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Naquela sexta-feira eu estava um pouco além do meu horário, já passava das sete e meia da noite. Era começo de maio e chovia uma chuvinha fina e fria. Ia absorto, dirigindo pelo mesmo caminho que eu fazia já há uns cinco anos. Não prestava mais atenção na estrada e nem estava com pressa. Eu ia passar o fim de semana  sozinho em casa, minha mulher e o filho tinham viajado e só voltariam na semana seguinte.

Parei o carro no cruzamento da linha do trem. Um sino batia insistente. Esperei uma eternidade e nada de aparecer o trem e nem de o sino parar. Não havia vivalma por ali. Decidi cruzar a linha mesmo assim e seguir adiante. Desliguei o rádio, olhei cuidadosamente para um lado e para o outro e, não vendo nada, acelerei o carro e cruzei a linha. Nem bem havia acabado de passar os trilhos o trem passou em disparada. Tive a impressão que ele estava só esperando eu passar com sinal fechado para me pegar. Parei, com o coração quase saindo pela boca e respirei fundo. Abri a porta, saí do carro e olhei para o trem a tempo de ver seus últimos vagões sumindo no cinza escuro da chuvinha que caía. Não acreditei, esfreguei os olhos e olhei novamente. Ele seguia fazendo uma curva suave à esquerda. Impossível. Acontece que eu conheço muito bem aquele local e a curva é para a direita até sumir atrás da colina. À esquerda ficava uma antiga casa de fazenda, com o mato tomando conta e os  vestígios do que fora um curral. Parecia um sonho. Mas eu estava descansado e sem sono. Ainda podia ouvir o barulho das rodas do trem nas emendas dos trilhos sumindo na distância à minha esquerda.

Achei aquilo muito maluco, ainda com o coração palpitando, entrei no carro e segui para casa pensando se eu tinha mesmo visto aquilo. Cheguei logo depois em casa sem nenhum incidente.

Aquilo não me saia da cabeça, era tão real apesar de insólito. Eu estava cismado, olhando tudo com mais atenção como que esperando que acontecesse alguma outra coisa estranha. Aquele fim de semana seria longo. Tinha uma sensação de que algo desconfortável estava para acontecer, sentia um arrepio na espinha.

Servi-me de um uísque, coisa que faço raramente, e sentei no sofá para ver noticiário. Via as notícias mas não prestava atenção. A cena do trem não me saía da cabeça. Que coisa! Aquilo não podia ser verdade. Terminei meu uísque, tomei banho enfiei-me no pijama e voltei para a tv. Adormeci no sofá. Acordei de madrugada com o som de chuvisco do canal que acabara de sair do ar.  Fui para cama e continuei meu sono. Sono agitado apesar dos dois uísques. Sonhei estar tentando atravessar a linha e alguma coisa segurava o carro, eu olhava e via o trem chegando. Isso parecia repetir muitas vezes sem eu saber quando começava e como acabava. Acordei molhado de suor.
 
A noite demorou uma eternidade mas acabou. Era sete e meia da manhã, enevoada e fria, e eu já estava em pé preparando um café mais forte que o de costume. Peguei o jornal na porta, dei uma olhada na primeira página e o joguei em cima da mesa do café  e subi para me arrumar. Veio-me a imagem da primeira pagina do jornal. Cismei que havia nela algum problema de impressão. Alguma coisa não estava certo.
 
Tentei mudar o pensamento mas não consegui. Desci e fui checar o jornal. Olhei atentamente, li algumas manchetes, parecia normal. Mas aquele sentimento de  estranheza me perseguia.
 
Entrei no carro, dei a partida e saí de ré. Esbarrei o retrovisor no portão, quase quebrou. Saí na rua em uma posição muito diferente da que saio todos os dias. Eu tinha feito uma manobra para o lado errado. Apesar de sentir estranho, não liguei. Eu estava ficando obcecado. Ignorei e segui em direção à estada que eu passara na véspera. Fui pensando no jornal. Tinha que haver alguma coisa errada nele. Cheguei ao cruzamento de nível, na linha do trem. Parei o carro no acostamento  e desci. Andei de um lado para o outro, estava tudo normal a não ser umas manchas esquisitas na região dos  trilhos. Começavam no cruzamento e iam sumindo até desaparecer  por completo a uns cem metros.

Passou um trem e seguiu o seu caminho normal. Fazendo a curva para a direita.

Voltei para casa decidido a esquecer aquilo e pensando no que fazer naquele sábado frio e chuvoso. Peguei o jornal e fui para o sofá da sala de tv. Li o primeiro caderno, pulei o caderno de notícias locais e fui direto ao caderno de variedades. Foi olhando os cartazes dos filmes que percebi o que estava errado.
O cartaz do Blade Runner, que estava passando em um cine-clube local, estava invertido.
Eu o conheço muito bem, há um pôster dele na parede do quarto do meu filho. Prestei atenção, todos estavam invertidos. Voltei ao primeiro caderno. Tudo estava escrito como se eu tivesse olhando através de um espelho. Talvez um caminho errado nas rotativas? Pouco provável. Mais estranho ainda era o fato de eu conseguir ler tudo naturalmente. Peguei o caderno de cidades, logo na primeira página, havia a notícia de um acidente na via férrea que ocorrera no início da noite anterior. O trem pegara um carro que estava parado sobre os
trilhos e o arrastou por cem metros. No carro só havia o motorista que morreu no local.

Comentários  

0 #1 EduardVisitante 04-04-2006 09:21
Meu caro Rene G. Santana, já ví muitos erros de português na rede, mas "estavam viajandos" foi o FIM!!!

Garibaldo Retruca: É preciso saber diferenciar erros de português de erros de digitação. Só de ler o restante do texto, nota-se que foi um erro de digitação.
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0 #2 Dudu,Visitante 04-04-2006 09:21
Fraco, muito fraco! :zzz
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0 #3 Parabénsalf.pjr 04-04-2006 09:22
Você é muito bom contador de contos, gostei do seu estilo.

Saudações

Alfredo Peracetta Jr
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0 #4 DaniVisitante 04-04-2006 21:01
Você é muito bom, parabens! :-)
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0 #5 Visitante 05-04-2006 14:55
to com meda ass:Bruno :cry:
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0 #6 fatyVisitante 05-04-2006 14:56
Boa sua historia,contin ue... ;-) Dudu ta' com dor de cotovelo...
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0 #7 NARAVisitante 12-04-2006 17:42
:eek: MUITO LEGAL DEMAIS DA CONTA
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0 #8 ninhaVisitante 19-04-2006 09:38
Um aestória que parece mesmo real, talvez tenhamos casos assim na realidade, certas pessoas tem premunições; Existem anjos do além que vem nos salvar. Com certeza ele previu a morte de outa pessoa e comparou com o que estava acontecendo com ele naquela noite.Você é um cara que tem uma imaginação muito fértil, gostei. Também adoro escrever, mas não estórias estronhas. Errar na hora da escrita? Quem não erra que atire a primeira pedra.
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0 #9 Visitante 19-04-2006 16:18
;-) gostei do seu estilomuito loooooooooco.
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