(14 votes)
"Pois não sei, nem por palavras descrever de que forma aquele amuleto ou talismã mudou radicalmente a minha vida, pois, a partir daquele dia, a sorte passou a ser a minha fiel companheira, e onde quer que se realizassem apostas ou jogo, lá estaria eu sempre presente, para ganhar!"
 
 
"Quem ganha ao jogo, perde ao amor” – Provérbio

Concerteza já ouviram contar histórias de tipos que conseguiram vender o Cristo Rei de Almada, a Torre Eiffel em Paris, ou até mesmo o eléctrico da Ajuda; e por certo, já vos sucedeu, serem abordados por alguém, detentor de um discurso eloquente, a tentar impingir-vos uma tralha qualquer que não serve para nada... Mas, uma corda de enforcado?...

Sim, foi o que comprei naquele fim de tarde, quando ultimava as minhas voltas pelo mercado mensal da aldeia. Inesperadamente fui abordado por um sujeito de modo muito peculiar, que se aproximou de mim, se apresentou como um tal de Casimiro Martins, mesmo antes de começar com uma grande lenga-lenga.

- Se eu lhe disser – proferiu ele, colocando a sua mão no meu ombro – que sou possuidor de um talismã que pode trazer a sorte e a fortuna a sua casa, vossemecê acreditaria em mim?... – Indagou ele com um tom coloquial e convincente.

-Olhe amigo, eu só acredito nas coisas depois de as ver... – redargui confiante.

 Sabem, eu não gosto de indivíduos trafulhas, daqueles que estudam as pessoas, e supõem, “aquele tem ar de otário, vou tentar impingir-lhe esta “cangalheta”. E foi a pensar nisto que não dei muita importância ao seu propósito.

- Não, amigo. – Insistiu ele – Isto que eu tenho comigo, é mesmo genuíno. Vossemecê só tem é de fazer um acordo comigo... – Sugeriu, arqueando as sobrancelhas.

- E qual é o acordo?... – Resmunguei impacientemente.

- Vossemecê dá-me duas centenas de contos, e eu levo-o até uma casa de apostas, onde podemos arriscar a sorte num jogo qualquer, ou até, se quiser, podemos apostar em corridas de cavalos ou de cães, uma lotaria, o que quiser...

- Pode continuar, amigo – Requeri, deixando transparecer alguma ansiedade. Casimiro não se assemelhava ao burlão típico de Lisboa que eu já ouvira falar. Era um homem do campo, tal como eu. Estranho, mas do campo.

- Se eu ganhar, ou acertar nas apostas e no jogo, vossemecê, como é um homem de palavra, dá-me mais três centenas de contos, e em troca, dou-lhe o meu talismã...O que me diz?...

- Espere lá...Se esse seu talismã, lhe trás tanta sorte, porque se quer desfazer dele? – Era a pergunta inevitável.

- Porque, comigo, já deu o que tinha a dar. Se eu insistir mais com ele, trazer-me-á azar. Mas estou disposto a arriscar mais um pouco, apenas para lhe poder comprovar em como falo a verdade e não se trata de um ardil.

“Com os raios”, como poderia ele ter tanta certeza do que acabava de afirmar? Ganhar no jogo, ou apostas?...Não podia haver truque naquilo. Confesso que me deixei invadir por uma curiosidade mórbida de entrar naquela “provocação”, e aceitei a sua proposta. Fui a casa, retirei as duas centenas de contos que guardava sob o colchão, e...dei-lhos!

Oh, mas não pensem que lhos dei de animo leve...não! Quando lhe passei o dinheiro para a mão, mostrei-lhe a minha menina e avisei-o, “se te afastares de mim, mais de cinco metros...mato-te”.

E com a sua concordância, seguimos caminho até ao “Tobias”, que é uma conhecida casa de jogos e apostas no centro da cidade.

- Quero um boletim de apostas para a corrida de dez de Janeiro, ou seja, de logo à noite! – Bradou ele para o empregado coxo, que lhe deu o boletim, alheio à sua presença. – Vou apostar no cavalo número sete, o tufão!

- Porquê, o numero sete? – Inquiri ingenuamente.

- Porque é o número que vai ganhar! Mas ainda falta uma hora para a corrida, porque nos demoramos aqui? Vamos ao casino, vamos jogar! – Desafiou ele.

- Vamos. – Aquiesci.

Chegados ao casino, não foi preciso esperar muito até ele se sentar em frente a uma “slot machine”, e começar a sacar dinheiro, atrás de dinheiro daquelas máquinas, que pareciam ter estado à espera dele para se escancararem todas, a vomitar moedas, centenas delas, apenas através do seu toque subtil.

Não podia haver “truque”. Ele tinha um talismã qualquer, que lhe dava o poder, a estrela da sorte, se quiserem, que lhe permitia destapar aquele véu que esconde a fortuna e o destino, nunca ao alcance do comum dos mortais.

Não perdi mais tempo a assistir ao “show” do rei Midas, não. Dei-lhe os trezentos contos para a mão e em troca recebi...um pedaço de corda com um nó na sua extremidade!

- O que é isto?... – Indaguei com o rosto invadido pelo espanto.

 - É o talismã que lhe falei! – Redarguiu ele serenamente.

- O quê?...É por este pedaço de corda seboso, que você me pede quinhentos contos? - Rosnei, já com a pistola em punho.

- Esse pedaço de corda vai-lhe dar uma fortuna, vossemecê bem viu.

- O que é isto afinal?

-É a corda do enforcado! – Esclareceu ele friamente.

- A corda de quem...?

- Do enforcado – Insistiu ele, sem alterar o tom de voz espectral.

Depois do Casimiro me explicar o significado daquilo, libertei-o, e por fim, deixei-o ir embora. Segundo uma estranha lenda, quem guardar a corda do enforcado consigo, terá êxito e sorte no jogo. Bem, eu não podia fingir que aquilo não era verdade, pois eu tinha-o visto a ganhar centenas de contos numa só noite, e até mesmo o cavalo em que ele apostara...tinha vencido a corrida: O tufão.

Contudo, ele advertiu-me das regras para o uso daquele talismã insólito. Apenas podia usar e abusar dele, se não fizesse ninguém infeliz à minha volta; de contrário, trazia a desgraça e o infortúnio. Era a regra. Mas quem controlava essa regra?...

Oh, Ninguém. Agora era a minha vez de ser feliz! Contudo, sentia-me cansado de tanta surpresa e agitação.

A aurora despertou nevoenta e triste, e os ardinas já bradavam nas ruas. Foi então que resolvi prosseguir caminho até minha casa, onde descansei até ao fim da tarde.

Despertei com o badalar do relógio da torre a anunciar as oito horas, e ergui-me da cama num pulo, como se tivesse molas nos pés.

Da minha casa, até ao estabelecimento do Tobias, foram apenas precisos quinze minutos e de imediato ali adquiri duas cautelas e um boletim de apostas, desta vez para um importante jogo de futebol entre duas equipas locais; um derbie, portanto. Ainda no Tobias rabisquei um boletim de loto. Não havia pressas. Todos estes resultados apenas seriam divulgados e patenteados no dia seguinte – domingo.

“ Quem se satisfaz com a sorte será feliz até à morte”, diz o ditado popular!... E bem!

Pois não sei, nem por palavras descrever de que forma aquele amuleto ou talismã mudou radicalmente a minha vida, pois, a partir daquele dia, a sorte passou a ser a minha fiel companheira, e onde quer que se realizassem apostas ou jogo, lá estaria eu sempre presente, para ganhar! Jogava em tudo: cartas, roletas, lotarias, apostas...tudo!

Somei uma fortuna durante vários meses, que me permitiu realizar todos os meus sonhos, bem como o de alguns amigos meus. Comprei várias casas, carros de luxo, realizei viagens pela Europa e Ásia, enfim...tudo o que possam imaginar, mas...

...Estou só!

É verdade. A minha querida Florbela abandonou-me, apesar de lhe ter prometido que lhe dava tudo o que ela quisesse, a minha esposa não suportou o meu modo de vida boémio, e abandonou-me para sempre. Seguidamente faleceu o meu melhor amigo, a quem eu tinha oferecido, dias antes, um Masaratti, ultimo modelo, que eu importara de Itália exclusivamente para lhe oferecer, mas o pobre Vasconcelos não teve mãos para o carro e...despistou-se contra uma árvore!

A desgraça e a fatalidade tinham decifrado onde eu morava, e parecia que, todos os dias faziam questão de ir lá bater à porta. Até eu, já me sentia doente, chegando a ficar acamado durante várias semanas, vítima de uma doença estranha, que nem os melhores médicos do país me conseguiram diagnosticar a origem do meu padecimento. Só havia uma explicação: a corda do enforcado detinha uma influência macabra no modo como a minha vida se transformara, tanto para o bem, com o para o mal! – Eu tinha de devolver a corda ao Casimiro Martins. E agora? Onde ia eu descobri-lo?...

De imediato me desloquei à loja do Tobias e indaguei-o sobre o estranho indivíduo, que em mau dia me vendeu uma corda do enforcado.

Olhe lá, Tobias...Não se lembra de me ter visto há uns meses, aqui com um indivíduo, assim meio esquisito, com um chapéu bizarro?... – Inquiri.

- Não, não me lembro, não senhor... – Murmurou o Tobias, coçando a cabeça.

- Ele até comprou um boletim de apostas para a corrida dos cavalos, e até acabou por ganhar...como se chamava o cavalo?...O tufão!?... É isso, o tufão! – Balbuciei nervosamente.

-Não é possível! O tufão já não ganha uma corrida há mais de dois anos...

-Então?...

-Foi abatido! – Grunhiu o Tobias sem hesitação.

Havia qualquer coisa de muito estranho naquilo tudo. Porém, não perdi mais tempo no Tobias, que acabou por me revelar que nunca me vira ali com indivíduo nenhum, e que por vezes aparecia ali tanta gente, que ele não se recordava da cara de todos. Lembrei-me de ir ao posto de correios da zona e ali, indagar se conheciam algum tipo com aquele nome, e a troco de alguns contos de reis, podia ser até, que o funcionário me fornecesse a morada dele. E assim aconteceu.

Fiquei a saber que Casimiro Martins vivia numa Povoação, a cinquenta quilómetros dali, por isso meti-me no meu... num táxi, e fui até à morada que me foi indicada pelo funcionário dos Correios.

A povoação situava-se numa zona pacata e, exclusivamente rural. As casas eram baixas, e os poucos habitantes que vagavam pelas ruas, desconsolavam a paisagem rústica. Tudo muito calmo.

A habitação de Casimiro era a mais afastada de todas. Situava-se numa quinta rodeada de ciprestes sombrios, que se agitavam lugubremente sobre a pequena moradia, que parecia... deixada ao abandono. Não de dias, mas de anos!

Aproximei-me e bati à porta várias vezes, sem obter qualquer sinal de vida ali nas redondezas. Contudo, senti um pavor gelado a subir-me pela goela quando me voltei e dei de caras com uma velha sinistra, que me observou demoradamente com o único olho que tinha na sua face disforme e triste.

- O que quer?... – Inquiriu ela com uma voz pastosa.

- Procuro o senhor Casimiro Martins...ele ainda mora aqui?... – Ao escutar o nome pareceu-me que a velha estava a ver um fantasma, tal não foi a dureza do seu olhar temível. – Sabe, tive com ele há pouco tempo, fizemos um negócio e...

- VÁ-SE EMBORA! – Grunhiu a velha estridentemente. – VÁ-SE EMBORA DAQUI, JÁ!     

E fui.

Ali já não havia nada para resolver, e concerteza, Casimiro já não morava naquela casa, há muito tempo.

Assim, decidi não me demorar muito mais por aquelas bandas. Só tinha de continuar com a minha vida, com ou sem a “corda do enforcado”. Mas mesmo assim, resolvi dar um salto à Junta de Freguesia da zona, e indagar mais alguma coisa sobre este homem misterioso.

A funcionária da Junta era uma senhora antipática, e conservava um ar sisudo, apresentando-se muito “desnorteada”. Após algum tempo perdido à espera que ela reparasse na minha presença, lá me atendeu.

- O senhor Casimiro Martins?... – Indagou, empurrando os óculos para a face.

-Sim. Ele vive aqui ainda, não vive?

- Vive. Vive lá em cima no jardim da colina...

- Onde fica esse jardim? – Perscrutei

- Então, o senhor segue esta estrada sempre em frente, quando chegar a um cruzamento, vira à sua direita...e segue essa estrada sempre adiante até dar com um cemitério...e é aí!

- Aí, onde, minha senhora? – Inquiri inocentemente.

- No cemitério. É o destino inevitável! – Bradou ela com o rosto rubro e impaciente.

- Mas...o senhor Casimiro?...

-Sim. Já morreu, pensei que soubesse, ora!

Tremi.
Tremi mesmo muito, quando trespassei os portões do cemitério em direcção à sepultura de Casimiro. Não sabia porquê, mas algo de sinistro e macabro lampejava nas antecâmaras da minha mente. O cemitério estava deserto, e algumas sombras já tinham descido pelas lápides abaixo, conferindo um ambiente terrível e sombrio à minha volta. Mas eu estava perto, sentia que, a qualquer momento os meus olhos haviam de ser puxados para a efígie da sua lápide...e ali estava ele!

A foto era recente, e apesar dos tons cinza, mantinha-se bastante nítida. Confesso que tive alguma pena por saber que ele jazia ali. Mas quando olhei melhor, um terrível arrepio trespassou a minha alma débil. Na sua lápide podia ler-se, “ aqui jaze Casimiro Martins, nascido em 12/07/1958 e falecido a... 9/1/99”. Atemorizado e confuso, puxei a cópia do boletim de apostas do dia em que o conheci e, oh... Que visão terrível. Tinha a data de 10/1/99!? – “Isto não pode estar a acontecer”, murmurei.

- Enforcado! – Sibilou uma voz gutural, mesmo por trás de mim, que me fez saltar de terror.

- O quê? – Perguntei com a voz trémula.

- O senhor Casimiro!...morreu enforcado, isto é, enforcou-se! – Proferiu um indivíduo baixo e corcunda, que a avaliar pelo estado das suas botas lamacentas, deduzi que se tratava do coveiro. E deduzi bem.

- E sabe porquê que ele se enforcou?

- Oiça, senhor...Aqui na aldeia, não gostamos muito de abordar o assunto, mas diz-se por aí, que certo dia, ele comprou um amuleto a um forasteiro, e que esse tal amuleto, que nunca ninguém chegou a saber o que era, trouxe-lhe muita fortuna, mas a seguir, indicou-lhe o caminho para o inferno e para a desgraça. E por fim, o pobre Casimiro, sem conseguir viver mais com os pesadelos que o assombravam...enforcou-se!

Momentos depois deambulei pela zona e dei comigo no meio de um denso pinhal.

Contemplei um o extenso carvalho e pensei:

“O galho do carvalho é muito forte, e concerteza aguenta com o meu peso. Não deve custar muito, afinal, são só alguns segundos, e depois...tudo acaba”.

Comentários  

0 #1 Maria Sangrente (ludimare)Gabriela Luciana Vieira Batist 28-08-2008 14:38
Uma moça de apenas 19 anos com o nome de Ludimare se casa,com um homem beem mais velho do que ela.Até q um dia seu marido "Zé da Serra" mata ela no banheiro.Havia um caixão no banheiro que tinha sido levado pelo seu próprio marido.Ela foi morta por ele,ele a enforcou deu 3 facada nelaa.E colocoou ela no vaso sanitário e puxou a descarga.Entao quando for no banheiro,puxe 3 vezes a descarga,de 3 chutes na privada,abra 3 vezes a torneira,na frente do espelho fale 3 vezes "Ludimare,Ludima re,Ludimare" ou "Maria Sangrenta,Maria Sangrenta,Maria sangrenta"e entao ela aparece.
Citar
-1 #2 Gabriela Luciana Vieira Batist 28-08-2008 15:02
OBS tenho uma critica:Tem uma parte alii do texto que diz que é pra ele andar SEMPRE em frente ai logo em seguida ai vc vira ali dolado...Oo' como? Se antes ele falou va SEMPRE em frente¬¬
Citar
-1 #3 Gabriela Luciana Vieira Batist 28-08-2008 15:03
- Então, o senhor segue esta estrada sempre em frente, quando chegar a um cruzamento, vira à sua direita..?
Citar
-1 #4 Murillo 04-08-2009 04:58
"-Sim. Ele vive aqui ainda, não vive?
- Vive. Vive lá em cima no jardim da colina..."

"Ele vive morto?"
Citar
0 #5 Guardião do Estronho 04-08-2009 07:22
Murillo,

Já ouviu falar em licença poética? Isso é um conto de ficção, meu caro.
Citar
+1 #6 Muito bom!Eder Brasil 30-10-2010 00:32
Cara, perfeito!
Fazia tempo que não me interessava por contos do tipo.
Qual nome do autor?

Obrigado por disponibilizar o texto.
ESB
Citar

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Banner
Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho

Do mesmo autor...

Nós temos 4 visitantes online