(5 votes)


O relato a seguir não possui assombrações escancaradas ou algo do tipo, mas é o vívido relato de impressões que ficaram em mim gravadas de maneira indelével através dos anos. Tão fortes que algumas cenas ainda posso sentir como se as estivesse vendo neste momento.

Não me recordo como exatamente começou, mas foi com a idade de 4 ou 5 anos, estávamos na década de 70. Tinha frequentemente pesadelos dos quais não me lembro, porém a sensação que fica é que dormir para mim era algo extremamente desconfortável. Frequentemente tinha visões de coisas que não estavam realmente acontecendo, ouvia vozes, e estas vozes conversavam comigo e me contavam estórias, sempre aterrorizantes.

Um detalhe interessante que vim a saber depois da idade adulta é que o local onde residi por toda infância, fora na verdade um antigo cemitério para desterrados até os idos do século XIX, sendo depois loteados, sem que jamais os corpos ali enterrados tivessem sido removidos.

Pois bem, nesta época, numa noite, houve algo estranho, como se alguém estivesse a me conduzir. Imagine com a idade ao redor de 4 anos, segui até a porta da frente e (não me lembro deste percurso, mas segundo familiares, consegui destrancar a porta, abri-la, tomar o elevador e passar pela portaria do prédio) de repente estava à rua. Me lembro de ver muitos carros parados, as luzes dos faróis e me lembro de atravessar a rua por entre eles, devo ter andado algo em torno de dois quilometros, nada lembro deste trajeto. O que me lembro é de estar parado, já distante de casa e como de repente, ganhar consciência do que me cercava. Fiquei parado chorando no meio da rua.

Como do nada, surge uma senhora e me puxa pelo braço e diz que devo ir com ela. Faço força para não ir, porém vai me puxando para um beco escuro. Neste momento, surgem dois rapazes sorridentes, dizendo me conhecerem. Dizem para a tal senhora me largar pois eis que me conhecem e são meus amigos. A cena seguinte que me lembro, já não está esta senhora, mas apenas os dois rapazes, que me dizem:

- Conhecemos seu pai, inclusive precisamos conversar com ele, mas não lembrávamos o caminho até sua casa. Vá na frente que lhe seguiremos. E assim foi o caminho todo. Cheguei são e salvo em casa.

Detalhe: Jamais algum dos meus familiares viu qualquer destes dois rapazes, e minha mãe jura até hoje que cheguei sozinho em casa, como se estivesse sonambulando.

Outro detalhe muito estranho que vim a descobrir depois de adulto: o beco onde a senhora queria me levar, era a entrada do antigo cemitério, onde agora existe uma capela. Dizem que aquele cruzamento com aquele beco é o local mais maldito da região. Exatamente onde apareceu aquela senhora.

Passei assim a infância, tinha momentos de consciência alterada, ouvia vozes, via coisas. Depois se acalmou até meus quinze ou dezesseis anos, quando novamente se manifestaram eventos estranhos, sempre naquelas cercanias. Estudava à noite e na volta para casa, sempre tinha a impressão de estar acompanhado por alguma coisa, chegava a ouvir algo e quando me virava nada via. Por vezes aquela sensação de opressão era tão forte que chegava em casa correndo.

Mudei de bairro e aquela sensação desapareceu, assim como as vozes, visões. Tudo ficou tranquilo. Estou aqui escrevendo agora, pois eis que retornei ao antigo bairro. Tudo novamente voltou, mais intenso. Vejo agora vultos escuros, pelos cantos dos olhos, escuto sons. Várias vezes escutei alguém me chamar ao longe, quando respondo, vejo que não há ninguém. Estou aqui escrevendo, mas sinto que estão levando aos poucos a minha alma... como se eu já não fizesse parte deste mundo...


Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Banner
Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho
Nós temos 4 visitantes online