Paris, outubro de 1790...
Narro esta carta, pois já não tenho forças pare escrevê-la em meu leito de morte, para contar um fato acontecido comigo e meu grande amigo, muito tempo antes da Revolução...
Bem ao sul de Targöviste, cheguei a uma vila de camponeses, onde pretendia me instalar por dois ou três dias. Era o ano de 1710 e eu decidira, graças às posses herdadas de meu pai, há poucos meses falecido, viajar para conhecer a Europa. Resolvi começar pelo leste, até por que era um grande admirador das estórias e lendas que conhecera nos tempos de estudo, sobre aquela região. Era fascinado por estórias de fantasmas e durante horas ficava com amigos me embebedando e contando fatos extraordinários sobre espectros e bruxas.
Em minha companhia, trazia um jovem de 17 anos que estava para mim como um ajudante, mas que mais tarde se tornaria meu único amigo e grande confidente em vida. Há esta altura de minha existência, não muito nobre, mas também não muito plebéia, tendo em vista minha origem, eu estava com 25 anos de idade. Para a época, já era considerado um adulto há muito tempo. Meu pai fora um grande mercador do mediterrâneo. Eu estava disposto a seguir seus passos, anos tarde.
Depois de um breve tempo, já hospedados em uma pequena pousada, resolvi sair e dar uma volta pelos arredores da vila. Com a ajuda do dono da pousada, meu jovem ajudante arreou um cavalo para que eu pudesse realizar meu passeio. Logo de súbito fui alertado pelo dono da pousada que não voltasse após o por do sol. Dizia que não era seguro andar por entre os bosques após o crepúsculo. Eu o ignorei de imediato, já que um dos meus propósitos era de fato, provar que as estórias não eram somente lendas, mas que possuíam certa veracidade.
Meu ajudante quis me acompanhar, porém eu recomendei que ficasse na posada e caso me acontecesse algo, ele poderia tomar algumas providências a respeito. Durante o caminho até a entrada mais fácil para o bosque, passei pelo meio da vila e pude constatar o semblante triste nas pessoas. Uma delas, uma velha senhora, veio até mim, que passava vagarosamente e me entregou uma espécie de amuleto. Na verdade era um rosário e cheirava um forte odor de alho! Aquilo ficou impregnado em mim, mas acho que este era o efeito que a velha senhora esperava. Perguntei a ela o por quê de tanta tristeza nas poucas pessoas que por ali passavam e ela com a voz embargada, me respondeu a duras penas que era por causa da morte de uma jovem, cerca de uma semana atrás. Coisa horrível... Disse a velha!
Depois fazendo o sinal característico dos católicos, se afastou proferindo palavras que me fugiam a compreensão.
Uma hora mais tarde, estava eu montado em meu cavalo, passeando por uma pequena estrada, a qual uma pequena placa indicava a direção para Targöviste e outra apontava para Bistrita. Todas cidades muito conhecidas da região transilvânica. Logo cheguei a uma velha cabana. Tratava-se de um local onde os camponeses guardavam pertences para a realização de funerais de seus entes queridos. Resolvi descer do cavalo e vasculhar o local. O lugar era frio, na verdade gelado, mesmo estando na primavera, aquela parte da floresta parecia estar sempre no inverno. Ao caminhar pelo local, notei que uma sepultura estava havia sido feita recentemente. Logo pensei... A garota que a senhora falou!
Como de costume, já que eu conhecia os costumes da região através das lendas que eu conhecia, fora colocada uma grande laje de pedra no local. De acordo com o que eu conhecia, os moradores daquela região faziam isso para que o defunto não retornasse para molestá-los. Tal como as estórias de vampiros que eu havia conhecido na minha bela França. Mas será possível que isso é de fato uma lenda? Pensei. Mas se era uma lenda, por que as pessoas ainda mantinham costumes tão atrasados? Pensei novamente.
Tomei um ou dois goles na garrafa de conhaque que trazia comigo e resolvi voltar. O sol só estaria de pé por cerca de mais duas horas e eu achava melhor voltar para a pousada.
Mais tarde, enquanto eu e meu ajudante tomávamos uma sopa acompanhada de um vinho razoável e comíamos um ótimo pão, o dono da pousada sentou-se conosco e resolveu falar das tradições do lugar. Contou sobre vampiros e licantropos que habitavam a floresta escura, afirmando ser uma verdade eminente e não simplesmente estórias de viajantes que por ali passavam. Tanto que, comentou sobre a jovem que falecera a semana que havia passado. Disse que ela havia provado o beijo da morte. Era a mais bela jovem do vilarejo e todos ficaram tristes quando o pai dela mencionou em uma das noites que antecederam o fato. Ela havia desaparecido na floresta e somente depois de dois dias ela fora encontrada por ele, caída na estrada em farrapos.
Imediatamente olhei para meu ajudante. Ele também conhecia as estórias e ambos ficamos perplexos. Então o velho homem continuou dizendo que ela estava demasiadamente doente e que não durou mais do que quatro dias e acabou falecendo. Até este ponto da estória, qualquer um poderia achar normal uma jovem morrer depois de apresentar sintomas de alguma moléstia, mas o grande problema foi o que aconteceu nas noites que antecederam sua morte. Ela agia como uma louca! Ninguém acreditava que uma bela jovem que esbanjava vida quando passava estivesse acabando daquela forma. Às vezes queria agarrar quem se aproximasse dela para morder ou algo parecido. Foi quando chamaram por um padre que estava de passagem pela vila para ver a moça, que a esta altura era mantida amarrada na cama. O padre disse que não se tratava de exorcismo e que aquela pobre alma já não pertencia ao mundo dos vivos, após constatar marcas de mordida em seu pescoço e na suas virilhas. O pai e a mãe n ão permitiram que um ritual ensinado pelo padre fosse realizado, então o mesmo resolveu ir embora na manhã seguinte deixando claro que se algo não fosse feito ela iria retornar e acabar com todos. O velho disse que ainda antes do padre partir, falou que agora aquela menina que outrora foi uma bela visão, não passava de uma porta de entrada para o verdadeiro mal que a floresta abrigava. O vampiro que a atacou dias atrás. Lembro-me que nas estórias e lenda, um vampiro não pode entrar em local algum sem ser convidado, mas como ele atacara a menina da vila, poderia entrar facilmente com ela.
A conversa durou mais algum tempo até que o cansaço da viajem falou mais alto e tanto eu quanto meu ajudante fomos para nossos aposentos. Horas mais tarde, por mais que o corpo exigisse de mim, o sono de fato não vinha. Eu apenas me virava de um lado para o outro na cama até que algo me chamou a atenção. Comecei a escutar um ruído vindo de fora, e resolvi levantar para olhar pela janela do quarto. Fiquei petrificado com o que vi. Um homem andando cambaleante e sozinho àquela hora da noite e indo a direção a entrada da vila. Imediatamente acordei meu ajudante e rapidamente pedi que se arrumasse. Iríamos sair. Ele sem entender nada, seguiu minha determinação e em pouco tempo estávamos fora da pousada. No caminho, enquanto caminhávamos sorrateiramente atrás do homem, contei a ele o que estava acontecendo e que possivelmente poderíamos ver se de fato vampiros existissem.
Paramos em certo ponto do caminho, já que o homem que seguíamos resolveu parar no meio da estrada que levava ao bosque. Ficamos atrás de alguns arbustos até que para nosso espanto ela surgiu. Imediatamente meu sangue congelou, e não era pelo frio da noite, mas pelo que tanto eu quanto meu ajudante vimos... Uma bela jovem usando apenas uma camisola branca surgiu de trás das árvores e caminhou como se estivesse flutuando na direção do homem parado na estrada! Ela era muito bonita, embora sua palidez cadavérica denunciasse que algo estava errado com ela. Seus olhos crepitavam como um fogo vermelho, enquanto seus cabelos esvoaçavam-se no ar, mesmo não tendo vento naquele momento. Ela vinha com os braços estendidos na direção do homem enquanto seus lábios não menos vermelhos como o fogo de seus olhos, pronunciavam o que me soou como... Vino la mine, tata! Vino la mine!
Somente, anos mais tarde, vim a descobrir que ela chamava o pai para consigo. O homem parado na estrada era seu pai!
Ela ao abraçá-lo, rapidamente o mordeu furiosamente em seu pescoço, fazendo esguichar um jato de sangue que a deixou toda suja. Ela se deliciava em um frenesi medonho, quando de repente por de trás das mesmas árvores que ela saíra instantes atrás, surge outra criatura, desta vez, toda vestida de negro, pronunciando palavras que eu e nem meu companheiro, não pudemos compreender. As palavras sovam como a língua natal da região e eram mais ou menos assim... Acum ie?i afar? de acolo! El apar?ine mine! Mais tarde vim, a saber, que era uma ordem para que a moça saísse de perto e que aquele pobre coitado agora o pertencia.
De sua boca, não só saiam estas palavras, mas também um fedor quase insuportável. Era um cheiro de morte que inundou todo o local. Imediatamente, obedecendo à ordem, a garota deixou o homem à mercê da outra criatura, que atacou o pobre homem sem piedade alguma. Somente depois de um longo tempo, ele deixou-a aproximar-se de novo e passaram a saborear juntos, o que sobrou do pobre coitado.
Depois disso, sumiram na escuridão da noite. Olhei para meu ajudante e rapidamente voltamos à pousada, onde nos deparamos com o seu dono. Contamos a ele o ocorrido, mas ele se negou a sair àquela hora para buscar o cadáver do homem na estrada. Voltamos no dia seguinte e o que encontramos foi apenas alguns restos dele e marcas, tanto de pegadas de lobos quanto, de algo que fora arrastado floresta adentro. Pelo visto os lobos se encarregaram de limpar aquele serviço sujo e horrendo!
Depois de tudo, resolvi que aquilo era o bastante e que já poderíamos deixar aquele local. Confesso que nunca mais voltei a Targöviste e nem sei o que aconteceu àquele povo do vilarejo, mas uma coisa eu tenho certeza... Em algum lugar daquela densa e fria floresta tem uma garota esperando pelo abraço de boa noite.
Assinado: Gaston De Villes
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