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Riscou o fósforo na perna da calça e acendeu o charuto, encarando a porta fechada e escutando ao longe os sons de briga. Havia anos não atravessava aquele arco e mais tempo ainda que fizera isso tão sóbrio. Checou a arma no cinto mais uma vez e chutou o pedaço de madeira que se colocava entre ele e seus alvos. Seis deles, espalhados pelo amplo salão, batendo ou apanhando. Estariam todos mortos logo, então isso não faria diferença. Era mais um servicinho sujo, dos que deixava o gosto amargo na boca e o bolso cheio, e para ele isso bastava. Não dormiria bem por mais algumas noites, mas não era como se houvesse tido uma noite completa de sono desde que completara 16 anos. Tinha 30 e as olheiras mais profundas que as Fossas Marianas.

Um corpo quase o empurrou pra fora e teve que pular alguns caídos, a maioria simplesmente bêbada demais para conseguir levantar. Identificou sua primeira vítima entre dois brutamontes servindo de João Bobo para seus tronc os que chamavam de punhos. Um único tiro e o brinquedo caiu, eternamente imóvel. Outro acertou um pobre coitado em meio ao salto de vitória, o qual daria uma bela enxaqueca ao barman. Mais tarde isso renderia uma dose extra de whisky. A terceira bala encontrou os dentes de um gigante que nada tinha a ver com a história mas queria acertar-lhe a fuça e isso era muito deselegante.

Soprou o cano fumegante, procurando com os olhos um dos quatro rostos faltantes que vira não tinha mais de meia hora em uma página surrada de um arquivo confidencial. Encontrou um deles agachado, próximo ao piano e quase não gastou uma bala despachando ele para o inferno de onde saíra. Sobravam três quando alguém teve a brilhante ideia de apagar a luz. Uma lufada de ar o avisou que uma lâmina estava prestes a abrir um sorriso novo em sua garganta e atirou às cegas, sabendo que acertara algo porque sangue e tripas cobriram seu corpo.

Ficou em silêncio completo e teve que cuspir fora o charuto, o que causava ainda mais raiva em seu coração gelado. Experimentou dar um passo e ouviu a movimentação de alguém que tentava lhe nocautear. Muito cuidado ou seria mais um dos que estavam cobrindo o chão do bar. Um ruído similar a um zíper o alertou para o perigo iminente. As presas cravaram em sua coxa e ele teve de sacrificar parte do pé para explodir a cabeça de uma daquelas coisas de que só se ouvia falar em filmes de terror. Outras vieram e ele correu, correu o máximo que pode até encostar na parede. Encurralado, passou os dedos no reboco, caçando o interruptor. O que quer que fosse que tivesse que enfrentar, queria enfrentar sob a luz fluorescente.

Assim que acendeu também se arrependeu. Seis pares de presas apontavam em sua direção, completamente cientes de onde estava. Erro clássico: Se seu inimigo pode te ver, é claro que ele também vai atacar. Descarregou o cartucho na criatura mais próxima e ficou feliz ao ver que elas caà ­am quando ficavam sem cabeça. Começou a recarregar enquanto tentava fugir dos ataques cada vez mais rápidos e precisos. Uma mordida em sua mão deixou-o sem arma. Teve que improvisar com um pé de cadeira, eficientemente disposto onde deveria haver um coração e causando a implosão do monstrinho, sujanto também o teto do bar. O whisky extra iria sumir desse jeito.

Faltava apenas um dos três monstros e ficou muito brabo ao perceber que ele encontrara sua pistola.  Aquela coisa poderia abrir tranquilamente um buraco do tamanho de uma bola de beisebol em qualquer parte do seu corpo e não era nada legal quando estava na mão de... Bem, de qualquer outra pessoa... Ou coisa... Que não fosse ele. Levantou as mãos, demonstrando que não estava com intenções de se mexer. Com o canto dos olhos contou apenas mais cinco pessoas de pé no salão, duas delas com medo demais para salvar-lhe. Uma delas fez um pequeno sinal e pulou na criatura, que virou-se rápido o sufic iente para explodir seu peito em pleno ar. Grande erro. O pobre garoto caiu no chão, mas no máximo ia imobilizá-la. Já ele... Ele ia fazer MUITO pior. Fincou uma perna em suas costas e puxou os braços para trás, quebrando os dois sem esforço. Pegou a arma que a criatura largou e desferiu apenas um tiro, separando cabeça do corpo. Agora quatro pessoas de pé na sala além dele.

Reconheceu o barman e fez um gesto com os dedos, sendo servido rapidamente com a bebida quente. Os outros três homens se entreolharam e dois deles passaram a saquear os corpos, sendo vez ou outra interrompido por movimentos de quem ainda estava vivo. O terceiro tentou, sem sucesso, chegar até a saída. O som do gatilho o fez parar pouco antes de tocar a maçaneta. A bala atravessou suas orelhas, prendendo-se em um quadro do outro lado do salão. O barman pegou a garrafa de whisky e deixou ao lado do atirador.

- Mais uma noite de serviço, Jack? - perguntou enquanto o freguês virava a primeira dose.

- Sabe como é... Uma matança aqui e outra ali para reativar a circulação de sangue. Desculpe pela sujeira. - e apontou para o teto, sendo recebido com um sorriso. Sacou outro charuto e riscou mais um cigarro nos jeans. Era um serviço sujo, mas alguém tinha que fazer.


Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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