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Tenho plena consciência de que este relato será futuramente de forma errônea ser tratado com senso inverídico porem devo ressaltar mesmo que relutante de que eu mesmo achei loucura.

Sou um historiador e como tal extremamente cético com trinta e cinco anos com sabedoria suficiente para distinguir o real do irreal. As pessoas sempre temem algo, o homem nascera para temer ou a menos assim acredita-se –, mas claro nenhum mal o afetará caso se tenha Deus no coração, a entidade que dominará qualquer força maligna que tente se apoderar de suas criações. Mas e quanto aos antigos deuses egípcios, e o Sasquatch e o monstro do Lago Ness, e as pessoas que afirmam que o planeta é dominado por uma conspiração de seres chamados reptilianos. Alienígenas são donos de nosso planeta e um dia irão reclamar a Terra para seu poder assim pessoas clamam e dizem ainda mais, dizem que tais seres ajudaram os antigos egípcios fornecendo tecnologia para a construção das pirâmides e qualquer outra faraônica construção. E claro ainda há quem acredite que o Cthulhu Mythos seja algo estritamente real.

O que trago comigo é muito diferente, pois transcende a linha imaginaria, transcende a linha da racionalidade e da saúde mental. O ser humano está sempre em busca de conhecer sua real origem e origem de tudo como conseqüência. Mas talvez melhor apenas viver e não manter tal obsessão pelo passado – que pode ser muito mais sombrio do que o homem jamais viu, a simples menção da verdade o faria tirar a própria vida? – Diga-me quando entender minha estória, não me leve a mal, mas creio que sanidade é algo subjetivo.

Eventos inexplicáveis, tórridos, e às vezes fúnebres varrem o planeta todos os dias isso é fato; outro fato é a ignorância sobre o inicio do que chamamos de Universo. Já superamos alardes irracionais e desnecessários de charlatões referentes ao fim do mundo; o fim viria na passagem do ano de 999 para o 1000, depois na passagem de 1999 para 2000 – onde um homem conseguiu convencer boa parte da população menos educada de que o fim estava realmente próximo, mas como bem sabemos nada ocorreu.

Estou a descrever fatos que num futuro próximo significará o fim do mundo como o conhecemos, mas não significando que a Terra deixará de existir, muito pelo contrario apenas mudará e não para melhor, isso eu lhe asseguro.

Em 2001 no auge de minha carreira como historiador com 35 anos de idade. Estava trabalhando em uma tese sobre os cultos das antigas civilizações; visitei vários países para elaborar minhas dissertações; fui ao Peru, Estados Unidos, África do Sul, China e muitos outros. Enquanto estava nos Estados Unidos em tempo de voltar para minha Inglaterra descobri pequenas citações escritas a mão em um antigo livro sobre civilizações e seus cultos religiosos; dei determinado credito as anotações, pois me pareceram extremamente antigas. Tratava-se de um culto de habitantes perdidos que habitava uma ilha seguindo o extremo sul do Canadá próximo a Groelândia. Eu obviamente já havia estudado civilizações primitivas as quais se utilizavam de sacrifícios até mesmo humanos para seus deuses, como os Astecas, mas diferindo dos Astecas que até crianças já ouviram sobre; a civilização perdida do mar gelado não estava em nenhum livro ortodoxo de historia e também não se encontrava nos menos ortodoxos.

Minha cabeça dava voltas, meu coração pulsava, e eu tremia só com a mais longínqua possibilidade de descobrir uma civilização perdida nunca antes estudada. Meu instinto e minha fome pelo conhecimento logo me colocaram na viagem que eu desejaria jamais ter feito; seria o começo de meu fim. As menções que li eram extremamente breves – poucas palavras. Breves menções, mas que foi o suficiente para me aguçar o desejo. Claro, o principal fato que me levara a tentar estudar mais a fundo isso foi o fato de passar dois meses procurando o quer que fosse para montar uma base para minha nova empreitada, mas não encontrei nada, absolutamente nada. Mandei um estranho símbolo que estava rabiscado junto às citações para vários colegas e alguns notáveis arqueólogos, e estudiosos de símbolos antigos, mas não obtive nenhuma positiva, ninguém conhecia o bizarro símbolo. Esse fato foi o gatilho para meu estopim, não pude me segurar tive que arrumar minhas malas e p rocurar o local perdido. O símbolo não saiu de minha cabeça nem um só segundo era um “S” invertido bem fechado quase um símbolo de infinito, e um “3” invertido cruzando o “S” completava a coisa.

Com as malas arrumadas eu fui a Universidade de Londres onde eu lecionava historia antiga e chamei dois não graduados para me ajudar na pesquisa. Eram eles Josh Mathews e Mary MacNeice, dois dos melhores estudantes de historia e ambos queriam especializar-se em civilizações antigas, então aceitaram de bom grado minha empreitada. O único arquivo que tinha era copias das paginas daquele livro velho, e foi com isso, apenas com alguns rabiscos em mãos é que fomos à famigerada viagem.

O mais difícil com certeza foi achar o tal lugar perdido; o culto supostamente era praticado por um povo que vivia numa ilha no Oceano Glacial Ártico próximo a Groelândia pelo que entendi olhando as citações. Nós teríamos que procurar, precisaríamos de um bom barco e bom navegador, um capitão com experiência. Fomos para o Canadá a fim de acharmos um capitão com embarcação que aceitasse o desafio; até que não fora difícil logo encontramos, o nome dele era capitão Gary Hartman, um lobo solitário como diria em tempos passados.

Eu estava convencido de que o local, o exato local era a noroeste da Ilha de Ellesmere, mas não havia nada em nenhum mapa novo ou antigo, Josh e Mary estavam um pouco céticos, mas eu tinha experiência, um doutorado e muita competência, tinha prestigio nos círculos acadêmicos, então eles se convenceram.

Navegamos por dias pelo Mar de Beaufort, navegamos quase em linha reta até chegarmos próximo ao Pólo Norte, então mudo o curso alguns graus rumo a Ilha de Ellesmere para darmos as devidas voltas e encontras a civilização perdida.

A caminho de Ellesmere o frio tornava-se cada vez mais intenso, mal podíamos sair à proa para olharmos mais de perto a paisagem exuberante; os óculos de proteção e todas as camadas de roupa nos atrapalhavam imensamente, então observávamos pela cabine do capitão. Passamos três dias dando voltas nos arredores – por assim dizer – de Ellesmere, mas nada encontramos, pelo menos assim nos pensamos.

No quinto dia rondando Ellesmere até mesmo eu já estava a ponto de desistir, mas algo estranho ocorreu, encontramos algo muitíssimo suspeito, já havíamos passado por aquela área, mas naquele dia foi diferente.

‘Um nevoeiro estranho’ — dizia Josh. Olhamos atentos e não podíamos acreditar; conforme nos aproximávamos do nevoeiro parecia que uma imensa ilha emergia agitando o oceano – talvez fosse apenas uma ilusão, talvez fosse o cansaço da viagem, talvez estivéssemos mareados, foi o que pensamos ao menos por hora.

‘Com certeza é ali’ — Eu disse.

‘Claro, o senhor estava certo’ — Disse Josh.

Mary mal podia falar, ficou muito impressionada, só queria me agradecer pela oportunidade, mas disse a ela que não era bem assim, ainda tínhamos que confirmar a existência da civilização perdida e de seu culto. Mas não adiantou estávamos em ponto de soltar fogos de artifício de tão contentes; até mesmo o capitão se surpreendeu. Ele disse:

‘ Esse velho lobo do mar, agora já viu de tudo!’

Aquele momento de felicidade não valeria o que estava por vir.

A ilha parecia grande, mas quando atracamos percebemos quão grande era, eram quilômetros e mais quilômetros de gelo, cadeias de montanhas, mas nenhum animal a primeira vista. Logo após prendermos a embarcação nó descemos carregando uma câmera filmadora especial para filmagem em locais de frio intenso. O incrível era que naquela ilha o frio não era tão intenso – de fato o frio era muito mais baixo do que o frio que enfrentamos a viagem toda.

Bem, nesse momento passamos a andar de vagar com cordas presas a nossa cintura. Após aproximadamente trinta minutos de caminhada vimos um par chamas vermelhas dançando no horizonte escuro pareciam olhos vendo nossas almas ou pior. Andamos curiosos naquela direção, que revelou um imenso templo quase monolítico. Um gélido ar cruzou minha espinha e tremi com o tremor uma sensação de inacreditável insegurança.

Duas altas torres negras – altas que fugiam da vista engolidas pelo lúgubre escuro céu – situavam-se dos lados de um estranho templo que não parecia com nenhum templo antigo ou moderno – não pertencia a nosso mundo. Passamos a andar mais rapidamente e em menos de dez minutos estávamos frente a mais bizarra construção que o homem já vira.

A porta do templo não era proporcional a seu infinito tamanho ou talvez aquela porta que nós enxergamos entreaberta fosse apenas uma entrada de cachorro. Mas o fato era que era proporcional ao tamanho humano.

Levamos um susto quando tambores começaram a emitir um distinto som, vozes ecoavam de dentro do templo, de repente um clarão vindo dentro assustou nos assustou ainda mais, a chama vermelha de mesmo tom macabro das que estavam do lado de fora do templo.

Josh deu um jeito de apontar a câmera para dentro do templo e nós observamos por seu pequeno monitor o que acontecia lá dentro. Localizado bem ao fundo existia um altar de pedra negra irreconhecível, nunca vira tal pedra – bem eu não sou geólogo, mas ao longo de minhas viagens já tinha me deparado com vários tipos de construções mais nenhuma como aquela. O altar tinha um ídolo abominável, muito estranho era pouco antropomórfico, havia braços e pernas como nós, mas mãos – se é que podíamos chamar aquilo de mão – era como garras, braços espinhosos estilizado de forma incomparável, a cabeça era de natureza absurda comprida com uma pequena divisão no topo, não havia boca nem nariz, apenas olhos em forma de losango, o tronco coberto por o que me parecia veias, nervos; asas, incríveis asas venosas lhe fechando o corpo como um casulo, os pés estavam em um tom avermelhado destacando-se do resto. Quando forcei a vista para tentar entender o que se pa ssava um sentimento lôbrego assolou minha mente, era sangue tinha sangue aos pés da funesta estatua de três metros de altura.

Os tambores tornavam-se cada vez mais audíveis, o ruído era perturbador e não se assemelhava com os de antigas tribos indígenas ou passadas civilizações africanas. Concentrei-me para ver o que realmente se passava, todos a minha volta estavam apreensivos com exceção do capitão que estava a alguns metros de distancia fumando um cigarro.

A luz avermelhada vinda de dentro do templo ficou mais intensa e pudemos enxergar com mais clareza o interior do lugar; o ídolo se tornou mais abominável com a iluminação e finalmente percebemos que havia pessoas lá dentro. Vestindo um traje muito parecido com os dos freis franciscanos, os estranhos dançavam ao som dos tambores; eles estavam circulando um pequeno e baixo altar aos pés do ídolo; meus olhos saltaram quando vi o que havia no altar um homem e uma mulher nus deitados lado a lado. Um dos encapuzados carregando uma adaga de modelo peculiar cortou a garganta dos dois, o sangue escorreu vagarosamente tingindo os pés do ídolo.

Não pude acreditar no que via, e meus colegas também não, Mary virou o rosto desviando o olhar da cena abismal, Josh continuou gravando, mas percebi que suas mãos tremiam. Olhei para o céu por um momento e percebi que havia algo diferente naquele local, não era uma noite comum a lua parecia estar viva, e algumas estrelas formando uma espécie de constelação altamente regular tingiam todo o céu sobre o templo de escarlate; lembrei-me do apocalipse descrito na bíblia, meu corpo tremeu mais do que qualquer outra vez.

Enquanto o sangue derramava-se generoso sobre os pés do alienado ídolo os membros do culto entoavam um estranho hino em uma língua indistinguível da qual não pude captar muito mais o essencial soava-me assim:

La’ We’Ntroth Ce’Rhylalltoth E’Beagoth N’ S’Vtirtoth O’ N’Lsthitoth

Isso era repetido várias vezes e depois a cerimônia continuava com outras frases que não consegui distinguir ou talvez não quisesse ouvir. Eu olhei para baixo e vi algo estranho era como se o templo estivesse vivo, vi embaixo de meus pés, eu vi o templo ramificando-se formando veias que lentamente tomavam conta da superfície da ilha gelada.

Olhei para todos e tremendo disse:

‘Meu Deus! Vamos embora daqui, AGORA!’

Todos assentiram pegamos a câmera e saímos em disparada em direção ao barco. Quando estávamos próximos da embarcação percebemos que a ramificação do templo continuava a crescer cada vez mais depressa; alcançou-nos e Josh caiu tentei puxá-lo mais não consegui, ele foi arrastado pelo templo; Mary chorava desesperada gritando por Josh que já não estava mais ali. Chegamos ao barco dificuldade e saímos o mais rápido possível. Olhei para traz e vi, a ilha inteira fora tomada pelo templo, agora era uma ilha soturna de cor negra. Aquela grotesca estrutura de tamanha altura que se perdia de vista parecia tingir o céu, em volta de suas torres uma auréola vermelha escarlate se formara. Nunca vi tal coisa, aquilo era sobrenatural, não, não era desse mundo e nem do mundo dos mortos, era de outro lugar ou lugar algum.

Escrevo essa ultima parte de meu relato com tamanha pressão que mal posso respirar, pois sei que logo estarei morto, espero sinceramente que ninguém encontre esse texto, mas se o acaso decidir que alguém deve lê-lo que o faça de maneira cética e não busque informações adicionais para não ter o mesmo destino que o meu.

Logo descobri que as palavras que ouvi We’Ntroth, E’Beagoth, S’Vtirtoth e N’Lsthitoth eram nomes, nomes de deuses ancestrais que vieram de lugar algum segundo eu entendi, os antigos egípcios eram seus guardiões aqui na Terra; a sabedoria dos quatro antigos vindos de lugar algum é imensa são verdadeiramente oniscientes e deram um resquício de sua inteligência aos egípcios habilitando-os a construir suas construções e realizar inacreditáveis atos científicos como bem sabemos.

Os quatro vindos de lugar algum não se comunicam com palavras mais sim telepaticamente – daí vem à crença de que deus ouve nossas preces mesmo estando no céu; concluo que os quatro antigos vindos de lugar algum são assim chamados porque já existiam antes do processo que deu inicio ao nosso universo, ao nosso planeta e a nós. Pelo que compreendi em minhas pesquisas póstumas ao evento na ilha gelada, Ce’Rhylalltoth é o núcleo de onde o domínio dos vindos de lugar algum se espalha. Durante os meses de pesquisa que fiz descobri inúmeros fatos que me levam a crer que o fim se aproxima, não existe a mão de nosso bondoso deus, mas sim os vindos de lugar algum, as Supremas Entidades irão em breve reclamar seu império, essas criaturas escravizarão a raça humana por completo. Ao que tudo indica cada vez mais teremos eventos naturais e humanos que indicarão a chegada dessas entidades. Ondas gigantes, guerras, terremotos e mu itos outros desastres varrerão a face do planeta até que o dia chegue. A lua se alinhará com as estrelas escarlate de lugar algum e o mundo como bem conhecemos nunca mais será o mesmo. Acredito que o exato ano será duas décadas após a passagem do século XX para o XXI.

Estou agora em 2001 e não quero esperar para ver a aberração, tenho pena de nossa raça, temo por nosso amado planeta, mas agora entendo o quanto somos insignificantes perante a vastidão da existência; entendemos o tempo geológico e histórico, mas e o que veio antes? A resposta me assombra e não consigo mais ter paz, juro que vi os vindos de lugar algum em meus sonhos com tamanha clareza que julgo não ter sido sonho, vi a carnificina que acometerá os desobedientes, vi as monstruosas construções que perseguem minha sanidade e por esse motivo não posso mais viver.

Meu frasco de morfina está vazio logo tudo isso acabará, ao menos para mim. Sinto muito.



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