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Os olhos fechados movimentam-se rapidamente. Aos poucos a ausência cede à consciência e ele se vê num cruzamento de ruas escuras, desertas. Olha para o alto e percebe um céu leitoso, coberto por densa névoa que envolve uma lua opaca, sem vida. Subitamente uma espécie de vertigem nauseante o desequilibra quase o fazendo ir ao chão.

Uma sensação opressiva apodera-se de sua alma, como uma apreensão que lhe instiga os sentidos e lhe inquieta, fazendo-o caminhar á principio lentamente, mas que mais e mais lhe aperta o passo á passo apressa-se com peito palpitante, corre tonto, pisa forte, foge pasmo, segue tensa e secamente, respirando arduamente inspirando instigado, expirando espantado, arquejando apavoradamente cai.

Sibilante sopra um vento gélido que faz tremer de frio o corpo prostrado no negro asfalto da rua esburacada. Vagarosamente se ergue e assombrado olha a sua volta, distinguindo alguns préd ios, que de tão deteriorados, lhe espanta o fato de ainda estarem de pé. E por suas janelas, das quais não se percebe a mínima iluminação, vê-se que se tratam de construções fantasma. Ouve o farfalhar de folhas secas que o fazem notar uma fileira de árvores retorcidas, aparentemente mortas, por terem folhagens completamente murchas e enegrecidas. Um desconforto no estômago e um gosto amargo na boca o fazem escarrar uma pasta avermelhada de pus e sangue.

O incômodo intensifica-se numa dor crescente que lhe afeta o movimento das pernas, tornando sua locomoção cada vez mais sofrida. Aos poucos, um forte odor de carne podre vai assumindo proporções intoleráveis, quando como que grunhidos horripilantes lhe apavoram, fazendo-lhe correr o máximo que suas forças e as dores excruciantes permitem.

Uma chuva muito fina passa a cair, com gotas cortantes que queimam sua pele até a carne viva, ardendo insuportavelmente corroendo, provocando-lhe es pasmos de agonia sempre crescente. Ele regurgita um líquido viscoso, horrivelmente amargo, que lhe engasga, lhe sufoca.

Ouve o barulho sinistro de vozes sussurrando palavras ininteligíveis, juntamente com vultos aterradores que lhe cruzam o caminho, passando a lhe rondar o derredor, quando como que ranger de dentes e gritos terríveis lhe enlouquece completamente, ao aspirar um odor pestilento de uma exumação cadavérica, fétida, infecta, imunda, e ─ horrível─ sente que o cheiro vem de seu corpo que apodrece inteiramente, perdendo-lhe a sustentação, fazendo-lhe se espatifar numa enorme poça de lama.

E lá seu corpo dissolve-se lentamente numa massa pútrida de ossos e carne purulenta.


Contos Estronhos - Contos e Crônicas

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