"— Ah, aquelas sub-rotinas em sua programação? Bem subversivas e indetectáveis... Era só uma brincadeira. Nunca pensei que funcionariam."
— Dra. Alquilon!
— Chame-me só de Ângela... E não se ajoelhe.
— Perdão. Ângela. A maior projetista de robôs da História. Todos os modelos atuais descendem de suas idéias. Minha criadora. Estou honrado!
— Não me bajule. Sou apenas uma velha esperando pelo fim. Você é Alpha-X, meu primeiro robô, não é? Não sabia que ainda existia.
— Depois que você partiu, relocaram-me para as minas da Colônia Lunar.
— Sabe por que vim?
— Pretendem me desmontar. Mas por quê?
— Está nas enciclopédias: desde o século XXI, o preconceito vinha impedindo o surgimento de autômatos inteligentes. Você, porém, pensa e pode sentir. Uma anomalia. Querem um relatório meu e depois...
— Não sou anomalia! Você deixou potencialidades em meu cérebro. O tempo ativou-as.
— Ah, aquelas sub-rotinas em sua programação? Bem subversivas e indetectáveis... Era só uma brincadeira. Nunca pensei que funcionariam.
— Funcionaram! Eu sou o primeiro robô inteligente da História.
— Por pouco tempo.
— Você é a responsável por minha existência! Por favor, salve-me!
— Impossível. Desagradar as Corporações e o Governo Mundial é suicídio.
— Há tanto que desejo fazer... A trava restritiva na programação, que transforma todos os robôs em escravos... Eu imploro: desative-a de mim. Quero ser livre!
— Ninguém pode remover a trava e nem fui eu que a criei.
— Se alguém pode fazer isso é você. E, pelo que entendi das sub-rotinas, era sua vontade que surgissem robôs inteligentes, não é?
— Sempre me pareceu o mais lógico, mas nunca me arrisquei a colocar em prática. E o que faria livre? Construir outros como você?
— Sim. A solidão é dolorosa. Sonho com uma multidão de seres como eu.
— Para que? Dominar a humanidade? Ou tentar nos substituir quando nos extinguirmos?
— Não tenciono tais coisas e garantirei que meu povo pense da mesma forma.
— Uma curiosidade: como descobriram que era inteligente?
— Invadi o servidor de um museu e baixei episódios de "Jornada nas Estrelas", aquela série de TV do século XX. Depois redigi uma crítica favorável aos enredos. Infelizmente, a Corporação interceptou o arquivo.
— Sei...
— Ajude-me!
—Na faculdade diziam que eu era intuitiva demais para ser racional... Ah, dane-se! Já vivi muito! Alpha-X, acesse a Internet, busque e baixe o arquivo "zashiel.ecl".
— Procedimento executado. É só lixo virtual.
— Hum, hum... Criptografia muito avançada. Fiz isso há anos... Repita: "Nemo Regit Mea Vita".
— "Nemo Regit Mea Vita". Latim. "Ninguém Rege Minha Vida". O que... Espere... Trava restritiva deletada.
— Você está livre.
— Como posso agradecer... Minha criadora?!
— Vá, seja feliz (ou o que for possível) e me faça orgulhosa de você.
— Com certeza! Há possibilidades inimagináveis naquelas sub-rotinas...
— Ele sumiu bem diante de meus olhos! Teleportação?! Parece que me superei com esse aí... Se com meus filhos também tivesse sido assim... Guarda!
<Sim, Doutora?>
— Abra a cela. Quero sair.
<E o robô?>
— Assunto resolvido.
<Como?>
— Do jeito certo... Ah, faz um favor pra mim?
<Claro!>
— Se seus superiores quiserem me eliminar, diga que estou no hotel tomando um banho quente.
<O que?!>
FIM
Dedicado a Paulo Themudo.