enormes asas, lisas como as de um morcego, materializou-se em suas costas. E, para a perplexidade total do major Johnson, sem nada dizer, ele abaixou-se e retirou um pedaço de papel dobrado do bolso do casaco despedaçado. Voltou-se para o policial e encarou-o por um breve instante, abriu as asas e simplesmente abandonou a clareira voando.
Petrificado de terror, o experiente, porém aturdido agente da lei, limitou-se a apenas acompanhar a silhueta alada, sumindo no horizonte, recortada como um ponto negro ao encontro da Lua cheia, até não mais avistá-la.   

3

O demônio já sumira completamente do alcance de sua visão, quando, de relance, o major notou uma sombra negra erguendo-se no ponto aonde alvejara o suposto fanático da seita demoníaca. Voltou-se naquela direção, no que sentiu o chão desaparecer sob seus pés, ao defrontar-se com majestosa e imponente figura angelical, cujas asas, completamente forradas de penas brancas, eram a maior prova de sua real identidade.
— Onde ele está? – o anjo indagou-lhe secamente, procurando em volta, de espada na mão. No lugar dos tiros em seu peito, à exceção de uma meia dúzia de buracos nas roupas, nenhuma outra marca se fazia presente.
O major Johnson tentou falar, mas as palavras não saíram. Então, apontou para o céu, no que o ser alado o encarou alarmado.
— Por Ethernyt! – ele exclamou furioso – Você tem consciência do que acaba de fazer? Droga! Os demons agora conhecem a localização do Guardião da Chave Um, o que significa que a Profecia do Armagedon está a um passo de se concretizar! Graças a você e à sua inconsequente ignorância, o Mensageiro do Apocalipse conseguiu a informação que Lúcifer tanto almejava possuir, de modo que a Terra está agora com os dias contados e eu preciso correr contra o tempo para avisar aos outros que, por culpa de um humano idiota, a guerra está prestes a começar!
— Do que diabos você está falando? – o major interpelou sem entender coisa alguma do que o anjo dissera – A que guerra você está se referindo?  
— A última a ser travada sobre a face da Terra e que fatal e indubitavelmente selará o destino de todos nós! – abriu as asas e voou clareira afora, na direção oposta à tomada pelo demônio, no que o major finalmente caiu em si, compreendendo que, tanto ele quanto os seus superiores, foram enganados pelo falso agente federal. A seita satânica nunca existira e a invasão do rancho servira apenas de pretexto para que o demônio pudesse encontrar e roubar o papel com a tal informação que, segundo o seu antagônico rival alado, daria início à derradeira Guerra dos Anjos...
 
 
Se você gostou desse conto introdutório não deixe de ler, do mesmo autor, o livro:
ETHERNYT, A GUERRA DOS ANJOS!
www.ethernyt.com

Comentários  

0 #1 Excelente!JAQUELINE TONIN 21-02-2009 11:29
Muito bom para um conto introdutório! Bem escrito e envolvente. Curto e preciso. E no final deixa uma grande expectativa quanto ao livro do autor.
Meus parabéns!
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0 #2 Juliano Sasseron 21-02-2009 12:12
Márson, você me deixou mais curioso ainda pra ler seu livro... assim não vale..kkk
Muito boa introdução...
Sucesso!
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0 #3 MÁRSON ALQUATIMárson Alquati 22-02-2009 11:33 Citar
0 #4 MÁRSON ALQUATIMárson Alquati 22-02-2009 11:38
Valeu Sasseron! Ser elogiado por um excelente escritor como você, é, para mim, motivo de muita satisfação e alegria.
Um forte abraço.

www.ethernyt.blogspot.com
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0 #5 Emanoel Ferreira 22-02-2009 16:09
Márson, como você bem sabe, não canso-me de elogiá-lo! Muito bom seu conto! Um convite irrecusável a ler o Ethernyt.

Parabéns e sucesso,

Emanoel Ferreira - www.azyn-universo.blogspot.com
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0 #6 Márson AlquatiMárson Alquati 23-02-2009 17:15
Emanoel, toda e qualquer palavra dita aqui seria insuficiente para agradecê-lo à altura. De qualquer forma, deixo o meu muito obrigado e um forte abraço!
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0 #7 Marius Arthorius 16-06-2009 23:28
Se eu já não tivesse lido Ethernyt.
Este texto com toda certeza me faria querer lê-lo. Ainda assim fica aquele gosto de "quero mais". Ansiando pelos próximos livro da série.
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