Agora, porém, detém-se em sintonizar o knob em uma estação FM indistinta. É quando ouve o tiro. No momento em que Henrique afunda o pé no freio, seu caminhão Volvo bufa igual a uma baleia. Move a cabeça, que conserva sob o boné de uma AUTOPEÇA do centro-oeste, para o retrovisor: e avista o policial. Este mergulha no coldre a pistola — em muito abatido por uma tremedeira — e começa a correr em direção ao veículo, deixando para trás o amarelo do posto policial, diante da rodovia estadual. Mas que merda é essa?, pensa Henrique. Por que então não me parou em frente ao posto? Ao passo que grita o policial: — Pelo amor de Deus, salte dessa cabine! Como foi que você não viu ele? Salte daí... imediatamente! — E é o imperativo sublinhado naquele IMEDIATAMENTE que força os músculos braçais de Henrique a puxarem a trava da porta e as pernas a saltarem sobre o asfalto preto.
Pelor amor de Deus, pelo amor de Deus, pelo amoooor de Deus; era o policial cacofônico, agora com os olhos longe do caminhão, porém deitados em sua cara, o mais perto possível de sua alma.
(Vai prender minha licença, o caminhão [e a porra da mercadoria], e justamente quando estava pensando em colocá-lo nos classificados e na aposentadoria!)
Quando interrompe os passos ao lado do policial e olha entre o eixo das rodas traseiras, estanca o vazamento de pensamentos. Vê-se no escuro da própria cabeça. Porque no eixo, enovelado em seu cilindro metálico, há um complexo de carne, cabelo e roupas de criança. Enrolado, e com excessivo capricho, o corpo da criança parece ter sido instalado lá por alguma entidade inteligente, com cuidado. Não discernimos os seus olhos, suas orelhas ou quaisquer dedos; aquela mastigação era agora um croqui singelo, da matéria orgânica.
(e os classificados dirão caminhão volvo nd10 280 pneus não inclusos só esta geléia aqui)
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Meus parabéns!
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