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"Alice sentou em frente a Buckley, tirou um bloquinho e uma caneta de seu bolso e, destacando uma folha, pôs-se a escrever sobre a escrivaninha. Escreveu apenas um nome e passou a folha para o administrador do mundo artificial."
INTRODUÇÃO

 
O  TERROR  À  ESPREITA

 

Meia-noite e trinta e três minutos. A hora, no Mundo Negro, segue a convenção da Terra. Uma porta se abre e uma garota, acabada de se vestir, despede-se às pressas de alguém que permanece no interior da suíte:

— Eu volto amanhã, meu bem. Tchau.

A garota loura e longilínea se afasta rapidamente enquanto a porta se fecha às suas costas. Os sapatos de salto médio fazem pouco ruído no piso acolchoado enquanto ela caminha pelo corredor curvo, que vai derivando sempre para a esquerda, as paredes marrom-escuras iluminadas pela fileira de luzes branco-esverdeadas. O caminho parece interminável e pela primeira vez ela pensa no ambiente com medo ou, pelo menos, apreensão.

Subitamente um ruído chama a sua atenção, como se algo se aproximasse por trás. Ela se vira e só tem tempo para uma coisa: gritar...



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Buckley Elizondo examinava o relatório quando o delegado Robinson se aproximou dele e interrompeu-o:

— Buckley, esta pessoa quer falar com você.

O administrador segurou o cartão curricular e, à primeira vista, leu: "Alice Chantecler - corretora de imóveis", com vários tipos de direção, a começar pela Cosmonet.

— O que ela quer comigo? Não quero comprar nada.

— Ela também não quer vender nada, eu acho. A não ser o peixe dela, eu acho.

— Do que é que você está falando?

— Buckley, ela faz parte da Liga Internacional de Clarividência e quer falar com você sobre a Miki. Eu estive acessando dados e constatei que essa Alice é considerada pessoa idônea.

— Pode ser, mas não gosto dessas interferências estranhas. Isso pode não dar bom resultado. Mas mande ela entrar!

A um comando de Robinson, a porta metálica correu e uma jovem de cabelos avermelhados entrou. Trajava-se de forma simples e normal, no entanto alguma coisa nela, indefinível, parecia fora do comum. Buckley sentiu-se incomodado com algo que não sabia o que fosse; mais tarde, pensando no caso, o máximo que conseguiu chegar foi que, naquele momento, pareceu ocorrer uma súbita e inexplicável queda de temperatura. O aposento estava quente e Buckley tirara o seu paletó. Foi Alice penetrar, e algo como uma sensação gélida também penetrou no ambiente: um frio que lembrava desolações árticas, regiões obscuras e esquecidas onde se refugiavam coisas tenebrosas e silentes. Entretanto o terror só durou uma fração de segundo, muito pouco para formar impressão definida: a temperatura voltou ao normal e a mulher parecia normalíssima:

— Administrador Buckley?

— Eu mesmo.

— Permita que eu me apresente. Sou Alice Chantecler, possuo clarividência e gostaria de ajudar na solução do assassinato que ocorreu neste satélite.

Buckley pôs-se a manipular o cartão, mudando sua posição para que os hologramas se revezassem. Uma das telas dizia:

"Alice Chantecler pode localizar objetos perdidos, bem como pessoas e animais, e por considerar seu dom uma dádiva de Deus, auxilia gratuitamente a quem precisar de seus serviços".

— Já trabalhou com assassinatos? — perguntou Buckley.

— Não me sentia preparada... mas agora estou.

— Você já tem alguma idéia sobre esse crime?

— Permite que eu me sente?

— É claro. Me desculpe.

Alice sentou em frente a Buckley, tirou um bloquinho e uma caneta de seu bolso e, destacando uma folha, pôs-se a escrever sobre a escrivaninha. Escreveu apenas um nome e passou a folha para o administrador do mundo artificial.

— O que vem a ser isso?

— É o que eu o aconselho a investigar.

Na folha entregue por Alice estava escrito: NECRONOMICON.

 


CAP. I

 
VISÃO DO MAL

 

Buckley alisou os bigodes grisalhos e sacudiu um pouco de caspa em seu paletó verde-garrafa jogado no encosto da poltrona. Aí tornou a fitar a garota dos cabelos vermelhos e comentou com certa arrogância:

— Eu sei que você possui credenciais respeitáveis, mas nem por isso quero saber de enigmas. É bom me dizer o que tem em mente.

Pela primeira vez um lampejo de irritação perpassou pela expressão da visitante:

— Não tenho nada em mente, meu senhor. Não sei ainda o que foi que matou a garota. Estou apenas lhe mostrando o que a minha visão me mostrou.

Robinson, que sentara perto, interferiu:

— Do que se trata, Buckley?

— Necronomicon. Você ouviu falar?

ALICE — Senhor Buckley, a palavra é proparoxítona, Necronomicon e não Necronomicon. Isso é o nome de um livro. E tem tudo a ver com o caso.

— Como é que você sabe disso...

— Eu não sei. Clarividência é um dom de Deus, não se explica.

Robinson, homem ainda jovem e com uma cara de quem vive na espectativa, levantou-se e aparteou:

— Um momento! O que você quis dizer sobre "o que matou" a menina? Ela foi assassinada!

— Sem dúvida, delegado — Alice estava fria.

— Então, não há dúvida nesse fato: não é o que matou, mas quem matou.

— Resta saber, delegado Robinson, o que é esse quem a que o senhor se refere.

— Mas que embrulhada...

— Chega! — Buckley estava agastado.— Se não tem nada melhor a me dizer?

— Como, administrador? Pela Cosmonet o senhor pode descobrir informações sobre o Necronomicon, mas eu as adianto: é um livro escrito há dois mil anos por um árabe que tinha fama de louco. É um livro que fala sobre os mistérios que cercam o passado mais remoto da Terra e do Universo. É um livro que fala sobre os Grandes Antigos.

— Ah, sim, o mito dos Grandes Antigos. Já li a respeito.

Deu um pequeno tapa de impaciência na mesa.

— Você quer dizer que foram os Grandes Antigos que mataram a Miki? Acha que eu vou dar crédito a isso?

Pela segunda vez Buckley experimentou a obscura impressão de uma queda de temperatura. E de novo a impressão se esfumou, indefinida. Alice, muito séria, respondeu:

— Posso demonstrar as minhas aptidões. Me dê alguns segundos. Pense no número de sua identidade.

Alice recostou-se na poltrona e baixou os olhos, entrecerrando-os, em concentração:

— Zero... oito... quatro... quatro... cinco... um... sete... seis.

Buckley mal conteve um arrepio.

— É verdade.

— Então, administrador, sugiro que me leve a sério. Há alguma coisa má à solta neste satélite, e não se contentará com uma só morte. Qualquer um de nós poderá ser a próxima vítima.

Robinson abriu os braços em protesto:

— Isso é ridículo!

— Deixem-me ver o corpo.— pediu Alice.— Preciso vê-lo para descobrir alguma coisa.

BUCKLEY— Não é uma visão agradável.

— Não me importa. Devo vê-lo, Sr. Buckley. Por favor.

— Pois muito bem. Vamos até a câmara frigorífica.

Alice ergueu-se e acompanhou os dois homens. Seguiram pela complicada rede de corredores e pegaram o elevador até três pisos abaixo. Chegando à ante-sala do necrotério, o robô de plantão acionou a abertura da câmara mortuária, sem fazer nenhuma objeção, visto conhecer Buckley e Robinson.

Buckley estremeceu de frio, e percebeu a mesma reação em Robinson. Embora menos vestida, Alice não demonstrou nenhuma sensibilidade ao frio do aposento. Aproximou-se da maca e afastou o lençol. O corpo da jovem Miki Kazuo apareceu, com as dilacerações pelo tronco. Alice tocou em seus braços e contemplou o rosto, que a morte surpreendera numa expressão de pavor. E murmurou:

— Pobre menina... eu me penalizo dela.

Enxugou algumas lágrimas e voltando-se para os dois homens, sentenciou:

— Sei muito bem que vocês encontrarão dificuldade em admitir o que vou lhes dizer, mas façam um esforço. Essa garota... essa moça... ela não foi morta por mãos humanas.

Buckley e Robinson se entreolharam, trocando olhares de ceticismo. Alice pôs-se então a caminhar pelo aposento, concentrada.

— Estou tentando pensar no que aconteceu... ela caminha, percebem? Caminha despreocupada, após se despedir do rapaz. Mas de repente ela tem um pressentimento, uma intuição. Ela começa a ter medo e apressa o passo. Aí de repente...

Alice faz uma vaga careta de desconforto. Aí se volta num relance — e fecha os braços em torno do peito, e recua como se alguém ou alguma coisa a atacasse.

— Ela grita — e é o fim. O que a atacou... era algo que ela não podia enfrentar.

— Um assassino psicopata. — disse Robinson.

— Talvez. Mas não era humano, delegado.

Robinson explodiu:

— E aí? Onde é que isso nos leva? Todas as raças inteligentes que conhecemos são nossas amigas. Ou você pretende que existe um animal selvagem a bordo...

— Delegado Robinson, o que eu posso lhe dizer... e que eu sinto... é que uma criatura maligna, pertencente a uma raça da sombra, se encontra no Mundo Negro.

 

 

CAP. II


SONDAGEM PSÍQUICA

 

Três homens lá estavam, reunidos em torno de uma escrivaninha. Buckley com seu charuto, Robinson com uma cara dolicocéfala e apalermada e um rapaz acnento com seu cigarro.

— Eu farei tudo — dizia o último — para matar quem fez isso! Vocês têm que chamar essa mulher aqui, eu quero falar com ela!

BUCKLEY— Ela virá. Mas você acredita no que ela diz?

— Se ela puder me provar, eu acredito. Com a minha estrelinha, eu posso matar qualquer bicho que ande por aí. Vocês não podem monitorar este satélite?

— O custo de uma operação dessa natureza subirá a vários milhões de dólares...

— Que inferno! A minha namorada é morta barbaramente e vocês reduzem a coisa a uma questão de grana...

— Não nos leve a mal — ripostou Robinson.— Não há nenhuma evidência de que Miki tenha sido morta por uma criatura não-humana.

— Mas a tal clarividente não é autêntica?

— Clarividentes também têm suas fantasias.

— Pois bem, eu quero falar com ela.

Buckley esfregou o bigode e resmungou:

— Vou ver se ela pode vir.

 

 

 

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Alice cumprimentou Hilário com reserva e buscou uma cadeira.

—  Eu lamento muito pelo que aconteceu.—  disse ela.

O rapaz enxugou algumas lágrimas.

—  Ainda não posso acreditar. Porque terão feito uma coisa dessas?

—  Meu amigo —  Alice passou a mão direita pelas sobrancelhas —  está enganado. Isso não aconteceu no plural.

—  Foi então um só o assassino, é o que você vê?

—  Uma só criatura, sim. E ela atacará de novo.

—  Mas porque? O que é que esse bicho quer?

—  Ele é um predador.

A psicóloga Ernesta, loura de óculos e aspecto formal, que Buckley chamara para acompanhar a entrevista, interrompeu para protestar:

—  O que você quer dizer? A vítima não foi devorada, foi só rasgada transversalmente pelo peito e abdomem...

—  Ela queria se abastecer de alguma coisa. Se fizerem uma análise química do corpo, verão que uma porcentagem de alguns minerais terá sumido. Ainda não sei o que é. A visão não é fácil.

—  Bem, e suponho que você não pode nos dar nem a descrição física e nem a localização desta sua criatura fabulosa?

Alice respondeu com frieza à ironia da outra mulher:

— Se me der tempo, eu localizarei a criatura. Quanto à sua forma eu venho tentando, mas os meus sentidos encontram nesse ponto uma grande obscuridade. É uma raça das sombras, entende? Ela se oculta da humanidade.

— Você não é clarividente? Prove-me os seus poderes, para que eu não a julgue uma charlatã!

— Calma, Ernesta. — disse Robinson, sem grande convicção.

— Deixe-a falar! Não pedi a sua presença! — trovejou Hilário.

— Meu jovem, compreendo a sua dor mas não é você quem está comandando as investigações. E não devemos perder tempo com fantasmas.

Alice cobriu o rosto com as mãos em palma:

— Por favor. Deixem-me tentar alguma coisa.

Fez-se algum silêncio e Alice concentrou-se em seus sentidos psíquicos. Começou a tremer, a ter pequenas convulsões.

— É algo terrível... maligno... Com pinças enormes e com asas. E tem uma voz, um zumbido. Agora sei que Miki percebeu zumbidos quase inaudíveis. Ele é um dos seres das sombras... os que são mencionados no Necronomicon... aqueles que sussurram nas trevas.

Ernesta fez um muxoxo de desprezo e toda a sua expressão queria dizer: "Coitada, é uma psico mesmo!"

Mas Hilário, na sua angústia pela perda de sua amada, aproximou-se de Alice e tocou-lhe o braço:

— Diga-me... como é que essa coisa penetrou neste satélite? E de onde veio?

— Não sei como penetrou. Mas estava simplesmente no espaço. Estes seres se deslocam pelo vácuo espacial, sem necessidade de astronaves. Entretanto, eles não são imortais. Eles podem ser mortos, sim.

— E podem haver outros?

— Não aqui. Não sinto outros aqui. O monstro estava desgarrado no espaço e se refugiou em nosso satélite.

Ernesta deu um soco na mesa.

— Ora pílulas! Tudo tem limites! Tirem essa mulher daqui, já não suporto ouví-la!

Alice se ergueu e se aproximou da outra mulher:

— Eu não vim aqui para ouvir desaforos. Não sou uma charlatã. Eu sou uma corretora de imóveis com registro em meu conselho profissional há dez anos e não faço negócio para adivinhar coisas. Eu tenho esse dom mas não o uso para ganhar dinheiro.

— Talvez não o faça diretamente... mas isso a ajuda a conseguir fregueses, não é mesmo?

— Ora, cale a boca! — interveio Hilário.— Comandante Buckley, mande essa psicóloga se retirar, por favor. Quem perdeu a namorada fui eu!

A coisa estava nesse pé quando o tenente Ot, um Klingon, entrou e informou:

— Desculpem entrar assim, mas é que surgiu uma nova vítima.

ROBINSON — O que?

— O que eu falei. O cozinheiro Sebastian Tombs foi encontrado caído no caldeirão, meio esquartejado! Uma cena horrível!

Alice retornou à poltrona que antes ocupava:

— Eu já falei: A coisa vai atacar. E continuará atacando, até resolver voltar ao espaço. E é pouco provável que vá logo: ela tem uma longa viagem pela frente até o sistema de Canopus e precisará se retemperar.

 

 

CAP. III

 
PRESENÇA DA MORTE

 

Buckley ordenou uma rigorosa análise físico-química dos dois cadáveres, com cintilogramas e tomografia de varredura, até chegar a uma conclusão sobre a perda na composição mineral denunciada por Alice. Embora lhe repugnasse acreditar na corretora, a segunda morte deixara-o assustado. Agora resolvera portar uma carabina-laser, pois já não se sentia em segurança.

E o resultado não se fez esperar: potássio, magnésio e iodo estavam faltando em nível assustador. No caso do potássio, 90% do que seria de esperar.

O Dr. Harrington Clooney entregou o relatório a Buckley, conservando uma expressão absolutamente séria por trás dos bigodes grisalhos.

— E qual é a sua opinião? — indagou Buckley.

— O cozinheiro foi assassinado com lâminas afiadas em forma de pinças ou foices, provavelmente de aço inoxidável ou de vacuosin e provavelmente manejadas por duas pessoas. Afinal, houve luta e Sebastian era um homem vigoroso.

— E os minerais que faltam?

— Sobre isso qualquer opinião é inútil no momento. Não temos ainda elementos para entender o porque dessa anomalia. Sugiro que todos tenham suas composições químicas analisadas. Pode estar acontecendo um fenômeno causado por nossa exposição ao vácuo sideral...

— Dr. Clooney, mas e o que diz a clarividente?

— Temia que perguntasse isso. Mas veja bem, Sr. Administrador: a clarividência é uma fraude, uma exploração da credulidade humana. Além disso, é impossível que exista a criatura à qual ela se refere. Portanto, a explicação é fantasista e não deve ser levada em consideração.

— Mas doutor, e as evidências físicas?

— Tem que ter uma outra explicação. Que diabo, homem, você acredita em monstros?

— Não sei no que é que eu acredito. Mas o que eu não posso é fechar os olhos aos fatos. Duas pessoas morreram em circunstâncias horríveis e  a única coisa que sugere terem sido crimes humanos é o seu argumento de que não pode ter sido outra coisa. Acho uma forma muito bitolada de tentar descobrir a verdade.

O Dr. Clooney disse um palavrão e explodiu:

— Não existe vida orgânica que sobreviva no vácuo! Não existem entidades cósmicas, e nem demônios! O Necronomicon é um livro supersticioso, e você sabe disso! Pessoas racionais não acreditam no sobrenatural!

O intervisofone avisou que Alice estava na ante-sala e desejava falar com Buckley. Este fez acender a tela e deparou com um rosto aflito e angustiado.

— O que houve?

— Sr. Buckley, sinto que houve uma terceira vítima. Vai ser logo descoberta. O que está esperando? Eu o ajudarei. Vamos atrás da criatura... vamos desentocá-la... antes que ela nos mate a todos!

O médico interferiu:

— Pare, sua louca! Empenho a minha reputação de médico e de homem de ciência em como não existe terceira vítima, e você não passa de uma charlatã!

Ela fitou, da tela, tristemente, o médico:

— Por que às vezes as pessoas tomam atitudes tão insensatas?

 

 

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— Ela deve estar por trás dos crimes. — disse o cirurgião.—Senão como poderia ela saber?

O corpo da menina estava na banheira, rodeado de sangue, e o sistema de ar condicionado achava-se arrombado no local.

— Foi por aqui que a criatura entrou — disse Alice, apontando o tubo estraçalhado. Ela está em algum lugar, no sistema.

— Pare com isso! — gritou Harrington, já histérico.— Não existem criaturas! NÃO EXISTEM, ouviu bem? Não repita isso!

Buckley e  Robinson se entreolharam e o primeiro falou taxativo:

— Se você está disposta a nos guiar, vamos fazer a expedição imediatamente. E com armas pesadas.

A psicóloga, que também estava presente, segurou o braço de Buckley:

— Dê uma chance à Ciência. Você sabe que é impossível que essa mulher tenha razão. Vai comandar uma expedição à procura de nada? Sua própria carreira estará comprometida. E no meu relatório ao Ministério de Colonização Espacial, terei que falar na sua atitude...

— Isso — reforçou Clooney.— Eu também terei que denunciá-lo, senhor Buckley, por falta de decoro na direção desta estação...

— Vocês dois podem ir para o inferno — sentenciou Buckley, já bastante irado.— Venha, Alice.

 

 

CAP. IV

 
A EXPEDIÇÃO
 

 

Alice vestia calças de tipo "jeans"azul-marinho e um casaco que lhe deram uma aparência de guerreira ou soldado; mas por força do regulamento da estação e de sua própria ignorância, não portava as armas militares requisitadas pelo administrador. Buckley e Robinson, porém, faziam até lembrar Ripley, de tão bem armados. Hilário Coelho, aproveitando a sua condição de reservista, portava uma metralhadora eletrônica. Buckley chamara os chefes de segurança, Alan e Jefferson, formando um comando de caça. Buckley ajustou os comandos de seu canhão-laser portátil e de seu rifle de explosão e encarou a vidente:

— Estamos à sua espera.

— Pois bem. Vamos à Central de Refrigeração e dali vamos penetrar no sistema interno da estação.

Saíram para o corredor e foram caminhando a passo decidido, até chegarem a um elevador. Foi quando o Dr. Harrington apareceu correndo, ofegante:

— Vai se expor ao ridículo? Não vai encontrar nada aí dentro!

Robinson interferiu:

— Homem, você está extrapolando. Não manda nessa nave! Vamos, Buckley!

Quando Alice passou pelo médico, ele ainda verberou:

— É tudo culpa sua!

 

 

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O elevador parou no piso central do Mundo Negro, em frente a uma pracinha onde uns robôs vigiavam. Buckley aproximou-se com seu cartão, que passou nas fendas dos três robôs, que imediatamente abriram seus braços-porteiras. Buckley conduziu o grupo até a porta blindada que dava acesso ao Sistema Interior do Mundo Negro.

— Vamos lá.

Alice benzeu-se e seguiu no rabicho do grupo, com expressão concentrada.

Penetraram num mundo escuro e opresso, limitado por paredes claustrofóbicas que projetavam apêndices sufocantes e sombras depressivas, intermináveis. Tubulações hediondas acompanhavam as paredes e o teto cupular percorrendo corredores intestinais metálicos repletos de reatores e outros equipamentos ligados aos sistemas de refrigeração da espaçonave. A um sinal de Buckley, Alice colocou-se à frente do grupo.

— Sente alguma coisa? — indagou Buckley, tenso.

Alice parou, tapou os olhos com a mão esquerda e falou lentamente:

— Vejo uma coisa se esgueirando... entre fiações e circuitos... uma coisa escura e maligna... malignidade excessiva... como se transpirasse  pelos poros... a coisa está distante... e reúne forças para atacar de novo...

Ergueu o rosto, num átimo, abrindo os olhos...

— Sigam-me.

Caminharam rapidamente pelos corredores lúgubres, seus lampiões fotônicos de cotovelo projetando luzes movediças, claras, que entrechocavam com as luzes amarelentas do sistema. Alice caminhava com uma determinação impressionante, sem se preocupar em olhar para os lados, ao contrário de seus companheiros, que ostentavam esgares como os dos tripulantes da Nostromo. Alice prosseguia, penetrando cada vez mais no coração do sistema.

Os homens estavam cada vez mais nervosos. Robinson pegou o braço da moça:

— E agora?

— Vou tentar.

Fechando os olhos, Alice concentrou-se intensamente. Cobriu o rosto com as duas mãos. Arfou. Àquela luz estranha e híbrida, algo estranho foi visível: gotas inicialmente de suor comum, depois avermelhado, desceram de sua testa.

Jefferson, tendo observado o fenômeno, sussurrou a Buckley:

— Por efeito de uma grande angústia, pode ocorrer o suor de sangue... como houve com Jesus em Getsemani.

Alice voltou a falar com esforço e reticências:

— Ele já nos notou... aprontem-se, por favor... ele atacará. E nós temos que matá-lo. Não haverá possibilidade de acordo.

— E onde ele está? — perguntou Buckley.

— Eu não sei. Ele está usando seus poderes mentais para se ocultar.

— Então ele já sabe que nós o estamos caçando? — indagou Alan, perplexo.

— Não, Sr. Alan. Para ele nós é que somos a caça. Ele sabe que nós estamos dentro do sistema, só isso.

— Não, ele deve saber que nós queremos pegá-lo — argumentou Buckley.

— Saber ele sabe, mas não leva isso em conta. Ponha isso na cabeça: nós somos a caça, na cabeça dele. Aliás, a mentalidade destes seres é incompreensível para nós.

Alan comprimiu o gatilho travado de sua arma, pensando no encontro com a criatura. Um homem escuro, alto e magro, de senho fechado; era todo tensão e expectativa. Alice prosseguiu, ultrapassando umas serpentinas que partiam do chão em arcos sinuosos, provavelmente dutos de refrigeração. A jovem parecia em transe; começou a caminhar mais rapidamente, até chegar a uns degráus de pirita (material meteórico), que desceu num instante.

— Peguem suas armas!

 Parecia presa de grande excitação contida. Abriu uma porta de alumínio que dava para uma espécie de galpão ou depósito. No mesmo instante a bandeira de uma porta oposta, a dez metros de distância, foi arrombada e a criatura apareceu em todo o seu horror.

Alice fitou o horror, que flutuava no ar à sua frente, e declarou com grande frieza:

— Finalmente nos encontramos, mensageiro das trevas.

— Sim — respondeu o monstro com uma voz horrenda, um cicio hediondo e indescritível. — Finalmente nos encontramos, vidente.

 

 

CAP. V

 
FACE A FACE
 
 

Todos os outros entraram, completamente horrorizados no face-a-face com o Mal. Buckley posicionou sua principal arma e conclamou:

— Todos juntos!

— Não o farão — disse a voz, que parecia provir de algum medonho antro subterrâneo, de algum local oculto e esquecido pelos séculos.

Os cinco homens apontaram suas armas na direção da criatura. Flutuando como uma abelha, o monstro, do tamanho de um São Bernardo, parecia uma super-lagosta dotada de asas negro-avermelhadas com ossaturas e nervuras salientes, fazendo lembrar os apêndices alares dos antigos pterossauros ou pteranodontes. As pinças do bicho eram enormes e poderosas. A cor predominante era o marrom-escuro. O ser ostentava uma aparência ancestral, uma ancianidade anti-diluviana que desafiava a compreensão. Bem falara Alice sobre os Grandes Antigos.

Nesse momento a temperatura pareceu baixar novamente. Os presentes, porém, não puderam prestar muita atenção nisso. A presença do monstro era esmagadora, exorbitante. Ele flutuava a cinco metros do chão, seus olhos multifacetados encarando a todos os humanos.

Os disparos não vieram.

— Não o farão — repetiu o monstro. — Já interferi com os circuitos eletromagnéticos. Vocês não poderão acionar as suas armas.

— Quem é você? — gritou Buckley, tomado de cólera santa.

— Eu sou um dos Senhores do Espaço. Sou da raça que conheceu os Grandes Antigos em sua primitiva glória.

— E o que você pretende?

— Reabastecer minhas energias e retornar ao meu sistema.

— Você é um renegado — disse Alice, surpreendentemente. - Não existem  raças perversas. O que resta de sua raça encontra-se em alguma região distante da galáxia... e só os desgarrados, que vieram acompanhando Cthulhu e outros demônios, aparecem por esse braço. Você é um infeliz!

— Cale-se — grunhiu a criatura, num tom profundamente repulsivo. Você será a primeira a morrer, sensitiva.

                   De onde estava, a cinco metros do chão, o monstro voou rapidamente na direção da moça, estendendo pinças mortíferas. E Alice, sacando a pistola calibre 22, fez fogo... uma, duas, três, quatro vezes, à queima-roupa. E a criatura tombou a seus pés, pesadamente.

 

 

EPÍLOGO

 
ADVERTÊNCIA


 

— Todos nós lhe devemos a vida.— dizia Buckley, servindo-se de um "capuccino" quente. — Farei questão de condecorá-la.

—  Meu senhor, eu só fiz o que a consciência me ordenou... e o que Deus me permitiu.

—  Acredito —  interrompeu Robinson — que ninguém teria feito melhor do que você.

BUCKLEY — Temos agora a prova da existência dos seres mencionados no Necronomicon. Isto provocará uma revolução na Ciência.

                  —  Só espero.— disse Alice —  que sirva para alertar os nossos governos. Os Grandes Antigos um dia atacarão o nosso universo. E quando isso acontecer... não será a minha pistola que os deterá.

 

 

Comentários  

0 #1 Pensei que...Eduard 02-07-2006 05:54
Luzes de Alice fossem Lâmpadas pertencentes à Alice.
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0 #2 adoreiFrida Maria 04-07-2006 18:21
Gosto de ler e essa história prendeu minha atenção,me diverti bastante.
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