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"...O calor da urina, que chegara até o pescoço e braços, afastou momentaneamente a sensação de dor causada pelo frio intenso e José pôde reunir forças para averiguar a origem dos distúrbios."
*- Conto premiado com duas menções honrosas nos XXVI Jogos Florais do Algarve 2006 - Silves - Portugal.

PARTE 1

Um mundo invertido.


Ao abrir os olhos a idéia da própria mortalidade lhe ocorreu como um flash lancinando em ondas de encefalia, provavelmente causada pelas longas horas que passara de cabeça para baixo. Mesmo com a vista direita embaçada, graças ao sangue, já coagulado, que escorrera abundante do nariz batatudo, podia enxergar, lá em baixo, os pequenos pontos azuis formados pelo balde de água e sabão e o rodo de lavar vidraças, caídos na calçada, rodeada de jardins, que constituía a entrada do edifício.
Passou com dificuldade a mão pela vista para limpá-la e observou novamente o mundo que se balançava sob sua cabeça: a Avenida Paulista se estendia da esquerda para a direita como uma gigantesca serpente negra, inerte, a não ser pelos poucos carros e ônibus que eventualmente a cruzavam. Tal visão se lhe apresentava como um paradoxo, não apenas pelo fato de que nunca antes havia observado uma paisagem por este, digamos, "ponto de vista", mas porque aquela era uma das mais movimentadas avenidas do mundo, e agora estava atipicamente vazia como se metade da população mundial tivesse sido assolada por um holocausto.
Era domingo, mas não um domingo qualquer, era um daqueles que encerram um fim de semana prolongado. De fato, metade da cidade havia descido a Serra do Mar para curtir o "feriadão" nas praias do litoral. Mas não José de Jacó, esse não! Nunca fora dado a diversões, não tinha vida social, não bebia. Vivia para o trabalho e isso lhe era motivo de orgulho. Não perderia nunca a chance de receber um adicional para trabalhar durante o feriado - e assim poder pagar o computador do primogênito e o aparelho de DVD que constituía a alegria (uma das poucas) da família - para prevaricar em trajes de banho no litoral de Santos? Não... Ele não! Era oriundo de família extremamente pobre, retirante nordestina, e graças a essa sua compulsão pelo trabalho podia agora oferecer algo melhor para seus dependentes.
José era um homem sisudo. E por isso mesmo tornara-se motivo de chacota. Motivado pelas constantes gozações de que era alvo - e pelas quais nutria ódio indelével... - havia alimentado em seu âmago uma profunda amargura e um certo distanciamento das pessoas. Não havia apenas desenvolvido uma personalidade pedante, era também desleal, não possuía nenhum escrúpulo em prejudicar os outros, contanto que pudesse tirar proveito da situação. Criou-se em sua psique uma eterna preocupação quanto ao bem estar alheio: porque a felicidade dos outros constituía a sua desgraça. Era também um homem mau, desprezível, falso. E o fato de não possuir amigos agravara ainda mais sua condição.
Agora que se encontrava nesta situação delicada, pendurado de ponta cabeça frente ao abismo cruel, com a morte a lhe sorrir com os dentes cariados, a fúria explodiu-lhe no peito através de uma torrente de lembranças carregadas de rancor contra seus colegas de firma. Praguejava contra "aqueles prevaricadores amaldiçoados": "Os vagabundos têm medo de serviço e eu sou o único suficientemente probo aos olhos do Senhor, diante de quem ‘somente o trabalho dignifica o homem!'". E, para ele, a prova disso fora o modo como seus companheiros de serviço o reprovaram, na quarta feira passada, por aceitar um serviço extra:
—    Porra Nariz!  - (... esse era o apelido que perseguia José desde a juventude...) — Tu aceitou o trampo lá da paulista ô meu?  - reclamava Barrabás, um negrinho abusado que costumava fumar maconha nos depósitos de limpeza dos edifícios onde trabalhava de servente. José já o havia denunciado ao gerente de departamento, mas este não lhe dera muita atenção, e o motivo era a antipatia que todos sentiam quanto à sua pessoa, fosse outro o denunciante a conclusão do episódio seria diversa...
—    Assim tu derruba a "crasse" mano! Daqui a pouco os patrão não vão mais deixar os mano enforcar as sexta-feira, ta ligado? Pra eles nós é tudo vagabundo, tá ligado?
—    Já te falei que eu não sou eletrodoméstico para "tá ligado" o tempo todo! - retrucou José do alto de sua superioridade ranzinza - E, além do mais, eles têm razão: vocês são todos um bando de preguiçosos mesmo!
Ao ouvir a resposta, o sangue do rapaz subiu instantaneamente à cabeça. Levantou o dedo em riste fazendo menção de discutir, mas fora subitamente interrompido por Caifás, um eletricista, já idoso apesar dos seus cinqüenta e poucos anos, feições duras, que acabara sua refeição e palitava os dentes na mesa ao lado:
—    Que nada Barrabinho! O Nariz ta é arrumando desculpa! O que ele não quer é que o pessoal veja a boazuda da mulher dele desfilando de biquíni lá em Santos!
A gargalhada foi unânime no refeitório da empreiteira, ao que fora respondida aos berros:
—    Olha aqui ô Caifás, eu nunca lhe dei essas intimidades! E lave a boca para falar de minha mulher! ­­- levantou-se com um empurrão na bandeja, derramando parte do feijão na mesa, e retirou-se. Mas não sem antes escutar, por entre as risadas e chacotas gerais, os resmungos em voz baixa proferidos por Caifás: "Cearense cabeça chata de merda! Pau-de-arara filho da puta! Aquele é o pior prédio da empreiteira, ele vai se foder, e eu quero mais é que se foda!".
Aquilo soara a José como uma maldição, e, de fato, sem saber, ele selara ali o seu destino, pois a partir daquele momento ninguém aceitaria a tarefa de ser seu parceiro em uma empreitada. Quem iria aceitar perder um domingo de feriado para trabalhar com uma figura daquelas? Ainda mais que não seria uma tarefa obrigatória, regida por contrato de prestação de serviço firmado pela empresa, mas uma espécie de "free-lance" com direito a um bônus especial.
A SERVCOM, firma onde José trabalhava, era especializada em prestação de serviços terceirizados para empresas diversas. Fornecia pessoal para tarefas que iam desde auxiliar de copa, até web-design. Para tanto ela era subdividida em várias empreiteiras, cada qual especializada em uma área diferente. Isto refletia a política da empresa: flexibilidade para atender as diferentes demandas geradas pelas necessidades dos contratantes. Esta flexibilidade havia sido a condenação de José pelos motivos que agora passaremos a expor.
*                   *                    *

Coincidências mortais.

O edifício em que José aceitara a tarefa extra de lavar as janelas no fim de semana, era um dos mais elegantes edifícios executivos da Avenida Paulista, e, por isso, também um dos mais dotados de normas quanto à conduta dos encarregados dos serviços primários. Caifás havia se referido a ele como "o pior prédio da empreiteira", mas poderia muito bem ter se referido da maneira como todos os designados para trabalhar nele se referiam: "‘O' mais cheio de frescuras!".
Quanto às normas de conduta referentes ao lavador de janelas, este deveria ser o mais invisível possível, por isso é que a administração do edifício havia combinado o domingo de feriado para se realizar a limpeza exterior. Considerava-se um transtorno a figura de um lavador de janelas passando pelo lado de fora da sala durante uma reunião de negócios. A fachada do prédio era inteiramente coberta por vidro espelhado, de maneira que, quem cruzasse adiante não poderia enxergar o interior. Por outro lado, um lavador de janelas com a mão em forma de concha em volta do rosto...
Fosse como fosse, o fato é que se dava tanta importância às normas de conduta dos empregados subalternos, que até as normas de segurança acabavam por ficar em segundo plano. Uma prática não tão rara no Brasil, onde as leis se aplicam aos pobres e a jurisprudência aos ricos. Sendo assim, mesmo uma normativa fundamental - como a de os lavadores de janela em arranha-céus deverem exercer suas funções no mínimo em dupla, nunca desacompanhados - não fora respeitada neste caso. E José estava satisfeito com isso, não teria de dividir o bônus extra, que, somado ao adicional de periculosidade, garantiria uma boa paga, valendo à pena o trabalho dobrado. Além do mais, ele já realizava esta função há vários anos e daria conta do serviço sem maiores problemas.
 Mas como do excesso de confiança advém, às vezes, a desgraça, o Demônio arquitetara a de José para que viesse galopando a soberba.
Outra norma usualmente negligenciada dizia respeito à cor dos uniformes, estes deveriam conter cores berrantes. Isto não se aplicava ao caso do edifício Côte D'Azur, onde eram propositalmente confeccionados em um azul piscina que se confundia com a cor do espelho frontal. Ora, aos trabalhadores externos não se permitia nem mesmo que perturbassem a harmonia da arquitetura...
Por essas e outras é que José permanecia agora grudado à parede de vidro como um camaleão à pedra: completamente despercebido em seu mimetismo.
*                   *                    *

O desespero.

A semana do trabalhador daquele ano havia sido premiada com um veranico e todas as previsões meteorológicas indicavam uma quinta-feira, 1˚ de maio, ensolarada. No entanto, a chegada de uma frente fria na tarde de sexta havia provocado uma inversão térmica, lembrando à "Terra da Garoa" a justeza de seu epíteto. A cerração atingira o litoral na manhã seguinte, fazendo o infortúnio dos ávidos banhistas paulistanos e ganhando as manchetes dos jornais locais de amenidades, que iam ao ar nas tardes de sábado. A notícia só poderia soar ao nosso lavador de janelas como um júbilo mesclado a uma pontada de sentimento de vingança realizada - mal podia esperar para chegar à segunda-feira, quase mil reais mais rico (ou menos pobre...), e tripudiar sobre o fim-de-semana fracassado dos colegas.
Mas o que antes fora um motivo de alegria, agora se transformava em motivo de desespero. O forte vento e a garoa gelada multiplicavam a sensação térmica de frio, causando dor e paralisia em todos os músculos do corpo. Mesmo a simples ação de levantar o braço à altura do rosto para ver as horas, tornara-se um esforço sobre humano; eram cinco e quarenta e dois da tarde, donde José pôde deduzir que havia ficado desacordado por cerca de três horas e vinte minutos, uma vez que sabia que o acidente tinha ocorrido por volta das duas e vinte da tarde.
Olhou por sobre o braço esquerdo para a cadeirinha quebrada, que se balançava um metro acima de seu pé esquerdo, logo abaixo da borda do prédio, e descobriu, quase que imediatamente, o motivo do acidente: o compensado naval, de que era constituída a cadeira de posicionamento, estava velho e apodrecido pela falta de uso, o que causara seu rompimento exatamente no ponto onde se prendia à fita de poliamida responsável pela ancoragem.
Assim que realizou essa observação passou a reconstituir mentalmente os eventos que levaram ao acidente. Eis o que ocorrera:
 Após se apresentar ao zelador do prédio pontualmente ás 13:45 e ser conduzido à cobertura, onde ficava o depósito com os uniformes e equipamentos de segurança, José inspecionou o balancim duplo, que era normalmente utilizado nas tarefas de limpeza da fachada, e concluiu que apesar de ser um equipamento moderno e seguro seria uma tarefa muito complicada operá-lo sozinho, já que era totalmente manual, o que atrasaria o trabalho. Optou pelo uso da cadeirinha de bombeiro instalada em um sistema independente de polias que permitiam o deslocamento na vertical e na horizontal, com a utilização de uma corda de segurança firmemente ancorada e equipada com um ascensor, um desensor e um trava quedas; este último, preso a um cinturão de segurança de dois pontos por um talabarte em "Y". Já havia utilizado equipamento similar várias vezes antes e sabia que era bastante seguro. Em quinze anos realizando esse tipo de serviço nunca havia sofrido um acidente. Somente a corda de segurança não era confeccionada em um material que seria considerado ideal pelas normas, no entanto a improvisação era uma constante nesse trabalho, e, além do mais, estava acostumado a utilizar equipagem de qualidade muito inferior, inclusive com espessura inadequada, e isso não fora problema.
 O equipamento estava todo amontoado no canto do depósito em uma caixa de papelão que José teria carregado, não tivesse ela rompido o fundo devido à umidade causada por uma infiltração exatamente naquele local. Essa umidade é que havia causado o apodrecimento da cadeirinha, bem como diversos pontos de ferrugem nos materiais metálicos.
Sem se dar conta do encadeamento de fatores que iriam culminar em seu destino malfadado, José se dirigiu ao parapeito, que era formado por um vidro cortante, muito resistente (o mesmo que revestia a fachada do prédio), com cerca de um metro e vinte de altura para o lado do terraço, onde rente ao chão um cabo de aço cruzava paralelamente. Ali ele instalou o sistema de polias e o mosquetão responsável pela ancoragem da corda de segurança, de maneira que esta última formava perigosamente um ângulo de trinta graus partindo do ponto de ancoragem ao contato com o parapeito e voltando em direção ao abismo, dando a impressão de um barbante prestes a ser picotado por um estilete. José passou por cima do parapeito, apoiou-se na cadeirinha, soltou, mais ou menos, dois metros da corda de segurança para lhe dar maior liberdade de movimento e debruçou para o lado de dentro a fim de pegar o balde e o rodo, esticou o corpo para frente e apanhou-os, mas ao retesar-se de novo para fora escutou o som de algo se partindo e o apoio sumindo de repente. Em um desesperado espasmo em busca de apoio, e já em plena queda, ele jogou o corpo para frente indo de encontro à borda de vidro, esmigalhando imediatamente os ossos do enorme nariz e de parte do rosto e testa. O impacto jogou seu corpo para trás em uma trajetória em parafuso que fez com que a corda responsável por sua segurança se enrolasse apertada em torno da perna esquerda e travasse em um nó firme em volta do tornozelo e pé, deixando-o pendurado com os membros soltos no espaço.
Ao acordar, um misto de pavor e desespero profundo lhe gelou a alma, paralisando as ações e até o mais simples raciocínio. No entanto, com o passar do tempo essas emoções foram dando espaço a pensamentos mais práticos, incentivados pelo mais básico instinto de sobrevivência. Analisou a situação. Tranqüilizou-se um pouco com a idéia de que estava muito bem preso à corda de segurança. Tentou esquecer um pouco da dor, (principalmente a que sentia no rosto, devido ao choque contra o parapeito; e a da perna, mormente na parte de trás da coxa - onde sofria a pressão do conjunto de aço composto pela união do mosquetão do talabarte ao trava quedas - daí em diante já não sentia nada devido à interrupção da circulação.). Concentrou-se em sair daquela situação.
 Primeiro experimentou rodar em torno do próprio eixo tentando desenrolar a corda da perna: perdeu o número de voltas que deu e tudo o que conseguiu foi torcer a corda e apertá-la ainda mais. Mesmo assim não desistiu e continuou, até que o pavor se lhe assomasse novamente à alma na forma de um estalo e um estremecimento na linha que mantinha sua vida. A corda estava cedendo. Olhou com dificuldade para cima e pôde perceber que metade já havia se partido e a outra metade já estava completamente desfiada e perdendo o trançado, apenas um fino cordame ainda o mantinha suspenso.
*                   *                    *

Uma pomba branca.

O acúmulo de gordura causado pelos anos de sedentarismo agora cobrava seu preço. Todas as tentativas de erguer o corpo com o auxílio da corda esbarravam na saliente barriga que impedia José de tocar o próprio pé, sem dobrar o joelho. Essas tentativas foram poucas. Ademais, todas elas eram acompanhadas pelo som característico da corda se partindo. Ele parou para descansar e apoiou a cabeça para trás, contra a parede de vidro. Com o canto do olho pôde perceber através da vidraça que algo se movimentava há alguns metros sob sua cabeça, rotacionou novamente o corpo, mesmo sabendo que era arriscado, e colocou as mãos no vidro e em volta do rosto para poder enxergar melhor.
Em uma típica ante-sala de diretor - com uma mesa de secretária à esquerda e um sofá à direita - uma mulher havia entrado e agora esvaziava uma lixeirinha em seu carrinho de limpeza. José esmurrou o vidro:
—    Ei! Me ajuda! Socorro!
Alheia às súplicas, a mulher ajeitou o walkman nos ouvidos, colocou a lixeirinha em seu lugar ao lado da mesa e adentrou à sala do diretor.
De onde estava, José não podia enxergar o que se passava na sala ao lado, ele estava posicionado entre um andar e outro e entre a sala e a ante-sala, de forma que do lado de dentro só podia ser visto no ângulo superior direito da janela da ante-sala, e, mesmo assim, apenas por seu braço esquerdo e metade da cabeça. A amplitude do cômodo também contribuía para a pequenez do lavador de janelas, era uma diretoria localizada no último andar e ostentava um tamanho condizente com sua importância. Havia duas portas no fundo da ante-sala, distantes da janela. Pela da direita, referente à sala, ele viu passar novamente a mulher, apressada, com uma nova lixeirinha para esvaziar, apenas para desaparecer novamente pela porta e retornar meio minuto depois fechando-a atrás de si, indo embora empurrando o carrinho pela porta da parede adjacente.
—    Volte aqui! Desgraçada surda! Me tira daqui! Chame alguém, pelo amor de Deus! Não!
Ela se fora...
José esmurrou a parede com tanta força que ficou com as mãos doloridas. O último murro foi tão forte que o empurrou de volta à sua posição inicial, de frente para o mundo e para sua sina. Praguejando ao infortúnio.
Permaneceu inerte no frio durante um longo tempo, apenas observando o crepúsculo por detrás das nuvens-de-chumbo e a luminosidade a se esvair. Logo a noite cairia e as suas esperanças estariam perdidas. Em uma última e desesperada tentativa de ser avistado ele passou a acenar e gritar para as "formiguinhas" que caminhavam na calçada lá em baixo, mas não podia ser ouvido, estava no topo de um prédio de mais de trinta andares e suas palavras eram sopradas pelo vento. Também não era avistado. Em um dia frio, com vento e garoa, as pessoas tendem a andar apressadas e com os olhos fixos ao chão, encolhidas em seus blusões, talvez pela depressão mental causada pelo clima feio, talvez pela preocupação em manter a própria integridade, não escorregar ou pisar em poças d'água. O fato é que ninguém olhava para cima...
...Quase ninguém...
Do outro lado da avenida, um menino, aparentando não mais do que cinco ou seis anos, puxava a manga do casaco da mãe e apontava diretamente para José, que se sentiu alegre com a esperança renovada. "Graças a deus! Ele me viu!."
—    Socorro! Eu estou aqui, me ajudem!
Foi tomado por uma felicidade súbita que partira da idéia de que dentro em pouco estaria sendo resgatado. Sabia que se continuasse por mais tempo pendurado a morte seria seu destino certo. Se não pela queda, seria pela falência dos órgãos causada pelo frio ou à posição invertida, cujos efeitos provocados pela circulação deficiente já podiam ser sentidos nas extremidades dos órgãos. Acenou efusivamente com os braços enquanto percebia as lágrimas rolarem o rosto na direção contrária, pela testa, rumo aos cabelos.
Manteve os olhos fixos na dupla lá em baixo que carregava seu último fio de esperança. A mãe, que já se sentia admoestada pelos puxões da criança, resolveu dar-lhe atenção. Abaixou para melhor ouvir o menino e olhou para o alto com displicência abanando a cabeça em sinal de afirmativo, ergueu a mão e deu um tchauzinho, no que foi imitada pelo menino. Em seguida ela retomou seu caminho, apressada, arrastando o garoto pela mão.
José não podia acreditar naquilo, à única pessoa que o tinha avistado não se havia dado crédito, ou será que aquele garoto estúpido pensava que ele estava se exibindo e dando tchauzinho? Ficou assistindo a dupla se afastar levando junto sua esperança. As lágrimas, que há pouco eram de alegria, se transformaram em lágrimas de desespero. Chorava desabaladamente, soluçando como uma criança que perdesse o brinquedo. Sentia-se só, abandonado, desgraçado. O medo da morte era real, medo não...pavor! Xingou o Criador, os pais que lhe botaram no mundo, os colegas de serviço, os administradores do prédio...
Estava tão absorto em suas lamentações que não percebeu algo que já vinha acontecendo há algum tempo. A corda vinha sofrendo, de tempos em tempos, algumas perturbações. Eram pequenas vibrações em espaços de tempo irregulares que se assemelhavam a fisgadas de peixe em uma isca. Já havia horas que este fenômeno vinha acontecendo, mesmo enquanto José estava desacordado, e até agora ele não tinha sido notado pelo lavador de janelas, porém, no momento em que as lágrimas secaram e José não agüentava mais chorar, a vibração se fez acompanhar do rompimento de mais uma seção da corda, causando um deslocamento de alguns centímetros para baixo. O homem entrou em pânico imediato, achou que sua hora havia finalmente chegado e o susto lhe causara tremor e arrepios por todo o corpo. Os músculos afrouxaram causando incontinência: defecou, urinou.
O calor da urina, que chegara até o pescoço e braços, afastou momentaneamente a sensação de dor causada pelo frio intenso e José pôde reunir forças para averiguar a origem dos distúrbios. Ergueu o tronco e olhou para o ponto de contato da corda com o parapeito cortante, e lá estava ela! - maldita, ameaçadora, mensageira alada da morte, a bicar e retalhar impiedosamente as fibras que sustentam uma vida insignificante:
—    Sssh! Xô! Sai daí, desgraçada, sai!
A pomba branca nem se abalou e continuou o labor de retirar as fibras da corda para construir seu ninho, se deu apenas ao trabalho de parar um instante e olhar diretamente para o moribundo pendurado lá em baixo. No momento em que José encarou aqueles olhos ele soube que se tratava de uma besta enviada pelo inferno, eram olhos vermelhos que pareciam pintados pelo próprio "Cão", faiscando maldade em sua direção. O que podia muito bem ser confundido com o símbolo da paz, significava para José de Jacó o próprio cavaleiro do apocalipse, ele odiava pombos, se referia a eles como "ratos com asas" - e os malditos eram companhia certa e constante para quem trabalhasse em lugares altos -  ficavam lá a arrulhar e a sujar tudo com seus dejetos - limpar cocô ressecado de pombo sempre exigia um trabalho maior. O que mais irritava era que, quando enxotados, eles permaneciam lá, com seus peitos inflados, em uma posição de deboche, escárnio e desafio, se abalando em vôo apenas com uma aproximação ameaçadora. Não consistia tarefa fácil agarrar um deles. E agora essa pomba o estava querendo matar.
Por seu lado, o animal estava querendo apenas matéria prima para o abrigo de seus filhotes, uma vez com o bico cheio de fibras ela olhou novamente para José, "sujou" o parapeito e saiu voando.
—    Graças a Deus! Ela foi embora! Ave endemoniada!
Cinco minutos depois as bicadas reiniciaram:
—    Desgraçada! Xô! Vai embora! Sai daqui!
A ave parava, olhava em seus olhos, recomeçava a tarefa...
—    Meretriz! Some daqui esconjuro! Volta pro inferno de onde veio!
E a pomba lá.
—    Você não vai desistir enquanto não me matar não é? — lembrou-se do pastor na igreja: — Eu te expulso Exu! Em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo eu ordeno que vá! Sangue de Jesus tem poder! Vá-te daqui! — rezou a Ave Maria e o Pai Nosso com uma fé que nunca tivera, abriu os olhos e o demônio continuava ali, encarando-o com os olhos vermelhos, continuando a dilacerar o fio de sua vida.
O ódio que José sentia pelo pássaro agora era tão grande que o fizera esquecer da situação, se ele pudesse agarrar aquela pomba branca iria quebrar seu pescoço com um prazer maior do que teria sendo resgatado. Ele se manteve encarando a antagonista por um longo tempo até que as feições dela mudassem: os olhos se transformaram em fogo, o bico desenvolveu presas enormes. A pomba transformava-se em um monstro horrendo e disforme que começou a falar com José expelindo um hálito fétido de mijo e merda:
*                   *                    *

Alucinações: uma conversa com o Diabo.

—    "Onde está vosso Deus agora? Tal qual vosso bispo-pastor tanto vos prometeu?
A voz do pássaro-monstro soava arranhada, esganiçada, carregada das incontáveis eras de sofrimento, desgraça e perdição que apenas o inferno poderia oferecer:
—    Achais, realmente, com a ignorância tépida que vos define, que vossa salvação no reino dos céus existe? Pensavas que as sessões de descarrego empreendidas em vosso templo de mentiras vos afastaríeis de nossas garras? Constituís uma piada! Sois nosso! Vosso sangue, carne, ossos e pensamentos nos pertencem, com eles nos alimentamos!
—    ...Não nos deixeis cair em tentação, mas livrai nos do mal...
Ao fim da prece de José o universo irrompeu em uma gargalhada regurgitada das entranhas do pássaro, que fundiu as dimensões todas em um redemoinho localizado no estômago de José, quis vomitar, mas conteve-se:
—    Isso! Rezeis para o vosso Deus, mas sabeis que ele não existe! Apenas nós existimos para desgraça e perdição daquilo que chamais de humanidade! Vossa salvação é um mito que acalenta as esperanças de superioridade de vossa espécie, crês que apenas vós possuís alma imortal, e que, por isso, sois os únicos a desfrutar do paraíso celeste! Aquele mesmo paraíso que comprardes por uma paga pífia a vosso bispo-pastor? Néscio, imbecil! Não tendeis salvação!
—    Ave Maria, cheia de...
—    Há! A puta da Galiléia! A vadia que emprenhou de um mercenário romano e culpou um anjo? É o melhor que tendeis a oferecer contra mim? Invocais a uma vadia mentirosa? Porque não invocais ao filho? Aquele beato maluco que apanhou até morrer! Você sabia que ele era tal qual seu bispo-pastor? Gritando mentiras e maluquices para seus fiéis imbecis? Agradecemos a política romana por transformá-lo no Salvador, assim ele e seu culto nos serviu bem... vos sois um deles, sabíeis? Sois nosso!
—    Blasfêmias! Você só diz blasfêmias! Você é o príncipe das mentiras que está me atentando e querendo me levar para seu reino antes de minha morte! Mas com Eeele - dando uma entonação longa e  forte —  eu não temerei ao caminhar pelo vale da morte...
—    Ele não existe... e vossa alma já é nossa! E, quando chegardes em nossos domínios, prometemos sofrimentos incalculáveis através dos séculos até o momento de vossa reencarnação. Irás sentir dor, frio, abandono e solidão em meio ao negro vazio que constitui nosso reino. Queimarás e sufocarás em meio ao nosso fogo também! Sentirás como se fosse em vós o sofrimento de vossos entes queridos, vossa mulher será eternamente  estuprada e espancada diante de vossa consciência, e perceberás o prazer que ela terá nesses momentos! Saberás o quanto ela te odeia e quanto todos o odeiam!
Era o pavor, o mais profundo e incomensurável medo, companheiro inseparável das aparições infernais, esse que José agora experimentava. Será que todos os moribundos se deparavam com ele?
—    Mas...porque eu? O que fiz para merecer o sofrimento do inferno? Onde pequei?
—    Hum...o único pecado é se deixar de fazer o que se quer. Todos merecem o inferno, para ele todos retornam...
—    Mas então qual é o sentido da vida? Por que vivemos?
—    Viveis para sentirdes um alívio temporário do sofrimento, para que este seja maior ainda quando para lá voltardes. Vosso mundo existe em função do nosso, e não o contrário.
—    Você não vai me levar agora, eu vou me salvar e assim destruir os seus planos!
—    Não temos planos... mas tendeis razão em uma coisa, ireis vos salvar, apenas para que carregueis a certeza da danação pelo resto de vossa vida patética!
—    Então eu vou me salvar? Não vou morrer agora? Mas como? O que devo fazer para me salv...*"

As pequenas fisgadas na corda despertaram José. Ele havia perdido os sentidos novamente, só que agora havia sonhado. Apercebendo-se disto, soltou uma breve gargalhada de alívio. O pássaro monstro era apenas produto da imaginação. No entanto, sua situação continuava inalterada e já era noite escura, se pudesse agüentar ao menos até a manhã com certeza seria visto. Por outro lado, a pomba amaldiçoada não dava tréguas e a noite apenas iniciara. Será que conseguiria sobreviver a ela? Se o frio já era cortante durante o dia... à noite haveria de ser muito pior... A corda suportaria por todo este tempo? Seu corpo resistiria à posição invertida sem sofrer um colapso? Já desmaiara por duas vezes...Tentou afastar todas as indagações da mente e se preocupou com coisas mais práticas:
Inspirou profundamente em busca do oxigênio que lhe renovasse as forças, mas tudo o que conseguiu foi ficar enjoado com o fedor dos próprios excrementos. Perscrutou, novamente com esforço, os afazeres do animal: este já havia enchido novamente o bico e arrulhava displicentemente passeando por cima da corda, virou a cauda para fora, na direção de José, "sujou" e levantou vôo.
—    Perfeito! Maravilha! A filha da puta ainda cagou em mim!
Raramente ele proferia palavrões.
Inclinou a cabeça para trás e se pôs a esperar. Passaram-se cerca de vinte minutos e a pomba não retornara, parecia que finalmente ela havia se empoleirado para a noite. José estava bem mais calmo e a solidão das alturas lhe passava uma tranqüilidade que há muito tempo não sentia. Ficou ali, curtindo aquela sensação, muito mais preparado para o que viesse a acontecer, sem expectativas, quando, de repente, algo começou a vibrar e apitar no bolso direito do macacão.
Ele havia esquecido do telefone celular...

FIM DA PARTE 1
(CONTINUA...)


 
Não perca no próximo número: Terror! Possessões demoníacas! Fantasmas! Cenas nojentas! Sangue! Atreva-se a descobrir o mistério por trás da sina do lavador de janelas, você vai se arrepiar!
-    PARTE 2:
-    O outro lado da moeda.
-    A Redenção de um lavador de janelas.
-    O epílogo de José.
-    A queda infinita.

(todas as situações, logradouros, personagens vivos, mortos ou morto-vivos descritos aqui não têm qualquer relação com a realidade, qualquer semelhança é mera coincidência)

Comentários  

0 #1 Desculpasboka 22-11-2006 16:00
Peço desculpas pelo embuste do subtítulo (Sexo, blasfêmia e depravação). Fiz isso para testar uma teoria que vem sendo confirmada. Espero que isto não impeça o nobre leitor de continuar acompanhando a saga do lavador de janelas. Este foi meu primeiro conto de horror escrito realmente à sério e me deu muito orgulho o fato de ter sido premiado em um concurso literário na terra mãe de nossa língua. Humildemente envio as minhas escusas e o meu sincero agradecimento.
ass: Bocca.
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