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“Qual é a palavra que você está procurando?”

Aquela voz acariciou meu rosto como uma gélida lambida da brisa noturna, domando minha dor pulsante. Olhei para os lados, assustado. Apenas a cidade, banhada pela escuridão da luz artificial, banhada pelo silêncio metropolitano. Assim como em minha infância, não havia ninguém por perto, apenas o fino riacho de sangue que manchava a calçada.

“Solidão?”

Era como ser tocado pela mais sólida das névoas. Ouvi (ou senti) algo passar à minha esquerda. Esforcei-me ao máximo para não ceder à tentação de sair correndo.

“Medo, talvez?”

Ela não se calaria. Aquela voz que conseguia ser maternal e zombeteira ao mesmo tempo não se calaria. Senti uma gota de suor deslizar, fria, por meu rosto pálido.

“Morte. É a Morte o que você busca, não?”

Engoli em seco. Ela me conhecia. Ela me conhecia melhor que ninguém. Abri a boca para responder algo, mas meus pulmões se negaram a trabalhar durante alguns segundos.

“A Morte não pode ser invocada, minha criança.”

A fraca luz dos faróis começou a falhar, enfraquecer-se ainda mais, até apagar-se; toda a rua em completa escuridão, um par de mãos  frias como se esculpidas do gelo envolvendo meu pescoço.

“A Morte lhe invoca. E sua voz é a última que você acaba escutando. Sabe por quê?”

Eu sabia o porquê. Mas o calei. Melhor dito, um par de lábios, árticos e sem vida, me calaram.

E me cegaram.

E me ensurdeceram.

“Porque é a mais bela das vozes. E uma vez ouvida...”

Mas não me tiraram o frio. Não...

“Você já não deseja ouvir mais nada.”

O frio permaneceu.


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