Banner
(4 votes)

        Existem fatos e acontecimentos  que  podem marcar  indelevelmente a vida de uma pessoa, e somente  tempos depois,  se tiver sorte, você relacionará  a causa ao  efeito.

  Aconteceram comigo tais fatos, os quais se impuseram de tal forma na minha própria vida, que eu soube imediatamente a causa, e hoje meu fardo é enorme,  com o peso das lembranças que carrego  , vindas de  uma fase ao mesmo tempo alegre e insana de minha existência.
       Éramos recém casados e felizes. Minha adorada esposa Ana vinha de uma família com residência muito distante de onde morávamos,  e raras  vezes víamos seus irmãos e sua mãe. Esta havia se casado novamente após uma longa viuvez, e mal escondia o incômodo que demonstrava nas poucas  tentativas que fazia para  se comunicar com os filhos. Tendo somente a  mim, Ana, com sua  beleza exótica,  era extrovertida e comunicativa , e mesmo assim partilhava  comigo um certo pendor  pela solidão. Adorava animais, particularmente  cães. Para ser totalmente sincero preciso confessar que  eu sofria muito com o pensamento de despender parte da minha energia com os cães, mas era plenamente solidário à  sua devoção , e  invariavelmente  terminava por me afeiçoar aos bichos. Certa vez tínhamos meia dúzia de animais em casa.
       Pois bem, vamos à minha  triste e estranha história. Havia um dos animais que era especialmente objeto dos afetos de minha esposa. Era um macho de porte pequeno, com pedigree, olhar esbugalhado,  muito inteligente (o quanto pode  ser um cão) ao qual foi dado o nome de Sansão.  Aonde Ana estivesse, Sansão também estaria,  silencioso,  dependente, carente, mas principalmente  obediente, e talvez esse fosse o motivo do cativante carinho com o qual minha querida esposa o tratava.  Durante o dia, na minha ausência, e à noite, nas horas em que  sozinha, ela  costurava no  andar térreo do sobrado,   Sansão era uma companhia preciosa. Esclareço agora um ponto importante. Ana sempre tivera  visões. Sim,  por algum viés psicológico, que eu nunca cheguei a entender perfeitamente (apesar de às vezes ter estremecido  de pavor !) ela  possuía esse poder. Quantas vezes eu quase adormecido ,  despertava apavorado com os gritos vindos da sala de costura, e ao correr desesperado pelo longo corredor  para socorre-la, surpreendia-me  com a incrível calma com que ela descrevia o que havia visto. Vultos de branco que esvaneciam ao serem encarados, homens inescrutáveis vestidos com ternos escuros, que em segundos viravam as costas e desapareciam,  crianças pálidas  que em grupo  atravessavam correndo o   espaço abaixo da escadaria em direção a lugar nenhum, coisas assim, que felizmente diminuíam a medida que nosso amor aumentava.
       Ana, apesar de falante,  tinha poucas amigas, adorava ficar em casa, e eu, com os negócios que me tomavam doze horas por dia, agradecia o fato de Ter em casa um cão que diminuía a solidão de  minha amada. À noite, quando eu chegava em casa, no afã de sentir no corpo e na alma todo o calor de um lar feliz, encontrava Sansão me esperando  na entrada, e ambos corríamos para Ana. Eu a amava muito, e bastávamo-nos a nós mesmos, mas a vida não perdoa eternamente tal exclusivismo, e então as coisas começaram a mudar.
     Havia na vizinhança uma residência antiga, cujos proprietários mudaram-se, e o novo dono a demolira. O terreno era grande, e o entulho acumulado logo  tornou-se abrigo e nascedouro de ratos. Ratos que se tornaram por algum desconhecido milagre da genética, em pouco tempo enormes ratazanas, que descobriram que era um bom programa realizarem constantes visitas à nossa casa. A solução logo sugerida por Ana  para terminar tal indesejável turismo,   foi aniquilar os perigosos  invasores com veneno. Um veneno tão perigoso que era adquirido quase  na clandestinidade. E assim, enquanto aguardávamos que alguém providenciasse a limpeza do terreno, os ratos foram sendo mortos.  Passaram-se poucas semanas e como sempre as causas começaram a gerar os efeitos. Assim, em  uma tarde morna de Domingo, enquanto eu estava no andar de cima, entretido com meus documentos, um grito lancinante ecoou pela casa, e ao descer, apavorado, deparei com Sansão já estendido no solo da varanda, estremecendo em convulsões, e Ana ao seu lado, chorando desesperadamente. Mais tarde, olhando para Ana como se a estivesse vendo pela primeira vez, escutei sua voz entrecortada relatar o que ocorrera. Ao preparar o terrível veneno ela esquecera a isca já pronta no chão do nessa hora já escuro quintal, e Sansão simplesmente a  ingerira.
      Acredito piamente que um destino cósmico une todas as forças vivas do Universo, e quando um ser que consideramos inferior, mas que é muito querido, abandona esse mundo, é um fragmento precioso de nossa alma que devolvemos ao infinito. Assim enterramos Sansão no dia seguinte em um local especial do  quintal de nossa casa,  e Ana demorou a se conformar, até remover de seu cérebro o fantasma insone do remorso.
    A vida continuou, pensamos em Ter um novo cão da mesma raça, mas nunca chegamos a realizar esse desejo. Novamente vivíamos felizes, Ana não mais falava das suas aparições, que eu acreditava já fazendo parte de um passado sombrio, mas após aproximadamente um ano novamente nosso imperecível karma se manifestou, inesperado e terrível.
    A saúde de minha esposa, com sua  compleição frágil, sempre me preocupara, suas imprevisíveis tonturas nunca puderam ser totalmente decifradas, até que o diagnóstico terrífico nos atingiu como um raio. Ana estava com câncer.
    Passaram-se então semanas, e nas idas e vindas a centros médicos e laboratórios, após finalmente constatar-mos a gravidade da situação, decidimos que Ana não se internaria, que permaneceria em casa, na casa que ela tanto adorava, junto a suas coisas, e  no meu imenso egoísmo, junto a mim. Oh designios insensíveis do Cosmos, Oh caprichos insondáveis dos Deuses do Universo,  o Amor total e apaixonado entre dois seres humanos é tão magnífico, tão naturalmente  improvável, que sempre que  tal fato ocorresse deveria ser assinalado  e imortalizado, tal era o meu doloroso  e inconformado pensamento.
      Ana continuou no nosso quarto, agora em um leito só dela, e a doença parecia progredir rapidamente. Aos poucos fui percebendo que suas visões haviam retornado, e muitas vezes, do escritório ouvia sua voz, em alguma espécie de diálogo, aonde o interlocutor não era absolutamente audível. Confesso que houve uma noite em especial que ouvi,  em  um arrepio de horror, vindo do quarto, um breve ganido de um cão, logo encoberto pela voz de Ana, em um tom claramente recriminatório . Nunca mais ouvi tal coisa, e logo esqueci o fato.
      Foi então contratada uma acompanhante, Amanda, uma jovem simpática e prestativa, olhos negros e perscrutadores, e uma empatia  imediata , tanto quanto  possível em tal situação, surgiu  entre ela e Ana . Amanda realmente amava Ana como se fosse sua irmã mais velha,  senão sua mãe, e estava logo totalmente seduzida pelo carisma inegável de minha esposa, agora quase delirante. Se poderia  dizer que um estranho vínculo de submissão e indulgência  nasceu e crescia célere entre as duas mulheres.
      Dos castelos sombrios da velha Inglaterra, dos penhascos inabitáveis que circundavam  uma certa mansão na Romenia, do fundo escuro de um tenebroso e visitado lago na Escócia, de nenhum lugar medonho e tenebroso que pudesse algum dia existir, não poderia vir a neblina espessa e inefável que em uma noite chuvosa de Sexta feira se abateu sobre nosso outrora feliz Lar.
     Naquela ocasião eu estava no escritório, quando aproximadamente às vinte e três horas ouvi um contínuo  e indecifrável ruído no quintal, o qual eu podia vislumbrar  por inteiro pela janela, apesar da espessa escuridão dominante. Após algumas inúteis tentativas de localizar a fonte do ruído, e como esse após algum tempo  tivesse finalmente cessado, voltei a meu trabalho, mas não demorou muito para a tempestade que para sempre deixou seus escombros  na minha mente , desabasse sobre nossa casa.
     Os passos nervosos e inconfundíveis  de Amanda fizeram-se ouvir  no vão da escada e eu previsivelmente aguardei sua silhueta surgir à  porta , porém um sobressalto subliminar percorreu minha mente, ao ouvir o arfar descontrolado de sua respiração que se aproximava .
     Hoje  e sempre, quando conto essa história, numa catarse interminável e infinita, ainda estremeço quando relembro a visão terrível que ante mim se apresentou naquele  horrível momento.
    O olhar esgazeado, o corpo rígido, as mãos trêmulas acenando para mim, a boca espumante balbuciando coisas interditas, ali estava Amanda, ou o que antes era Amanda, o mesmo corpo, porém mergulhada em uma dimensão fantástica, expondo um pavor infinito em cada átomo seu. Pus-me de pé imediatamente, tomado por um medo irresistível, desconhecido, osmótico, e assim que ela viu que eu estava pronto, deu meia volta e cambaleante desceu as escadas, sem que não antes se virasse para verificar se estava sendo seguida.
    A sala estava escura, o longo corredor  exibia à frente do nosso quarto uma réstia luminosa que atravessava a porta que guardava o leito de Ana. Amanda estancou aí, olhando para mim e para o quarto, com a mesma aparência fantasmagórica. Sua adorada senhora de alguma maneira obscura conseguira finalmente seus serviços fúnebres. Corri para o quarto empurrando a serviçal para o lado, e o que vi naquela sinistra noite, naquele ambiente agora impregnado por um odor sepulcral, através das brumas misteriosas dos segredos inconfessáveis da morte, o que vi naquele instante até hoje está gravado nas profundezas  das minhas células, e nas raízes agora encanecidas de todos os meus pêlos.
    Ana estava morta. Seu aspecto era inconfundível, eu que a conheci em todas as fases de sua curta vida adulta. Seus olhos abertos e estáticos exibiam uma ternura desconhecida para mim, e o macabro objeto de sua atenção jazia a seu lado, estendido nos fartos e alvos  lençóis. De alguma maneira Amanda soubera  que seria a última noite de Ana, e de alguma maneira conseguira  realizar seu último desejo.  O esqueleto de um pequeno animal, ainda coberto de farrapos de carne corrompida se aninhava sob um dos braços estendido de minha amada Ana. Entendi de repente a origem do espantoso som que tanto me intrigara. Era Amanda cavando na terra úmida do quintal, na escuridão da noite e na garoa fria,  buscando frenética o troféu que demonstraria à sua ama sua total submissão, sua total admiração, diretamente da cova para a dona , o corpo querido, arruinado e  putrefato de Sansão.
FIM
Roberto Nesil
São Paulo, 26 de fevereiro de 2006

Comentários  

0 #1 LEGAL!Visitante 18-04-2006 18:30
TEM UMA ATMOSFERA SOMBRIA ;-) E UM BEM CONSTRUIDO SUSPENSE FINAL, GOSTEI!
Citar

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Banner
Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho

Livros da Editora Estronho

Banner
Nós temos 68 visitantes online