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É noite fresca e calma sobre as águas mornas do mar vibrante. O doce silêncio do clima noturno é embalado por um vento de longas lufadas e rajadas sibilantes, que, soprando gemidos inexprimíveis, se misturam aos marulhos sussurrantes das ondas irrequietas. Duas aves noturnas, lado a lado, cortam os céus e rodopiando descrevem duas trajetórias que se entrelaçam, projetando-se uma na outra e planando em crescentes que se envolvem oscilantes, constantes, que vão e vêm rapidamente. À beira mar, se erguem imponentes paredões de pedra e terra calcada, compondo fortalezas escarpadas e porosas: as falésias, de saliências e reentrâncias que, delineando-se por toda superfície, se alongam e se estendem além do alcance das vistas. Incrustados no alto, uma fileira de inúmeros coqueiros, que incitados pela ventania úmida, enroscam-se entre si, remexendo-se bem juntos para lá e para cá, produzindo em uníssono palpitações ofegantes e suspiros sobressaltados.

Boiando no céu ― imensa e amarela ― a lua destila um largo caminho cintilante que se amplia e se espalha, recobrindo a superfície ondulante do mar iluminado. Suavemente, o soprar do vento calmo infla a vela alva da jangada solitária, que impulsionada através das vagas, segue pairando docemente pelas águas platinadas. O experiente jangadeiro a dirige com habilidade e elegância, manejando o remo, calibrando o mastro e enfunando as velas. De repente, com um giro veloz de quadril, arremessa vigorosamente a esparsa rede de pesca, que se projetando largamente no ar, plana um instante, antes de cair bem esparramada, afundando lentamente entre borbulhas e marolas. Joga, então, a rústica âncora ao mar, sentando-se tranquilamente ao fundo da jangada.

Pequenas arrebentações das ondas eriçadas, de encontro ao delicado casco de madeira, vêm arrancar-lhe ruídos úmidos de beijos estalados, pulverizando nuvens de gotículas tenuíssimas e jorros de água espumante. Absorvendo todos os vertiginosos estímulos da atmosfera que o cerca, o jangadeiro estremece com a água fria que lhe toca a pele, com o balanço das vagas que lhe entorpece, com a maresia cálida que respira, lhe preenchendo o peito arfante. Em seu íntimo, novas sensações tomam forma, instigando seus sentidos, invadindo sua mente, dominado todo seu imaginário. O fervilhar da cabeça o contagia; o coração badala vibrante; a pele se arrepia. Dele se apoderam a característica moleza do corpo e a peculiar mistura de calor e calafrios que se espalham da boca do estômago ao baixo ventre.

À sua mente sobrevêm, de um modo vivo, exuberante, uma mulher tão sublime e encantadora, como nunca vira antes. E embora agora somente em sua mente, como uma visão em um sonho, e já tendo estado incontáveis vezes com inúmeras mulheres, ele nunca sentira antes tão clara e vivamente o que há além do físico, visível, palpável: a idéia, a idéia de mu lher, a mulher em sua essência. Talvez por que desta vez não seja uma mulher em particular, mas sim a mulher; a mulher em sua mais pura essência. Algo assim não poderia ocorrer noutro lugar, mas somente ali, naquele mar, onde maravilhas acontecem. Dele ninguém escapa inerte, de lá ninguém sai como entrou. Ele envolve, arrebata, inebria e encanta. Explora o que há de mais íntimo e oculto, as debilidades mais sensíveis, as carências mais sôfregas.

A idéia no inicio é vazia, indefinível. Mas aos poucos, diante de sua mente encantada, num doce êxtase crescente, vai tomando forma. Através dela vão se delineando os contornos sinuosos dos traços feminis, componentes não do corpo, mas do conceito, da essência da mulher. Olhando ao redor, o jangadeiro repara a vastidão do mar, entende que por mais que o explore, jamais o conhecerá por completo. A isso associa a mulher, detentora de incontáveis segredos, insondáveis mistérios. Chama-lhe ainda a at enção o notável modo como o mar alterna entre a mais suave calmaria e a mais terrível das tempestades. Assim também vê a mulher: terna, frágil e delicada, mas capaz de incríveis demonstrações de força e valentia. Como o mar, a mulher também tem seu ciclo; aquele entre marés altas e baixas, esta com variações de humor e disposição. E mais, é do mar que a vida veio, assim como da mulher que a vida nasce. É tudo isso que torna a ambos tão complexos e encantadores, tão admiráveis e magníficos.

E bem no clímax do pensamento, um delírio incrível o surpreende. Sente que entre mulher e mar não há mais diferenças, mas somente semelhanças. Ambos se fundem num só, o envolvendo, instigando, seduzindo. Olhando o mar que o rodeia, sente a presença da mulher em sua mais sublime plenitude, a feminilidade fluida, que toma todos os cantos, preenche todos os espaços. Agora já não existe mais nada além deles. Seu corpo inteiro reverbera. De ponta a ponta da espinha, corre um arrepio espasmódico de puro instinto, o mais primitivo e essencial dos desejos, o impulso de com ela tornar-se um só. Rápido, o jangadeiro atira-se de cabeça no meio das águas.  E no mais alto grau de prazer, seu corpo todo envolvido, sente, então, finalmente: o mar é sua amada e sua amada é o mar, o maravilhoso mar do amor.


Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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