Sento-me em um dos sofás da sala, inclino-me para descansar, nos poucos minutos que tenho para fugir dos sentimentos de medo e ódio que inundam minha alma durante todas as horas do dia e da noite, fecho os olhos e continuo enxergando, avistando o câncer chamado pavor, temor que faz minha alma fugir dela mesma durante todos estes anos.
Mal sabe a coitada que em vão foge, e que para pessoas como eu que receberam o castigo eterno pela nossa perversidade, o fim jamais chegará.
Para pessoas boas a imortalidade é uma promessa, mas para pessoas como eu a imortalidade é uma ameaça e em sua conclusão o castigo eterno de mil agulhas entrando e saindo de seu peito e em todo o seu corpo.
Chamo-me Ana e sou, ou melhor, fui uma linda prostituta que trabalhava nas ruas, oferecendo sua carne fresca e saborosa a homens famintos por sexo barato e rápido.
Hoje já me livrei desta situação, me livrei para entrar em uma pior. Toda a minha carreira desmoronara naquela noite maldita, como dizem por ai, quando a esmola é demais o santo desconfia, pois bem diz ele apenas o santo, vagabundas que vendem seu corpo jamais desconfiam, a cor azul das muitas notas iludiam-me e me fizeram entrar naquele corsa branco, partindo para o que seria na minha cabeça apenas um sexo selvagem na estrada, mas de selvagem mesmo havia apenas aquele desgraçado que corria velozmente atrás de mim com aquele facão.
Corria desesperadamente para me safar, mas em dado momento tropeço e caiu. Meu algoz olha risonho para mim, vislumbrando contente as feridas que já havia no meu corpo, diz apenas que era há minha hora e que o diabo sorridente me esperava no inferno.
De repente um estrondo e ele cai morto em cima de mim e logo adiante vejo um anjo, um anjo que se importara com alguém como eu.
Ele estende sua mão direita para mim e me leva para o paraíso, é assim que eu chamava esta casa quando entrei pela primeira vez nela. Aqui eu tinha de tudo de comer, beber, vestir, tudo ele me dava e pela primeira vez depois de meus trinta anos fiz algo que jamais fizera em toda a minha miserável existência, sexo, porem não apenas sexo, era sexo com algo que jamais conhecera... o amor.
Tudo corria as mil maravilhas, ele me dava tudo o que eu queria e eu procurava dar a ele tudo que ele ansiava de mim. Só havia algo que não, filhos. Tinha pavor disto e sei que isto o magoava muito, mas fazer o que, era meu jeito, egoísta e mesquinha.
Os anos se passavam e estava eu com aquele santo, feliz, mas num momento eu viria provar para ele que aquela frase que Jesus de Nazaré citou que deveríamos ser prudentes como a serpente, pois estávamos entre uma matilha de lobos estava correto, não importa quanto bem você faça a uma serpente quando menos esperar ela irá morder a mão daquele que bondosamente a alimentou.
Conheci César em uma das visitas que ele fizera ao meu marido, era primo dele e os dois se gostavam muito. Conhecemos-nos melhor e em pouco tempo nos tornamos amantes, sabe como é, sexo com amor é maravilha, mas vagabundas são sempre vagabundas, queremos algo que nos e sacie nossa animalidade interna e isso os anjos como meu marido não conseguem fazer.
Lembro-me daquele dia como se fosse ontem, o dia em que o diabo chamado Eu cometeu aquela atrocidade com o anjo.
Naquele dia estava completamente perturbada, pois ele me enchera o dia inteiro com esta historia de querer ter filhos.
Estava para descer as escadas e ele chega atrás de mim. Quando vou descer o primeiro degrau ele me agarra por trás e diz que implorava para eu lhe dar um filho. Em um momento de ira incontrolavel o empurro e logo percebo de boca aberta, mas muda a atrocidade que acabara de cometer.
Ele se desequilibra e cai da escada batendo a cabeça e olhando em minha direção, morre.
Esta é a primeira historia de que um demônio é capaz de matar um anjo, de arrancar dele a proteção divina que o cobria.
Naquele momento apenas dois sentimentos poderiam invadir e dominar minha alma, nojo de mim mesma pela atrocidade que acabara de cometer e pavor pelo que aconteceria comigo.
Ligo para César e ele vem correndo, colocamos rapidamente o corpo do falecido no porta-malas e vamos a um matagal que ficava bem distante de onde morávamos para finalmente cremar o corpo para não haver nenhum vestígio de nossa maldade.
Era de madrugada e a policia quase nunca aparecia por ali. Depois de algumas horas havia apenas cinzas e eu me despeço dele com lagrimas de remorso e ódio por mim mesmo, eu o traia, mas não queria no fundo aquilo para ele.
Quando dou minha ultima olhada e me despeço sinto uma sensação estranha como se algo se aproxima-se de mim e me toca-se, mas isso era apenas impressão causada pelos sentimentos que dominavam a alma naquele momento, pelo menos, era isso que eu tentava enfiar na cabeça.
Mas mudando de assunto, onde estaria César, desaparecera o desgraçado e levara o carro, eu gritava e gritava, mas nem sinal dele.
Foi então que me convenci que o desgraçado havia fugido, mas ele iria me pagar, voltei para casa e passeio por toda ela, desta vez era apenas minha, em poucas semanas esvaziei toda ela dos pertences de meu falecido marido, nada mais havia dele.
Pouco tempo passou e estava eu aliviada com apenas poucos pensamentos a me perturbar a mente, mas como dizem por ai, a alegria de pobre dura pouco foi isso que aconteceu, um belo dia andando pela casa tropeço no tapete velho que meu marido jamais quisera que eu tira-se.
Foi quando percebi que havia um alçapão e abrindo-o nervosa e ansiosa descubro que havia um sótão e neste sótão, explorando-o descubro que todos os pertences do falecido que eu havia jogado estavam ali guardados.
Que coisa estranha, quando eu tocava seus pertences sentia minha mão formigar e doer, nunca havia tido este tipo de experiência. Ah, tinha sim, na noite do acidente quando jogamos o pobre no fogo.
Encontrei também naquele lugar o diário dele e uma das frases que mais me assombrara foi esta - Meu amor, para sempre meu amor, nem a morte ira nos separar, se um dia a morte cruel vier me buscar, prometo que eu encontrarei um jeito de vim te buscar e te levar comigo.
Começo a ler aquele maldito livro, ele era realmente um santo e eu um demônio sem piedade e consideração nenhuma.
Um belo dia resolvo passear, e no meio de minha caminhada trombo com a policia que para meu azar estava justamente atrás de mim.
O policial logo avisa - A senhora esta presa pelo assassinato de seu marido - Eles me contam que César fora aquela noite e confessara o crime, mas logo depois de ser preso havia enlouquecido e misteriosamente havia se matado com um facão que conseguira na cadeia, um facão grande com um cabo preto escrito justiça.
Meu primeiro instinto não foi outro se não fugir segurando o livro maldito em minhas mãos e quando faço isto sou alvejada por vários tiros que me fazem deitar sobre o diário aberto que abre em sua ultima pagina.
Antes de ficar inconsciente pude ler apenas estas ultimas frases de meu marido - Minha vida termina aqui, matei o maldito de meu primo, e escolhi como destino final de minha alma agora perturbada e revoltada, atormentar a vagabunda que eu mais amei neste mundo.
Meus olhos se esbugalham pela ultima vez e finalmente se fecham comigo desmaiando desfalecida.
Acordo em casa, ouço passos na escada, a mesma escada que mudaria radicalmente o meu destino.
Seria ele? Sim. Descendo as escadas com as calças sujas de sangue, em uma de suas mãos estava um facão preto e no cabo escrito a palavra justiça e em sua outra mão a cabeça de seu primo que a traíra.
Sorri para mim e promete a mesma coisa quando eu entrei pela primeira vez nesta casa... Juntos para sempre...