Escrito por Suzy M. Hekamiah
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23 Outubro 2009
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Contos Estronhos -
Suspense e Terror
Era noite de inverno na Serra do Rio Grande do Sul, os irmãos Manuel e Eduardo seguiam de jipe pela estrada, um Lada Niva propriedade de Eduardo. Ao som de Moonspell a paisagem ganhava trilha sonora, de um lado a mata fechada, do outro, os campos abertos deixavam o horizonte à mostra e disso o céu escuro anunciava uma tempestade.
Manuel era fotografo de espécies ameaçadas de extinção, partira pelos terrenos gaúchos à procura do Lobo-Guará; Eduardo apenas queria sossego, sem longas aventuras. Entretanto, não desgrudava do seu livro de ficção científica.
A noite mal chegou e os pingos de chuva deixaram os dois no meio do caminho, de repente o que era uma brisa, virou uma ventania e o “céu caiu” sobre a terra.
- Acho que temos que encontrar um abrigo qualquer.
- Não há civilização por perto. Mas sei de uma caverna aqui perto, atrás daquela floresta.- Responde Eduardo, já fazendo a curva em oeste em direção ao abrigo.
- Será que não há mesmo ninguém, nem um animal por aqui?- Indaga Manuel.
- Creio que a essa hora, caso haja algum, eles estão aconchegados e é o que irei fazer assim que encontrar a caverna, o pior que essa floresta mais parece um labirinto!
- Só espero encontrar o Lobo-Guará...
A floresta tinha uma pequena estrada no meio, na qual os dois seguiam, mas era impossível passar de carro, logo, tiveram que seguir a pé.
Eduardo desceu do carro, pegou a capa de chuva e as lanternas no porta-malas.
O vento bateu forte e com a chuva, não ficou nada agradável. O sopro da ventania por trás das árvores levantava as folhas, que essas, grudavam em qualquer lugar. O vento veio mais forte, e longe, o rapaz teve a impressão de ter ouvido um uivo. Um uivo tão forte que sua alma sentiu. Olhou para os lados e o segundo uivo soou pela mata, dessa vez mais perto e com maior intensidade. Seu sangue correu tão depressa que seus batimentos aceleraram. Um arrepio correu por sua espinha, sentiu como se estivesse sendo chamado. Como se alguém tivesse o observando.
Eduardo olhou, novamente, a sua volta e longe avistou um espectro, como se não bastasse o frio sobrenatural que sentia, os olhos da criatura o dominaram tão intensamente que não conseguia desviar o olhar. O Ser estranho se confundia com a superfície dos arbustos, chegava mais perto como um flash de luz; era dono de uma aura inexplicável, como se pudesse dominar a natureza em volta, mas não a sua.
Manuel no carro nada percebia, o som no último volume o distraia.
Agora, mais perto, chegou agachado, logo se erguendo entre a mata e em frente a Eduardo, que viu o que era uma sombra, criar forma. Em segundos, o suposto animal se tornou mais alto e robusto que qualquer outro ser humano; embora os pêlos cobrissem seu corpo, era visível o emaranhado de veias pulsando sem parar, as patas tinham garras capazes de perfurar a pele até o coração em uma unhada só. Que essas, Eduardo sentiu em seu pescoço, aliada a respiração ofegante do animal, e exibiu livre da sombra da noite, uma face apavorante, os olhos amarelos olhavam fixos a Eduardo, possuia dentes tão afiados quando as garras. Ele babava e rosnava como o pior dos cães; de sua boca o ar vinha quente, embora a baba que escorria era tão fria quanto a neve, visivelmente escura, pronta para se misturar ao sangue da vítima.
Eduardo não conseguia pronunciar uma palavra se quer, seus músculos estavam paralisados, dominados feito um inseto na teia. Queria gritar, mas a vontade não correspondia aos fatos. Diretamente sentiu a garra desenhar círculos em seu pescoço, ameaçando perfurar, sem perder o foco principal de sua jugular. O lobisomem olhou cínico, um tanto quanto amistoso demais para um um animal pronto para devorar sua presa. Sentiu mais uma vez o cheiro da carne de Eduardo; seus olhos amarelos focaram na Lua Cheia que aparecia atrás nas nuvens. Soltou um uivo tão alto, como se quisesse alcançar o céu com sua voz. Concretizando um ritual.
Manuel estava quase dormindo, acordou quando percebeu a música rebobinar sem parar, justo no momento que ouviu a marca do lobo. Assustou-se de tal forma que derrubou o café sobre as pernas. Os óculos caíram.
-Caralho!
-Eduardo!? Eduardo!? Você está aí? Anda logo!Nada se ouviu na noite, até a chuva havia parado.
Desistiu de ligar o rádio, olhou pelo retrovisor e avistou a lanterna caída e acessa. Saiu aflito do veículo.
O lobisomem bufou e saiu mais rápido do que chegou, escorregando sua garra no braço de Eduardo, deixando três dedos marcados em feridas.
- Eu o chamei! Onde estava?- Perguntou Manuel
- Acabei me distraindo com um animal.- Responde Eduardo, ainda incrédulo e todo borrado pelo ocorrido.
- Não me diga que era o o Lobo- Guará e não me avisou para fotografá-lo!
- Eu quem diga... Na verdade não sei o que era, surgiu e foi muito rápido!
- E você não o seguiu?
A vontade do rapaz era de responder ironicamente, pensando: Se ele soubesse do tamanho do Lobo! Animal do inferno! Apenas olhou para o irmão, balançando os braços, demostrando a situação.
- Bom, deixa pra lá! A caverna é aqui perto?
- Sim, sim! Pegue o que tem que pegar e vamos.
O rapaz cortou um pedaço da camisa e cobriu o ferimento do braço, não queria que o irmão visse. Seguiram alguns metros até a caverna. Sempre olhando para os lados, não sentia-se mais seguro naquele lugar.
- Chegamos!
- Finalmente! Até que é aconchegante e interessante. Merece uma fotografia.- Manuel ajustou o ângulo e registrou a entrada da caverna.- Essa vai pra capa da coleção!- Completou.
Eduardo estava com perguntas sem respostas, querendo acreditar que o que passou era uma alucinação, afinal, leu muitas histórias de tal coisa em sua vida. Mas as marcas no braço só reforçavam que a dor, o medo, as imagens da criatura sedenta, eram reais. Havia ocorrido, mesmo sem explicação.
A chuva voltou e o cansaço chegou em ambos. Ajeitaram os sacos de dormir no canto da caverna, que apesar de pequena, servia para uma noite. Por fim:
-Boa noite!
-Boa noite!
Na madrugada, Eduardo sentiu muito frio, o medo normalmente deixava-o com frio; mas era um frio acompanhado de fome. Revirou-se, mas não conseguia pregar o olho, levantou-se e foi para fora da caverna pegar um ar. A Lua Cheia era destaque no céu.
Sentiu um aroma de sangue muito forte. Olhou para os lados e três lobos deliciavam-se com pedaços de carne de um homem, um dos lobos o encarou e rosnou. Chegou mais perto, o homem parecia familiar. Os caninos afastaram-se contra a vontade e Eduardo pode ver, era ele no chão! Estendido como um animal qualquer, totalmente dilacerado.
Um grito o fez acordar! Era só um sonho. Mas acabou com sua mente.
Eduardo se levantou, estava suando frio, a dor do ferimento ficou mais aguda, a ferida era horrenda demais para ser tratada apenas apenas com um pano. Percebeu o cheiro de sangue podre tão forte que vinha do seu braço. Tinha uma cerveja. Serviria. Álcool de qualquer forma é bom contra infecções. Derramou todo o líquido na ferida. Mesmo com um pano amordaçado, não foi o suficiente para diminuir o ardido, gritou sentido sua garganta “rasgar”.
O ferimento não melhorou, começou a pulsar, seu coração disparou. Suou excessivamente, os olhos ardiam, a visão ficou turva, nada mais tinha forma ou cor na sua frente, era como se todos os órgãos parassem e reagissem brutalmente dentro de si. A cabeça latejava, a audição ficou confusa, muitos zumbidos vindos de qualquer lugar, os músculos cresciam e diminuíam sem sentido, até finalmente ficarem robustos. As roupas não aguentaram a nova forma e perderam-se em trapos. Finalmente sentiu um gosto de sangue e carniça na sua boca. Era o mesmo, mas sem saber o que era.
Manuel teve a impressão de ter ouvido algo. Acordou, olhou para o relógio, já passava da meia-noite. Percebeu que Eduardo não estava por perto. Viu os trapos espalhados, virou-se apavorado; pronto para gritar e sair correndo. Foi quando deu de cara com o lobisomem, antes seu irmão, agora uma criatura selvagem, faminta por sua carne.
O lobisomem segurou a câmera, olhou para Manuel e disse:
・ Você não queria conhecer um lobo?
A câmera caiu com o sangue de Manuel. A noite só carregava a marca do lobo.