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Cheguei em casa aquela noite sem saber o que pensar, talvez eu só não quisesse pensar em nada mesmo. Fui direto tomar banho, um banho gelado para tirar o peso que sentia. Fiquei longos minutos debaixo daquela água fria sentindo cada gota percorrer o meu corpo ensanguentado, percebi bem depois que ainda estava de roupa e então, desliguei o chuveiro.

– Droga! – exclamei esmurrando a porta e sentando no vaso sanitário. Não aguentei mais e comecei a chorar.

Fiquei por entre lágrimas e soluços algum tempo e o frio já começava a me incomodar, fui tirando aquela roupa molhada e suja de sangue e vi que havia um pequeno corte em minha mão e sorri pensando “aqueles idiotas...”. En xuguei as lágrimas e fui me olhar no espelho, a camisa dele ainda estava no cesto de roupa suja... – pensei – tudo ainda está como antes, menos eles. Não aguentei e voltei a chorar, dessa vez esmurrando o espelho que revidou cortando minha mão e fazendo-a sangrar muito. Levei a mão à boca e experimentei o meu próprio sangue. Nada mal... – pensei comigo.

Os fatos anteriormente ocorridos começaram a girar na minha cabeça.

Ainda era cedo, consegui me livrar do trabalho para ficar mais tempo com ela, minha namorada, o olhar dela mataria qualquer um, e eu senti tanta falta daquele olhar no meu dia. Cheguei em casa antes das 5 horas da tarde, meu melhor amigo que morava comigo não estava lá – sorte... – pensei comigo – hoje vou chama-la para dormir aqui, é sexta feira e provavelmente ela vai aceitar – sorri com a possibilidade.

Peguei um ônibus e fui até a casa dela, que ainda mora com os pais. No caminho não consegui ti rar aqueles olhos azuis da cabeça e fiquei com um sorriso bobo na cara. Mas ela mesmo dizia que adorava o meu jeito bobo. Lembrei-me do cheiro dela, dos seus longos cabelos negros, da pele pálida... E enfim cheguei a sua casa. Fui entrando sem bater na porta, afinal eu já era quase parte da família – sorri - e esse provavelmente seria meu último sorriso. Tudo calmo,  a irmã mais nova ainda devia estar na escola, e ela, provavelmente deitada mexendo no notebook. Fui entrando no quarto dela, pensando em assustá-la, mas... Infelizmente, quem levou o susto foi eu. Ele estava lá, com ela! Meu melhor amig... AMIGO? Não, aquilo não podia ser meu amigo. Os dois na cama... Aqueles detalhes sórdidos que vi me deram náusea.

Tenho quase certeza que não me viram, tentei manter a calma, voltar lá e gritar com eles... Mas nada iria tirar aquele ódio de dentro de mim, não pensei muito, vomitei antes que pudesse chegar ao banheiro, e aí sim acho que eles percebe ram que havia mais alguém na casa. Peguei uma faca que estava na cozinha, minha ideia era apenas ameaça-lo, mas quando ele me viu sorriu e veio me cumprimentar. Meus olhos estavam vermelhos, nem tive tempo de limpar o vômito no corredor do banheiro e quando ele se aproximou de mim, sem camisa e com aquele sorriso cínico no rosto, não aguentei. Comecei a esfaqueá-lo e não conseguia mais parar, bati com toda a força a faca na barriga dele e o segurei contra a faca. Fiquei um tempo assim, “abraçada” com ele, e ouvindo algo como um gemido de dor, meu mundo havia parado, já não sabia bem o que estava fazendo, e tudo o que ocorreu depois foi como um sonho pra mim, pois não sei dizer com detalhes, só me lembro de tê-la visto correndo em minha direção e perguntando se eu estava louca, ela me empurrou e foi abraça-lo, pegou o celular, mas não a deixei ligar para ninguém, a puxei pelos cabelos e coloquei minha mão em sua boca, pedi para que não gritasse, tudo ficaria bem. Precisava ouvir que ela estava arrependida, que foi um erro, precisava ouvir pela última vez o quanto ela me amava, só isso, é tão difícil de entender?

Fiquei um tempo acariciando seus cabelos até que ela se acalmasse, deixei as mãos amarradas por via das dúvidas, tirei a mão de sua boca e a deixei falar.

– Sua louca!!! Me solta!!! – foi tudo por água a baixo, todo o ódio que senti só aumentou. Como ela podia dizer aquilo? Era eu! Sua namorada, era a mim que ela amava e eu a ela.

Coloquei um pano em sua boca e fiquei admirando aqueles olhos azuis, que mesmo depois de chorar continuavam lindos. Fiquei um tempo admirando ela, enquanto se debatia, chorava e tentava gritar. Até que percebi que se ela estava com ele e não comigo, então não era a mim que amava. Senti uma pontada no peito e desabei a chorar, me inclinei para beijá-la e ela fechou os olhos, a abracei com toda força que pude, tirei a mordaça de sua boca e a beijei. Sussurrei no seu ouvido “peça desculpas amor” e ela cuspiu na minha cara. Aquilo foi minha última tentativa, a abracei novamente só que dessa vez com a faca na mão, e senti o sangue dela escorrendo e um grito abafado. Continuei abraçada a ela, até perceber que podia chegar alguém. Saí correndo o mais rápido que pude, deixando os corpos do mesmo jeito que estavam, e o corredor do banheiro ainda sujo.

Todo mundo na rua me olhava estranho, não gostei nada daquilo, mas por que...? Nossa! – Olhei as minhas roupas – estava toda ensanguentada...  Sorri para todas as pessoas que me olhavam estranho, foi no mínimo engraçado. Um senhor perguntou-me se estava tudo bem, continuei andando como se não tivesse ouvido. Mais algumas pessoas fizeram o mesmo e eu ignorei. Passei a mão em minha blusa e provei um pouco do sangue que estava nela. Gostei, até nisso ela era gostosa – sorri novamente com esse pensamento doentio.

Depois de ter quebrado o espelho, fiquei um tempo me olhando em um pedaço dele que havia caido na pia, e me achando quase irreconhecível. A dor que sentia era inexplicável, deite-me nua e ainda um tanto molhada depois do meu “banho”. Liguei o som no volume máximo e fiquei esperando alguma ideia do que fazer da minha vida dali em diante. Ter  20 anos e estar sem rumo, com medo... E morrendo de dor. Morrer,  essa era a única ideia que me parecia sensata. Passei a noite ao som de Marilyn Manson e logo de manhã decidi ter paz.

A única paz que é verdadeira, sem arrependimentos, sem punição, paz.  Já que nada nesse mundo inútil poderia me fazer viver, e a única coisa que ainda me fazia querer viver – o amor dela – fui eu mesma que destruí. Peguei uma faca na cozinha e relembrei tudo sem querer, o sorriso cínico, o canalha sem camisa, ela nua na cama com ele... Tudo! Não contive o choro novamente e me joguei ali no chão da cozinha.

– Acorda! – era a voz dela, mas...?

– Acorda amor!  A gente vai se atrasar.

Ela estava na minha frente, na verdade em cima de mim só de camiseta e calcinha, aquele olhar doce me deixou paralisada,  aquele sorriso...

– Ai, – suspirei – ainda bem que foi só um pesadelo – sorri.

– Do que você ta falando amor? – perguntou ela, confusa.

– Nada, não importa mais – disse beijando-a na testa e passando as mãos em seus cabelos – o que importa é que você esta aqui comigo.

– Do que você esta falando? – perguntou novamente, dessa vez mais séria.

– Que eu fico feliz que você esteja comigo oras! – disse abraçando-a.

– Você se esqueceu de tomar seus remédios, filha? – sua fisionomia mudou drasticamente, e logo minha mãe apareceu ali, sentada ao meu lado.

Fiquei pálida, como podia?... Não consegui pensar em nada, minha mente tinha um buraco vazio, onde ela estava? Minha namorada?... Onde?

– Mãe? – ainda estava perplexa, o que ela fazia ali?

– Sim filha, o que foi? Andou tendo pesadelos é? – sorriu passando a mão na minha cabeça.

– Mãe, onde está Lucia? Minha...

– Você de novo com essa história de namorada? – Me interrompeu com tom irritado – vamos, levanta logo que já são quase 10 horas da manhã!

– Aonde vamos mãe? – ainda assustada perguntei.

– Você sabe, hoje é sábado, seu dia de passar com a família... – ela parecia calma, quase comovida.

– Onde estamos? – estava prestes a chorar, meus olhos já estavam ardendo, não sabia o que estava acontecendo...

– Filha, – deu um beijo em minha testa – você vive aqui, é um hospital psiquiátrico amor – ela começou a chorar – e de uns tempos pra cá você começou a falar dessa tal de Lucia, eu não sei quem é ela, nem se ela existe, mas, por favor, pare.

– Tá bom, mãe – disse abraçando-a e me levantei.

Aquele dia fiquei tensa, não sabia se era verdade, mas como minha mãe mentiria pra mim? Chegando em casa fui vasculhar o meu quarto na esperança de achar qualquer vestígio dela, qualquer coisa que me fizesse ter certeza de que ela era real, passei quase uma hora procurando e enfim achei uma foto dela escondida no meio de um caderno antigo. Ela existe! Eu sabia que sim. Se ela existe, posso descansar em paz. Pelo menos não a matei, eu sabia que não teria coragem. Sabia que era apenas um pesadelo, toda essa história de morte, de traição...

Fui até a cozinha, peguei uma faca e não segurei o choro. Eu estava nua, era manhã ainda e já tinha certeza que queria morrer.

Minha mãe chegou na minha casa sem avisar, e me viu jogada no chão, ensanguentada. Porém, viva.

Entretanto, posso dizer que preferia a morte, pois reviver esse pesadelo todos os dias é uma tortura, e viver sem ela faz tudo parecer menos real.


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