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Numa rua afastada do centro da cidade, Ana e Carolina caminhavam apressadamente pela beira da estrada. Era uma rua com umas poucas casas que surgiam em média a algumas centenas de metros umas das outras. Estavam assustadas pelo comentário que circulou durante o dia. Sabiam que havia uma onça solta por aí. Era o que todos falavam. Acabavam de sair da casa de uma colega onde fizeram um trabalho em equipe que seria entregue na segunda-feira. Elas cursavam a 6ª série do primeiro grau e tinham 12 anos de idade. Enquanto caminhavam, riam e conversavam sobre seus segredinhos de meninas com bastante descontração.

As duas chegaram em frente à casa de Ana e se despediram rapidamente. Carolina continuou sozinha. Era loira e usava uma fita no cabelo estilo rabo de cavalo, muito comum nos anos 60. Abraçava fortemente alguns livros e pastas contra o peito, e caminhava sem olhar para os lados. Não ousava mais dar um pio sequer. Tinha receio de que se virasse a cabeça, a qualquer momento poderia ver a onça a sua espreita ou um monstro qualquer. Estava chegando perto de sua casa, calculava que faltava mais ou menos um quilômetro. Mas esse trecho era o mais sombrio. Uma alameda flanqueada por frondosas árvores e sem nenhuma alma viva que morasse por perto. Um estreito caminho permanecia iluminado pela lua no meio da estrada. Vez ou outra arriscava olhar pra lua no alto à sua frente. A noite estava mais fria do que de costume. Aí ela parou subitamente porque alguma coisa estava errada. Os sons do mato a que estava acostumada a ouvir durante a noite cessaram. Tudo ficou quieto. Era um silêncio sufocante. Sentiu um arrepio e então voltou a caminhar, desta vez mais depressa. Uma suave brisa soprou sobre as copas das árvores quebrando o silêncio opressor. Aquele som a deixou mais calma. Tentava enganar sua mente, como se o barulho e o vento lhe fizessem companhia. Também assim, o som de seus passos seria abafado caso alguém estivesse a sua espera. Seu coração quase parou quando ouviu o som de um galho sendo partido. Ela olhou a sua esquerda e não viu nada. Talvez fosse um galho podre caindo ao chão. Outro galho partido. Parecia mais perto agora. E então ela quase desmaiou ao ouvir um rosnado cavernoso. Ela começa a correr já com lágrimas no seu rostinho. Sempre tinha pesadelos de que algo a perseguia pelo mato. Mas agora era real. Enquanto corria escutava alguma coisa correndo ao seu lado dentro da mata. Ela deu um berro chamando pelo pai, mas o som foi abafado por uma forte lufada de vento sobre a vegetação. Estou quase na metade do caminho, pensava. Eu vou conseguir. Olhou pro lado e viu uma sombra dar grandes saltos no meio da mata, quando a luz da lua penetrava entre as árvores. Mais um grito, suas pernas estavam doendo, nunca correra tanto em sua vida. Agora ela ouve um rosnado mais alto. Ela gritava tanto que sua garganta doía, seus berros desesperados ainda não podiam ser ouvidos. Chamava em vão pelo nome de seu amado pai. A coisa saíra do mato e estava bem atrás dela! Um uivo medonho encheu a noite quando o grande cão do inferno saltou sobre a indefesa criança derrubando-a ao chão. O peso do animal fez com que ela quebrasse a coluna e algumas costelas. Praticamente não chegou a sentir muita dor, em um golpe rápido o lobisomem arrancou-lhe a cabeça com suas poderosas garras. Ela nem teve tempo de dar um último grito.

Depois de retalhar-lhe o peito e comer o coração, a criatura ficou mais calma. Agora poderia devorar outras partes do corpo sem pressa. Enquanto a besta saciava sua sede de sangue, teve a certeza de que o gosto humano era muito melhor do que outros animais. Essa vitima era especial. Carne macia e suculenta. Saboreava cada pedaço. Mastigou-a com muito prazer sob os dentes. O sangue lhe escorria pelos cantos da boca, e cada parte que triturava com a mandíbula engolia com satisfação. Sentia até os pedaços chegarem ao seu estômago. As dores latejantes de quando estava de barriga vazia sumiram. Uma suave sensação de relaxamento percorreu-lhe o corpo. Deu uma boa cheirada nos restos da menina e algo veio em sua mente. Na noite anterior alguém lhe havia dado um tiro. Pode lembrar da bala que passara zunindo sob sua cabeça e lhe furara uma das orelhas. Sentiu-se humilhado. Não deixaria barato. Teria que voltar lá e passar as coisas a limpo. Agora não tinha mais pressa, seu apetite por carne estava saciado. O único desejo agora era a vontade de matar. Apenas matar. Caminhou calmamente em direção a mata, mas sem antes se voltar, e dar uma olhada em sua amiga, a lua. E outro uivo horrendo correu em todas as direções. Lá adiante, uma luz acendia numa casa e alguém aparece à porta.

Os Silveira já haviam se deitado, mas ainda estavam acordados. Amaram-se momentos antes e falavam agora sobre seus sonhos futuros. Levaram um susto ao ouvirem uma grande algazarra novamente no galinheiro.

- Eu sabia que ele voltaria - disse Carlos. - Mas dessa vez ele não escapará. - Tome cuidado amor. - É só um cachorro vagabundo. Não se preocupe. Ele levantou-se e pegou um velho 38 enferrujado que pedira emprestado a um amigo naquela mesma tarde, e verificou mais uma vez se estava carregado.

Vestiu-se, calçou tênis, armou-se da arma e saiu. Notou que o barulho no galinheiro havia terminado quando abrira a porta da cozinha. Engatilhou a arma e passou pelo mesmo lugar na noite anterior. Mas não parecia haver nada de errado no cercado das galinhas. Chegou mais perto e viu que a cerca estava destruída no mesmo ponto da outra vez. Olhou dentro do cercado e chocou-se ao ver todas as galinhas mortas! O chão estava completamente coberto de penas e pedaços de frango. Sob a luz da lua tinha-se a impressão de que alguém cobriu o chão com um tapete branco de penas e esparramou tinta vermelha pra todos os lados. Ficou com tanta raiva daquilo, que não se deu conta que apertou o gatilho e a arma disparou. Ficou quase surdo com o estouro sem falar no susto. Por sorte o disparo foi no chão perto de seu pé.

- Carlos! - gritou a mulher.
- Não foi nada, a arma disparou por acidente.

O bicho tinha ido embora de novo. Viu que sua mulher estava lhe esperando na porta da cozinha. Ficou paralisado de horror ao ver um grande vulto surgir ao lado da casa e pular sobre sua mulher. Ela só pode dar um pequeno grito de susto e já estava morta antes mesmo de seu corpo tocar o solo. Quando o grande lobo pulara sobre ela, ele esmigalhou seu pescoço com uma só mordida. E ele continuou ali parado vendo sua amada ser cruelmente morta. Sob a luz da cozinha ele viu a criatura por inteiro. Com pelos castanhos compridos e grossos, tinha os quadris e pernas traseiras mais altas do que sua dianteira. Na frente, seus braços eram mais curtos e fortes assim como um tórax bem largo. A cabeça tinha um focinho estranhamente curto, que terminava numa grande boca. Os dentes pareciam pequenos punhais enfileirados. Então aqueles olhos verdes encontraram-se de novo com os de Carlos. Mas dessa vez a criatura não fugiria. Começou em vir em sua direção lentamente. Carlos largou a arma e saiu correndo. Estava dando a volta ao lado do rancho, quando olhou, virou-se para ver seu perseguidor, mas não viu nada. No momento que voltou a olhar pra frente viu que o grande lobo estava à sua espera. Ele tinha dado a volta pelo outro lado! Carlos nem teve tempo de pensar em mudar de direção quando o lupino saltou sobre ele. Com uma força descomunal abriu-lhe o peito com suas patas dianteiras, abocanhou o coração e o engoliu de uma só vez. No alto, a lua assistia a tudo em sua costumeira imparcialidade. O monstro olhou o céu e deu outro um uivo ensurdecedor. Agora a besta estava realmente satisfeita.

Roger é acordado pelo som estridente da campainha do telefone. Do outro lado da linha o delegado exige sua presença imediata na delegacia. Ele perguntou qual o motivo de tanta pressa e Teixeira apenas disse:

- A coisa voltou a matar!

Aquilo fez com que ele despertasse de vez de sua sonolência, dormira muito mal, tivera sonhos horríveis sobre lobisomens. No sonho ele se via como um deles atacando e perseguindo qualquer um que atravessasse seu caminho. Sua esposa tinha um sono muito profundo para que seus pesadelos a perturbassem. Despertada pelo telefone, ela já se levantara e estava lhe esquentando uma xícara de café.

- Hoje não dá tempo, tchau. - saiu sem ver que ela esperava um beijo de despedida, coisa que sempre fazia.

A caminho do pequeno centro da cidade viu que as coisas não estavam nada bem. Grupos de pessoas conversavam preocupadas nas esquinas, calçadas, em frente a lojas e nos portões das casas. Chegava-se ao cúmulo de motoristas pararem os carros no meio da rua para conversarem. Roger teve o caminho impedido por dois destes motoristas que lhe fechavam o caminho.

- Por favor, podem dar licença?
- Vá se ferrar!

Ficou surpreso com a resposta, estava a ponto de descer do carro e tirar satisfações pela falta de respeito a uma autoridade policial quando viu que nada adiantaria, só pioraria a situação. Aquele alvoroço deveria ter uma explicação. Virou o volante e acelerou a Veraneio por cima da calçada, dando buzinadas vez ou outra para que saíssem da frente enquanto atravessava a praça central da cidade.

Quando chegou, viu o delegado conversando com algumas pessoas mal humoradas em frente da DP.

- Escutem, vão para suas casas que nós vamos cuidar de tudo.
- Assim como vocês cuidaram da pobre Carolina e dos Silveira? - vociferou um deles.
- Ei meu amigo, calma lá! Se pudéssemos adivinhar as coisas o mundo seria um paraíso.
- Mas alguém tem que agir antes que a onça volte -disse outro.
- Onça? Mas o Carlos Silveira disse que era um cachorro grande - gritou um que estava mais ao fundo.
- Olhem aqui senhores, se foi uma onça, um cachorro ou um peixinho dourado, isso não interessa! Vocês não podem sair armados atirando em qualquer coisa que se mexa no mato. Vão acabar dando tiros uns nos outros.

Um homem calvo e bem vestido se aproxima, pega o delegado pelo braço e diz em tom ameaçador:

- Escuta aqui Teixeira, eu sou o prefeito e esta cidade está sob minha responsabilidade. Como é que vocês dois vão dar conta de olhar atrás de cada árvore nessa mata toda para achar aquele desgraçado!? Eu vou pessoalmente organizar os grupos de busca com o pessoal daqui e vou telefonar pro governador que é meu amigo pra pedir mais ajuda. E você não vai ficar no nosso caminho nem vai ligar para outras delegacias. Não quero que essa cidade vire manchete no país. Entendeu? Você entendeu bem?

Roger assistiu a tudo sem abrir a boca, pois sabia quando era hora de ficar quieto. Viu que seu amigo estava sem saída. O rosto do delegado expressava toda sua impotência perante a situação.

- Tudo bem Sr. Prefeito, peço então que me deixe organizar os grupos de busca.
- Está bem, sabia que podia contar contigo. Mãos à obra! - disse o prefeito dando-lhe um tapinha nas costas.

Roger perguntou o que estava acontecendo e o delegado contara tudo. Falou dos restos da menina encontrados pelo próprio pai que saíra aflito para procurá-la depois de ter ouvido uivos estranhos. Não deixaram nem a mãe ver o corpo imaginando que ela poderia ter um colapso. Falara também dos corpos dos Silveira que foram encontrados pelo leiteiro, e que o pobre rapaz devia estar vomitando até agora. Tiveram que ajuntar os restos dos dois com uma pá.

Roger deixou uma lágrima correr no rosto quando ouviu sobre a menina. Então deu um suspiro forte, como que para recuperar o fôlego e pediu para os dois se afastarem um pouco dos outros porque queria lhe falar.

- Gerson, você vai me chamar de maluco novamente, mas eu acho que estamos lidando com alguma coisa do outro mundo!

- Não me diga que você realmente está acreditando que é um lobisomem.
- Eu tenho quase certeza. Tenho uma boa literatura a respeito lá em casa e posso afirmar o que estou dizendo.
- Você lê e assiste Arquivos X demais.
- Não. Essas histórias sobre lobisomens são fatos históricos registrados desde a antiguidade e testemunhados por pessoas fidedignas e idôneas.

Roger começou a falar sobre uns casos em tempos antigos quando Gerson o interrompeu.
- Não temos tempo pra isso agora, nós vamos caçar o maldito e quando o pegarmos veremos o que realmente é. E se for um lobisomem, eu vou começar a ler todos os seus livros, caso contrário, você não lerá mais aquelas porcarias na minha frente.
- Certo delegado. Mas posso te pedir uma coisa Gerson?
- Claro.
- Preciso que me dê folga de algumas horas para poder levar minha esposa pra cidade vizinha, porque isso aqui vai sair fora do controle!
- Tudo bem, se você não pedisse eu mandaria você levá-la daqui.
- Obrigado.

Roger notou uma tristeza profunda no olhar do colega. Ele despediu-se com um sorriso amarelo e caminhou cabisbaixo para a pequena multidão que já se havia formado. Pela primeira vez sentiu pena do amigo.

Enquanto Gerson se encarregava dos preparativos para as buscas, Roger foi pra casa arrumar a mala com a mulher e leva-la pra cidade vizinha na casa da irmã.

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Comentários  

0 #1 monny 29-04-2005 13:12
Caramba aterrorizantemu ita coragem a sua detalhar a morte de uma menininha :cry: :eek:
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Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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