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O caixão na sala. O chão fugindo aos meus pés. Olhei em volta e todos fixavam o defunto em sua posição final de repouso. Onde eu estava até ali? Para onde eu fui naqueles breves momentos de suspensão? Por que minha cabeça doía? Aos poucos fui retomando a sensibilidade do corpo. Não conseguia distinguir os presentes com clareza. Ninguém chorava, apenas traziam o rosto carregado e grave. Alguns se protegiam por trás de óculos escuros. Encarei um homem em pé, próximo à passagem entre a sala e a copa. Parecia aborrecido com o simples fato de estar ali e procurava não esconder isso de ninguém. Olhei-o com curiosidade, pois ele não me parecia estranho. Aos poucos fui chegando à constatação de se tratar de um tio distante. Quem sabe isso justificava o ar de enfado. De repente ele percebeu que era alvo de meu olhar e, muito provavelmente, de meus pensamentos. Por isso resolveu se levantar e, com uma expressão irritada, sumir da minha vista. Talvez tenha ido embora de uma vez, conforme devia estar pensando em seu íntimo. Deslizei o olhar pelo cômodo na esperança de identificar algum outro parente ou conhecido, quando me deparei com o morto. Por paradoxal que isso possa parecer, eu não havia feito muito caso desse pormenor, de estar em uma celebração fúnebre, pois a súbita reunião de familiares havia me impressionado muito mais. Resolvi me aproximar do ataúde e ver quem estava em seu interior. Com um assombro de gelar o sangue, reconheci minha mãe. Afastei-me lentamente do caixão e procurei algum lugar para sentar. Acabei no sofá da sala, ocupado por uma só pessoa, uma bonita garota de cabelos castanhos. Ela usava óculos escuros e sorriu quando eu me aproximei. Não consegui retribuir o gesto de simpatia, mas isso pareceu não aborrecê-la. Imaginei que ela fosse outro parente distante.

Como minha mãe havia morrido? Ontem mesmo nós conversávamos banalidades no café da manhã. O clima entre nós estava mais agradável agora, depois de um longo período de constantes brigas. Terá sido alguma doença ou mal súbito?  Não creio, pois ela gozava de perfeita saúde, pelo menos até onde eu sabia. Ou talvez ela...

- Vai continuar me ignorando?

Era a moça ao meu lado. Havia tirado os óculos e me encarava com impaciência. Seus olhos pretos pareciam espetar-se em mim na medida em que eu demorava a responder. Achei estranho tal fato e resolvi arriscar uma pergunta.

- Quem é você?

Ela balançou a cabeça num claro sinal de desaprovação. Prendeu os óculos na camisa e virou o corpo para a minha direção.

- Ora, querido, não me diga que você está sofrendo de alguma espécie de amnésia causada pelo estresse pós-traumático? Eu sou sua prima Camila, ou melhor, sua namorada.

Ela sorriu maliciosamente. Tão logo uma onda de esclarecimento me invadiu. Eu estava num desses sonhos estranhos que se escondem nos lugares mais distantes do cérebro, lá onde estão trancafiados nossos desejos mais dolorosamente reprimidos e que, vez ou outra, burlando o policiamento interno, escapam. Era isso e nada mais. Respirei aliviado pela descoberta e disse a ela:

- Olhe Camila, eu acabei de perceber que isto não é nada mais que um sonho. Estou apenas imaginando uma vontade reprimida. Creio que nós nos encontramos em alguma festa familiar e eu tenha olhado pra você não como prima e guardei aquilo em meu inconsciente. Agora estou realizando aquele desejo em sonho. O que eu não entendo é por que a minha mãe estaria morta numa situação dessas.

Camila recebeu minhas palavras com calma e um leve toque de condescendência. Respirou fundo, se aproximou de mim e acariciando meu cabelo disse:

- Tudo bem, meu querido, tudo bem. Vamos imaginar que tudo isso seja um sonho, ou melhor, um sonho lúcido, certo? Pois bem, dizem que nele podemos acordar se nos concentrarmos. Por que você não faz o teste e descobre se é verdade ou não?

A proposta dela parecia razoável. Recostei-me no sofá e fechei os olhos. Relaxei todo o meu corpo e me concentrei em acordar. Passados alguns minutos, abri novamente os olhos e olhei ao redor. Tudo parecia igual. Olhei para o lado e lá estava Camila, do mesmo jeito que estava antes, apontando seus olhos pretos fixamente para mim. Desviei o olhar para o centro da sala e um novo assombro me tomou de assalto. O caixão com o corpo da minha mãe continuava lá. Ao ver a expressão em meu rosto, Camila sorriu satisfeita.

- Viu só, querido? Você acaba de comprovar que se encontra na realidade. Agora temos de tratar da sua amnésia. Aposto que, como não se lembrava de mim, tampouco se lembra do que aconteceu ontem, não?

Balancei negativamente a cabeça.

- Pois bem, sua mãe está morta, como você pôde perceber, e foi você quem a matou.

Senti como se um forte soco tivesse atingido meu peito. Olhava do caixão para Camila e dela para o caixão.

- Por quê? – foi tudo que consegui dizer

- Ora, porque eu mandei.

Ela sorria satisfeita consigo mesma. Eu estava completamente paralisado por dentro, não sentia nada, nem um fiapo de emoção. Apenas repeti a pergunta:

- Por quê?

- Imagino que poderei responder essa pergunta com outra pergunta. Por que precisamos dar sentido a tudo na vida? Por que não podemos simplesmente fazer algo de que temos vontade sem justificar nada para ninguém, nem para nós mesmos?

Eu a encarei atônito. Suas palavras me atravessaram como lanças em brasa. Senti um grande nó se amarrar com força dentro do meu cérebro. Minhas mãos escorriam de suor. Os olhos de Camila brilhavam de excitação. Sua presença se impunha de tal maneira naquele e em qualquer outro lugar, que tudo perdia a relevância. O mundo em volta parecia desabar somente com a força de seu olhar.

- Há quanto tempo namoramos? – foi o que consegui perguntar depois de muito tempo.

- Você não estava errado quando disse sobre ter me visto de uma maneira diferente – Camila respondeu recostando-se no sofá – isso foi há um ano, num churrasco em minha casa. Foi quando começamos a namorar.

- Alguém mais sabe disso?

- Não, somente nós dois. Eu planejei tudo com cuidado, sabia? Precisava fazer com que a polícia, ao chegar a sua casa, encontrasse um típico cenário de roubo seguido de morte. A idéia era simples: ladrões invadiram sua casa em busca de objetos de valor. Sua mãe acordou com os passos, se levantou para ver o que estava acontecendo e foi morta. Você, por outro lado, acordou por conta dos gritos, desceu achando que ela estivesse em perigo e levou uma forte coronhada na cabeça. Os bandidos te deixaram desmaiado e sangrando e fugiram.

Camila falava baixo, cadenciando suavemente as palavras, quase as saboreando como se fossem o chocolate mais fino e delicado. Sua voz era doce e melodiosa. Olhava seu interlocutor tão profundamente, que parecia lhe decifrar os segredos mais obscuros, mesmo os mais recônditos. Todas essas características a tornavam irresistível. Eu me sentia comprimido e impotente de estar ao seu lado. Depois de algum tempo voltei ao normal e disse:

- Quanto à arma, eu tenho certeza que não possuo uma. Nem minha mãe.

- Ora, seu bobo, a arma era do meu pai – Camila exclamou – eu trouxe comigo para o caso de precisarmos dela. Como eu estava de carro, colocamos parte dos “objetos roubados” no porta-malas, eliminando assim qualquer furo da nossa trama. Aliás, espero que você me perdoe por isso, meu querido, mas fui eu quem te deu a coronhada. Era necessário para o nosso plano funcionar, não se esqueça.

Ela sorriu e acariciou minha cabeça. Eu não tive muito tempo para pensar, pois ela logo se levantou e me puxou pela mão.

- Vamos, temos mais um trabalho a fazer.

- Trabalho? E que tipo de trabalho seria esse?

- Matar meu pai, ora essa.

Naquele instante senti um estalo dentro da minha cabeça. Esfreguei o rosto com as mãos e olhei novamente para ela. Camila era a mulher mais linda do mundo e eu o ser mais desprezível que uma vez pisou na face da Terra. Eu era fraco, minúsculo, um verme, um parasita, um nada sem vontade própria vivendo uma vida vazia. Eu precisava daquela mulher, eu precisava da sua vitalidade, da sua força, do seu tempero, eu deveria estar ao lado dela para crescer. Tudo a seu respeito exalava uma atração violentíssima, um magnetismo fantástico. Mandei todos ao redor para o inferno e a beijei ali mesmo. Ou melhor, tentei sugar de dentro dela um pouco de toda aquela energia, de todo aquele poder. Terminada a transferência, ela me encarou com olhar de satisfação e disse:

- Vamos, não há tempo a perder.

Enlaçamos as mãos. Antes, porém, eu lancei um último olhar ao caixão da minha mãe. Eu poderia viver muito bem com a falta de sentido. Mas o que ela acharia disso? Ora, essa não é pergunta a se fazer, ainda mais para um morto. Não faz o menor sentido.



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