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O tic tac do relógio pendurado na parede ressoava, estrondosamente, dentro de sua cabeça. Martin observava tudo ao seu redor. Os livros nas prateleiras, as papeladas sobre a mesa, extremamente desorganizada, a lâmpada acesa, a janela entreaberta por onde adentrava uma brisa fresca; apesar do clima abrasador, Martin transpirava muito. Vestia-se com uma camisa azul claro, embora o suor deixasse um tom mais escuro sob as axilas. Um fio de suor escorria por sua testa. Os cabelos curtos e a barba espessa lhe emprestavam uma aparência severa. Martin mantinha os dedos de uma mão entrelaçados nos da outra, e fazia os polegares girarem um sobre o outro, demonstrando claramente o seu nervosismo.

- Então, está me dizendo que, todas as noites, enquanto dorme, sonha com assassinatos? - perguntou o dr. Kane, tranquilamente.

- S-sim...digo, não! - O tom da voz de Ma rtin variava entre sussurros e gritos. - Eu sonho como lobos doutor. Toda noite. P-percorro vários lugares...e assassino pessoas.

- Detetive Martin, veja bem. Ambos sabemos que você tem vivido momentos difíceis, verdadeiras provações, após a morte de sua família - dr. Kane ajeitou o roupão preto que vestia e endireitou o óculos com o dedo indicador, ganhando tempo. - É natural que tenha sonhos pesados, sonhos esses que você não vai compreendê-los totalmente. Pois, tratam-se apenas de sonhos, não de visões, nem presságios.

- Cale a boca, porra! - Martin alterou o tom da voz, iniciando uma gritaria. - Não são apenas sonhos! A morte da minha família não tem nada a ver com isso!

O homem baixo de nariz adunco e cabelos totalmente brancos bufou. Olhou para os lados, depois para o relógio, passava da meia noite. Uma hora atrás Martin o acordara, batendo ruidosamente à sua porta, em busca de respostas para seus sonhos obscuros. Ao invés de aceitar o que era dito pelo doutor, ele apenas resmungava e esbravejava com Kane.

- Vou fazer um café. Me acompanha? - disse Dr. Kane, quebrando a tensão.

- Claro - sussurrou Martin.

Amigos de longa data, Thomas Kane e Martin Donell, casaram-se com duas irmãs, Kate e Lucy Andrel. A esposa de Martin, Lucy, fora brutalmente assassinada juntamente com as duas filhas do casal. Esquartejadas em tantas partes, de forma tão cruel, que os pedaços dos corpos encontrados não constituíam cinquenta por cento de seu total. Martin acreditava que algum criminoso fizera cumprir suas juras de vingança. O detetive jurara não descansar enquanto não encontrasse os responsáveis pelo assassinato de sua família.

O tic tac infernal parecia ter aumentado ainda mais. Martin cobriu as orelhas com as mãos, buscando abafar o som incessante - que só ele ouvia naquela altura. Logo sentiu o aroma do café vindo da cozinha, e, também, o aroma de um perfume feminino, suave e adocicado. Parecia vir do andar superior da casa, talvez de Kate, esposa do dr. Kane. Aquele cheiro sobrepujou o aroma do café. Martin salivava. Os passos anunciaram o retorno do amigo, e psicólogo, retornando com o café. Assim que surgiu no pequeno escritório suas mãos fraquejaram. Bandeja e xícaras despencaram de suas mãos, indo se estilhaçarem no piso frio do chão. O café escorreu e manchou o tapete cor de creme da sala. Incrédulo, Thomas Kane fitava o amigo Martin com os olhos esbugalhados atrás dos óculos. O detetive balançava a cabeça para os lados, tapando os ouvidos com as mãos. Veias proeminentes saltavam de sua testa e pescoço . Os olhos, quando foi possível para o Thomas visualizar direito, estavam rubros e anormalmente esbugalhados.

- EU DISSE QUE NÃO ERA UM SONHO! - rugiu Martin com uma voz grave e distorcida.

O dr. Kane fez menção de correr e gritar. Seu grito saiu mudo. E ao terceiro passo de sua fuga, Martin saltou sobre ele, fazendo ambos rolarem pelo piso da casa. O óculos de Thomas saltou para longe. Martin ergueu a cabeça e gritou.

Gritou.

Gritou.

Uivou.


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