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– Hoje acordei cansado, com uma sensação de sufocamento, como se uma corda apertasse meu peito. – disse o zé fobia .

Zé fobia não conseguia se divertir, não conseguia fazer amigos, não conseguia encontrar uma companhia, não conseguia assumir os perigos inerentes a vida, nem suportava a temporalidade das coisas. Era muito doloroso ver tudo passar algum dia. Por isso, tentava se proteger, da realidade impermanente, lendo, lendo, lendo. Seus pais, no início, tentaram ajudá-lo, mas foi em vão. Zé era muito teimoso. Como já tinha lido vários livros, sempre tinha um bom argumento na ponta da língua, e quando os chavões filosóficos não funcionavam, utilizava-se do desdém, fazia cara de “dono da verdade”, e tossia cheio de razão, como se desejasse, inconscientemente, refutar aqueles olhares perscrutadores. Mas hoje ele acordara decidido a dá um ponto final em seu mal estar que se pro longava a anos e se intensificava em datas comemorativas e finais de semana. Juntou seu currículo, colocou aquela calça de linho, amarrou a gravata e saiu para procurar emprego. Ele tinha boa aparência, principalmente porque evitava ao máximo alimentos gordurosos e bebidas fortes.

Ás onze da manhã, voltou pra casa muito contente. Conseguira, depois de algumas tentativas, um bom emprego. Prometera para si mesmo dedicar-se doando seu sangue, suor e lágrimas. Os dias seguiram e Zé que era fobia, começou a ter medo da violência. Deixou de sair a pé de casa, e nos finais de semana, escondia-se na casa dos pais, num vilarejo bem pobre, sem TVs ou computadores. Assim, ele se sentia mais seguro. Mas na vida de Zé ainda faltava algo. Um dia, quando passava por uma instituição de caridade, resolveu entrar e teve a brilhante idéia de integrar-se como voluntário nessa causa filantrópica. Assim, nas horas de folga, se dedicaria a auxiliar os mais necessitados e não teria tempo para as diversões mundanas que tanto o incomodavam. Alguns meses depois, quando não estava no trabalho, fazia-se presente na instituição. Seu dia estava completo mas ele ainda sentia a falta de algo. Num dia de domingo, viu sua mãe se arrumando no quarto. Ela disse-lhe que iria para a missa. Zé teve um “lampejo divino”, segundo suas próprias palavras, ele entendeu que era Deus que estava faltando em sua vida. Acompanhou, naquela manhã ensolarada, sua mãe á igreja. Assistiu a celebração e descobriu que havia muito a se aprender nas pregações, a fala do orador era bem habitual, mas para ele parecia coisa de outro mundo. Ele ouviu coisas que nunca tivera ouvido. Logo depois do término procurou o responsável pelo templo, ofereceu-se para participar do grupo local, falou de sua vontade de ajudar a comunidade através da religião, mas falou com tanto entusiasmo e brilho no olhar que convenceu a todos e assim f oi aceito no grupo.


“De agora em diante, nunca mais sentirei esse vazio, essa sensação de aperto, de falta de algo...” pensou nosso Zé. Em sua cabeça, sua vida estava resolvida. Trabalharia de segunda a sexta no emprego, com algumas horas extras que ele não dispensava nem reclamava, porque era mais um tempo para se ocupar. Quando de folga, ajudaria na instituição, vestindo-se de palhaço para arrancar alguns sorrisos de crianças leucêmicas, acompanhando alguns enfermos no hospital, fazendo visitas aos encarcerados. Além de participar dos encontros religiosos semanais.

“Nunca me senti tão seguro[...]se internar numa igreja para fugir das tentações do mundo, ocupar-me num emprego de tal maneira que não tenha tempo para pensar em mim, ajudar os pobres e fracos para me distrair dos apelos de meu coração e não dar ouvidos ao clamor de minha alma, me dá uma tranquilidade enorme[...] Trabalhar, louvar a Deus, faz er caridade é o melhor meio de fuga que existe para não enfrentar-mos os altos e baixos da vida, além de convencer a nós mesmos que somos pessoas felizes e de bem com a vida”


João Márcio F. Cruz
Bacharel em letras, licenciado em latim, grego, inglês e literatura
Escritor e palestrante, autor do livro Os Quatro Pilares da Educação


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