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Foi assim que morri. A princípio não queria retornar, pois certamente me perguntariam como foi que acabei passando desta para melhor. Devo ser franco: até hoje não consigo admitir que morri daquele jeito estúpido. A pior forma de morrer é aquela onde se entende tudo errado e não se pode voltar atrás para explicar o que aconteceu...

Era uma noite de filme classe B de terror. Chuva, relâmpagos, trovões e árvores de papelão caindo pelo cenário ao meu redor. Lá em cima, meu amigo Arnaldo caminhava sobre uma plataforma segurando um fio de nylon. Na ponta, flutuando no céu, uma miniatura de avião para compor aquela tomada. Minha função era ficar agitando umas chapas de raio X, num canto da sala, de forma a simular o som dos trovões. Até que não foi tão ruim, pois lembro que coube ao Aderbal a tarefa de levar um microfone e ficar embaixo do chuveiro, aberto a toda força, de forma a gravar o som da tempestade surrando o solo. Coisas de produções baratas. E aquela era uma delas.

O elenco era todo amador. Amigos, que um dia se reuniram para fazer algo mais que um filme caseiro. Seria uma superprodução, rodada em câmera de vídeo, com roteiro consistente e efeitos criativos. Eu mesmo participei do desenvolvimento do roteiro. Simplificando: durante uma noite chuvosa de filme classe B de terror, águas-vivas transgênicas se erguem para dominar o mundo. Pouco a pouco as cidades sucumbem à força destas terríveis criaturas, que crescem à medida que se alimentam da estupidez humana. Paris, Londres, Washington... Todas as cidades com monumentos que facilmente podem ser encontrados em maquetes de plástico seriam arrasadas (as águas vivas eram representadas por grandes bolas de silicone que obtivemos de um consultório de cirurgia plástica). Em um dado momento, a líder das águas-vivas se apaixona pela loira peituda histérica que não sabe representar. Percebendo a oportunidade, o herói, um certo P.J.Morgan, utiliza a loira peituda histérica que não sabe representar como isca para atrair a água-viva líder para uma armadilha. E é assim que chegamos à cena fatal, quando perdi minha vida.

Deixei de lado a chapa de raio X na hora da minha deixa. Eu era o P.J. Morgan, misterioso herói de passado desconhecido, que surge sem qualquer motivo, razão ou circunstância, mas que mancava. Não me perguntem o porquê, sempre achei que em filme de terror alguém devesse andar puxando uma perna. Como seria contraproducente que a loira peituda histérica mancasse (existe um certo quê de bom senso que seria perdido com isso) e águas-vivas não têm pernas, decidi eu mesmo fazer este sacrifício. A cena se passava na tal noite escura chuvosa de filme classe B de terror. Aliás, toda a trama acontecia à noite, o que me faz pensar que existia, de fato, um furo no roteiro: onde as águas-vivas gigantes passariam o dia sem serem reconhecidas? Claro, no mar!. Deveria haver uma cena com uma água-viva gigante se erguendo diante do porto principal da cidade, o que seria visto como uma referência aos seriados japoneses de antigamente. Como não havia pensado nisto antes! Agora, ficou faltando esta cena! Droga...Tarde demais para corrigir...

Lembrar da cena desta trágica morte, não é algo fácil para mim. Por economia, o elenco era composto por Aderbal, Arnaldo e eu. O primeiro fazia o papel da loirinha, com bastante enchimento para simular os fartos seios. O difícil foi disfarçar a barba que teimava em crescer rapidamente. E olha que o Aderbal fazia a barba todos os dias, de manhã cedo. Porém, muitas vezes não adiantava muito: Aderbal chegava à noite para as filmagens com pequenos pontos negros iniciando a ocupação da face. O pomo de Adão até que foi fácil, enfiamos o Aderbal numa blusa de gola rolê, que acabou disfarçando bem este detalhe. O problema é que, após salvar a mocinha, eu deveria beijá-la...

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Alguns crimes inusitados constam do novo livro do jornalista policial Antenor Neto, "Comicamente Trágico", que vem ocupando o primeiro lugar de vendas do mês. Como por exemplo o da mulher que assassinou o marido após ser flagrado com um travesti, tudo documentado por uma câmera de vídeo de um cinegrafista amador.

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O filme "A Loira Fatal" já levou aos cinemas mais de dois milhões de espectadores em três finais de semana. "A Loira Fatal" se trata da grande surpresa da temporada, realizado com orçamento modestíssimo.

Já existe a previsão de uma continuação para o filme...

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Comentários  

0 #1 RE: Cinema Trágicoelias 04-03-2011 02:55
kkkkk,cômico e trágico,está de parabéns!!!
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