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Depois de muito tempo de procura, finalmente Antônio arrumou um emprego, como entregador de produtos veterinários, medicamentos e coisas desse tipo para produtores rurais, não era bem oque ele queria, mas aquela altura do campeonato não tinha muita escolha e não era sempre que alguém lhe manda um e-mail oferecendo emprego fácil assim.

Ao entrar no escritório em seu primeiro dia de trabalho deu de cara com seu chefe, com aquele bigodão denso que cobria seu lábio superior. Era um homem muito sinistro. Estava de mau humor e quando viu Antônio atacou-o como se já o estivesse procurando há horas. Disse-lhe cuspindo uns pedacinhos de queijo misturado com vinho.

– Esta atrasado rapaz! – com voz rouca.

– Desculpe chefe, é que peguei um baita transito. – mentiu o jovem, ainda com cara de quem dormiu demais.

– Chega de desculpas, vai lá para o estacionamento que tem uma entrega para você fazer para um cliente no interior da cidade, o endereço esta encima da caixa da encomenda.

– Sim senhor, já estou indo. – disse Antônio e já saiu andando imediatamente para o estacionamento sob os olhos do chefe que ficou observando-o sumir no fim do corredor.

Na encruzilhada.

Em uma encruzilhada com três saídas havia uma única placa onde dizia Linha Taquara, era o que ele procurava. Antônio embarcou no Uno e acelerou levantando poeira e cascalho daquela estrada vermelha de quente, o sol das duas horas estava dominando o céu naquele dia de dezembro.

Ele já estava andando há horas e não encontrava sinal de civilização naquela estrada de chão horrível. Então chegou ao final da estrada onde somente havia um cemitério abandonado cheio de taquaras e bambus por toda parte, até mesmo crescendo de dentro de algumas sepulturas muito velhas. Ao lado do cemitério tinha uma torneira, pensou em parar para beber água, estava cansado e deduziu que o endereço não correspondia.

Parou o carro bem na porta do cemitério abandonado, na vaga entre outros dois carros velhos e enferrujados. Nas sombras das taquaras verdes se sentou numa pedra, ao lado da torneira galvanizada onde molhou a nuca e bebeu bastante água, estava fresca e muito saborosa, não se lembrava de ter tomado uma agua tão boa em toda sua vida. Antônio achou engraçado, pois haviam alguns carros velhos estacionados em volta do cemitério, quase todos enferrujados, também haviam algumas caixas de papelão corroídas pela chuva e pelo sol.  Recostou-se numa outra pedra e fechou os olhos um pouco, com a cara molhada, resolveu tirar uma soneca por uns minutos e assim fez. Acordou apenas quando ouviu algo estranho.

– Me ajuda! Estou presa aqui dentro! – ouviu alguém falando, era uma menina. Olhou para os lados, levantou-se, mas não viu nada, não sabia de onde vinha a voz.

– Eu estou presa aqui nas taquaras! Por favor? Tira-me daqui! – implorava a voz fina e abafada de uma menina desesperada. Antônio olhou para os lados e viu bem ao lado de seu carro uma brotação de taquaras muito densa, todas bastante unidas onde o interior parecia impenetrável até mesmo para a luz do sol, formava um circulo de mais ou menos uns dois metros de diâmetro. A voz vinha de lá.

– Quem está aí? – agora ele só ouvia um choro de menina que vinha do meio das taquaras. – Responda quem esta aí? Você esta machucada? – levantou-se e começou a andar bem lentamente até o amontoado de taquaras. Não havia vento nenhum, nem um ser humano ou animal na estrada. O silencio tomava conta de tudo, como se ele estivesse nas areias quentes do deserto, dentro de uma ampulheta parada.

Chegou bem perto da moita de taquaras e percebeu então que elas tinham mais de quatro metros de altura e que seu interior era realmente negro. A menina chorava, quando ele estava bem em frente à parede de taquaras verdes tentou abri-las para enxergar algo lá dentro, mas no momento que suas mãos agarraram dois feixes de taquara a menina emendou seu choro a uma risada, e sua risada rapidamente ganhou um tom mais grave e no final soava como um gutural, uma gargalhada satânica, quando Antônio fez menção de sair correndo duas mãos negras e enormes, com unhas que pareciam garras de tigre, saíram de dentro da moita e o agarraram pelos braços puxando-o para o interior do circulo das taquaras.

No escritório

Devorando um pedaço de queijo e deixando uns pedacinhos no bigode, o chefe de Antônio permanecia impaciente atrás da mesa de sua sala toda enfeitada de taquaras, acendeu um charuto e bebericou um pouco de um vinho tinto bem avermelhado. De repente sentiu um arrepio muito forte, ficou estático em sua mesa, e em seguida deu um leve sorriso de alivio enquanto uma voz diabólica soava em sua mente, vinda do interior, e a voz do demônio disse para ele.

– Encomenda entregue. Em breve procurarei novamente seus serviços.

– À suas ordens meu senhor. – Mentalizou o chefe com os olhos fechados.


Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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