Foi a última vez que ela o chamou assim. Enquanto limpava o sangue do rosto, arrancava o derradeiro pedaço das carnes dilaceradas dela. Vagabunda! Como ela se atrevia a chamá-lo assim? Quem, afinal, a vadia pensava ser? Terminado, sentou-se ao lado do que, talvez com muita atenção, pudesse ser identificado como um cadáver. Com as mãos ensanguentadas tirou o maço do bolso e acendeu o cigarro. Tragou, sabor de nicotina e sangue, sabor tão apreciado. Desistira da ilusória esperança de largar o vício. Este, não o outro. O outro, o que a fizera defini-lo com a palavra que tanto o provocara, nunca quisera abandonar. O outro vício não era um vício, era uma necessidade. Uma fome imensa que não podia ser saciada com comida, uma sede profunda e doída. Algo que irrompia de seu mais íntimo eu, atac ando e devorando o que o seduzia. Como a vagabunda, que, agora, nada mais era do que restos e sangue. Perturbado? Perturbado é a puta que pariu!
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