Banner
(4 votes)


— Droga! — Gritou Charlie.

— Não se sinta tão mau, não é nada de mais. — Acalmou-o Susie.

— Mas você é tão linda e nem consigo corresponder, não consigo satisfazê-la. — Charlie falou com as lagrimas formando-se em seus olhos.

— Ouh, não seja tão severo consigo mesmo, é normal, acontece com todos.

— Mas porque comigo? Logo eu? Eu te amo Susie, perdoe-me.

— Calma Charlie, não precisa ser assim, você já está exagerando, já disse, não há nada de mais. Eu te amo, amo você, sabe, nem tudo depende de sexo. — Charlie parecia inconformado, envergonhado, neutralizado.

— Não é fácil, sabe? Susie eu... Eu só... — Sorriu deixando a tensão dissipar-se; sorriu duramente na verdade.

Susie se posicionou para levantar da cama king size, sacudindo-se nas molas, quando chegou à borda no lado de Charlie – que permanecia sentado paralisado, Susie beijo-o na bochecha esquerda, levantou e saiu.

(Não acredito, comigo, por quê? Droga!)

Susie voltou assim que passou pela porta para perguntar:

— Querido, querido? — Charlie estava viajando em seus pensamentos, ponderando as conseqüências do incidente, os porquês corriam em sua mente de forma profunda e agitada, obviamente aquilo o deixara muito perturbado, queria agora caçar os demônios para achar suas respostas. — Quer um pouco de chá? Ou café? — Ele virou-se, em seus passeava o medo de nunca mais conseguir, de nunca mais ter a capacidade para gerar sua prole de forma natural.

— Não, estou bem.

— Tá, mas tente não pensar, ais nisso, acredite é normal. — Susie saiu, mas sua dica era ignorada por Charlie que continuava a encher sua mente de fantasmas.

(Como pode, como pode ser isso.)

Charlie era um executivo, um homem de negócios do Financial District de New York City mais precisamente na Wall Street. Charlie era conhecido por seu tato em negócios que pareciam perdidos e arriscados, mas mesmo assim conseguia bons lucros com eles.

Charlie, um homem que se exercitava sempre que podia alto e forte no auge de seus 32 anos. Adepto de uma dieta vegetariana estrita, jovem ainda, muito saudável, muitos mais que seus gorduchos colegas de profissão. Tinha os cabelos lisos e sempre bem penteados, apesar de não parecer Charlie não ligava para sua aparência, apenas para a saúde, tinha alguns dentes tortos porem livres de caries, não fazia o tipo exibicionista.

Sua esposa sempre dissera que Charlie era um espécime raro do qual ela teve a felicidade de descobrir. Susie a mulher de 1, 65 que não usava muita maquiagem, pois sua beleza natural a impedia, não permitiria tal pecado. Os dois formavam o casal perfeito, jovens e bem sucedidos, o executivo e a professora universitária.

Estavam em época importante de seu matrimonio, queriam um filho ou dois. Planejaram por certo tempo e haviam decidido que estava na hora; as carreiras iam bem – de vento e polpa para falar bem a verdade, sendo assim o relógio biológico dos pais apitava como assovios de torcedores de baseball, gritando para que tivessem a graça da família em suas mãos.

O dicionário de língua portuguesa Houaiss define tafofobia como terror doentio de ser sepultado vivo.

Charlie vivia no Diamont District em New York City com uma distancia dirigível de aproximadamente 20 minutos do seu escritório em Wall Street, o homem de negócios na verdade não precisou se esforçar tanto para alcançar seu lugar ao sol no famoso distrito financeiro de New York.  Logo após Charlie graduar-se na NYU (New York University) um de seus tios faleceu deixando-lhe uma boa herança, que foi devidamente aplicada, rendeu, uma coisa levou a outra e Charlie acabou se tornando um ótimo homem de negócios, um dia provavelmente seria um dos maiores do estado.

Charlie havia acabado de adquirir um carro novo, um modelo que acabara de sair. Um discreto porem lindo BMW M5 1990, negro como a noite, as rodas estrela brilhavam mais que o próprio céu estrelado, seus faróis frontais redondos com uma grade elegantíssima entre eles dividindo-os ao exemplo de um rio que corta a floresta. Definitivamente um carro de status, mas acima de tudo elegante e confortável, somente quem o guiara sentia uma inevitável sensação de poder nas mãos.

(Talvez uma boa volta de carro me tire essa merda de pensamento da cabeça.) — Pensava Charlie. Deixara levar-se pela pressão, o acontecimento da cama o fez sentir-se a ponto de explodir.

(Não, não é para tanto assim, – sorriu intricado passando a mão na testa – foi só uma fez, só uma vez. Mas e se não conseguir dar um filho a Susie, – balançou a cabeça de leve – não! Pare com isso Charlie!)

Susie havia preparado uma xícara de chá e ido assistir TV, mas acabou dormindo no sofá da sala de estar. Charlie vestiu uma calça, pegou uma jaqueta no closet, passou rapidamente a mão nas chaves que estavam no criado-mudo e saiu. Parou na sala de estar, desligou a TV e arrumou a manta que cobria Susie. Saiu do apartamento, descendo até o estacionamento. Entrou em seu carro para rumar a lugar algum. (Central Park, Financial District, talvez Manhattan? Preciso tirar aquilo de minha cabeça!)

Charlie estava dirigindo pela Madson Avenue (Cacete! Tenho que tirar da cabeça, foi só uma vez PORRA!), não se sentindo muito bem e dirigindo em velocidade alta, – quase passava o limite da avenida – sentindo que não aquentava mais virou bruscamente na E 94th Street, cantando pneu em uma freada pra lá de bruta, Charlie parou no acostamento; – sacudindo-se todo preso ao cinto de segurança parecendo uma marionete velha.

Com a respiração ofegante levou a mão esquerda ao peito – seu tórax subia e descia de forma espantosa, um balão que logo arrebentaria – arfando Charlie buscou na porta utensílios seu telefone sem fio – um aparelho estranho que boa parte dos homens de negocio tinha, modelo novo um Motorola MicroTAC, a tecnologia era promissora e prometia invadir o mundo nos próximos anos – ligou para Susie, mas não obteve resposta, ligou então para a emergência 911.

— Eu... Presi... so de aju... da na E 94th Stre... et. Charlie largou o telefone, desmaiou, ficando paralisado, ali em seu carro, olhos abertos arregalados feito uma coruja no breu da sombria noite. Pensou estar morto, raciocinava, pensava, mas não piscava, não movia um músculo; um verdadeiro morto-vivo. Tentou gritar por socorro de forma inútil, ninguém o ouviria, tentara gritar e gritar, mas sua língua permanecia deitada em sua boca repousando feito gato morto a beira da estrada.

— Alô? Senhor? Senhor...? Rápido, uma ambulância na E 94th Street, parecia um enfarte.

(O que acontece? Que droga é essa, Socorro!) – Somente pensava, a mente existia porem o corpo não respondia, nenhum movimento, nem mesmo uma simples piscadela; desmoronado dentro de seu carro Charlie só pensava se assim era a morte, podia sentir, mas não agir.

Talvez sorte fosse o sobrenome de Charlie já que sua ligação foi recebida e uma ambulância estava a caminho, vinha do Metropolitan Hospital Center localizado na E 97th Street bem próximo de onde Charlie estava.

— Viatura nº 0121 dirigindo-se para a E 94th Street, possível enfarte.

A zoada da sirene da ambulância já se fazia audível.

(Não vai demorar, não quero morrer!)

Em poucos minutos a ambulância chegou ao local; o paramédico que dirigia desceu rapidamente – era um homem robusto, alto de uns 90 Kg, branco como leite, o que vinha na unidade de emergência móvel era baixinho, mas também branco uma pouco mais normal. Velozmente os dois desceram a maca, então foram até o carro de Charlie; o vidro do motorista estava entreaberto e o baixinho destravou a porta e a abriu. Checou o pulso.

— Sem pulso! — Disse o baixinho fitando o robusto de forma alarmada.

(Sem pulso? Vocês tão loucos, eu to mais to que vivo, posso sentir seu toque!)

— Vamos removê-lo, agora! — Respondeu.

— Claro.

(Isso ai, me levem para o hospital, aos médicos)

Retiram o cinto de segurança e com cuidado colocaram Charlie na maca. O baixinho entrou na traseira da viatura.

— 1, 2, 3! — Os dois contaram e então levantaram a maca colocando-a na ambulância. O motorista fechou as portas e imediatamente dirigiu-se ao volante; parecia aflito apesar de ser seu dia-a-dia corriqueiro. Bateu a porta, pôs o cinto, ligou a sirene, engatou a marcha e saiu avoado.

— 1, 2, 3! — O paramédico tentava reanimar Charlie com desfibrilador, inútil, ele não respondia. — Acho que ele está morto...

(Morto!? Você tá doido! Eu to vivo, vivo, o que tá acontecendo comigo? Porque não me ouvem?)

Ah!!! — Susie acorda sobressaltada, num impulso em absoluto descontrolado ela chama por Charlie.

— Charlie, Charlie, Charlie... — Charlie não estava em casa. Susie correu até o telefone na mesa de café. Não havia nenhuma nova mensagem na secretaria eletrônica, mas mesmo assim Susie sentiu algo, algo perturbador, um mau presságio sobre Charlie. — Charlie!

A ambulância chegara ao Metropolitan Hospital Center, mas os paramédicos estavam sem esperança alguma. Assim que encostaram a viatura enfermeiros e médicos saíram do hospital, rapidamente levaram a maca de Charlie para dentro; um enfermeiro bombeava oxigênio em Charlie, que ainda sim não respondia. O médico buscava sinais vitais, mas tudo indicava o óbito, os paramédicos que o levaram ao hospital apenas observaram Charlie ser levado à emergência.

— Tão jovem. — Disse o baixinho

— Pois é, parecia tão saudável e agora ali, só um corpo.

— è a vida, toda vida acaba, toda vida acaba. — Baixinho balançou a cabeça pesaroso. — Preciso de um café.

— Vamos então. — Saíram os dois.

O tilintar das rodinhas da maca era nauseante, passava pelos sulcos das junções no chão do hospital, o corpo de Charlie balançava de um lado a outro como um boneco de pano, enquanto médicos e enfermeiros corriam contra o tempo para salvar sua vida.

Quando chegaram à sala de emergência era tarde, Charlie foi dado como morto.

Susie tentou ligar para Charlie varias vezes, mas o telefone aparentava estar desligado. Susie se vestiu e desceu para confirmar que Charlie tivera realmente saído; neste momento ela sentiu um vento estranho, algo que correu por sua espinha e proporcionou uma imagem de funeral, os fantasmas invadiram sua mente, indiscutivelmente pensava em Charlie.

— Horário de falecimento, – olhou o relógio na parede – 23h58. — Falou convicto o médico retirando o estetoscópio do peito de Charlie.

(Morto? Eu não to morto seu imbecil, não está vendo, hei! To falando com você, porque não me ouve? Ahh! Não!!!)

— Morto? — Indagou o enfermeiro; um jovem barbudo de cabelos avermelhados e cheio de pintinhas no rosto.

— É, morto. — Disse o médico mais uma vez com autoridade e experiência. — Já é hora de providenciar os papeis e dar entrada na autópsia.

(Papéis? Vocês são insanos? É um açougueiro e não um médico, eu não to morto! Por que não me ouvem?)

— Sim, claro. — O enfermeiro saiu pesaroso, parecia irreal, um jovem homem tão aparentemente saudável, ali, imóvel. Antes de passar pela porta o enfermeiro esboçou algum tipo argumentação, mas não disse, seguiu cabisbaixo.

(A! meu Deus o que está havendo? Eu não morri, vejam!!!)

— É amigo, – olhou para corpo repouso de Charlie – vamos mandá-lo para a sala de autopsia e saberemos o que ouve com você. — Disse o medico segurando no ombro esquerdo de Charlie. — A Causa Mortis

(Autopsia!!!? Meu Deus! Não, não, não, NÂO!!! Por favor, eu to vivo, vivo!!!) Charlie persistia mais do que provavelmente podia; continuava a pensar e protestar sua própria morte, mas seu cérebro não fazia mover um único músculo. (Meu coração é isso, claro, meu coração, ele deve estar batendo, eles vão chegar isso novamente cedo ou tarde e vão me trazer de volta!)

O conforto mental de Charlie durara pouco, pois continuavam a levá-lo para a sala de autópsia, localizada no andar inferior. (Não!!! Parem com isso, não vêem minha respiração ou não estou respirando? Meu coração não está batendo? É isso que chamamos de MORTE!!!?)

O estonteante ruído das rodinhas no batendo no chão do hospital continuava e só parou quando entraram no elevador; agora Charlie tentava se explicar, que talvez isso fosse à morte um estado em que se está preso dentro de si, sem poder fazer absolutamente nada, mas podia pensar e sentir. Era como estar preso num dos nove círculos do Inferno de Dante; era o circulo particular de Charlie. A agonia lhe tomava a mente feito um rato adentrando por sua boca, salivando enquanto devorava sua língua. O elevador parou e a porta se abriu – o local dividia-se em dois largos porem pequenos corredores, entre eles a placa dizia:

Salas de Autópsia 1 e 2 ß

Salas de Autópsia 3 e 4 à

Os médicos continuaram a empurrar a maca, acenderam numa leve curva para a esquerda; quando a cabeça de Charlie findou a entrada do corredor ele contemplou a placa com desespero emanado de cada célula de seu corpo paralisado. (Meu Deus! Não, por favor, me tirem daqui, me tirem daqui, eu não to morto, não to morto seus imbecis filhos da mãe!) Os médicos se entreolharam.

— Sala de autópsia 2. — Disseram.

II

— Alô?

— Sim, Sra. Stiles?

— Pode me chamar de Susie, o que foi?

— Senhora, poderia comparecer ao Metropolitan Hospital Center o mais breve possível?

— Hospital?! — Susie levou a mão direito ao peito; sentiu um inexplicável aperto, a sensação lhe tomara por completo. — Meu Deus! Charlie? — Sua respiração tornou-se ofegante, parecia ter se afogado.

— Senhora, por favor, não entre em pânico! Apenas compareça ao hospital o mais breve possível.

— Cla... clar... — Engoliu em seco — Claro, claro, eu já estou indo.

— Obrigado Senhora Boa noite. (Isso não será nada agradável para a pobre viúva.) — Pensou o enfermeiro.

— Obrigada. — Susie desligou o telefone e as lagrimas já começaram a se formar no canto dos olhos, previa o inevitável, algo ruim havia acontecido. As lagrimas finalmente não se sustentaram mais e escorreram dividindo seu belo rosto, sua feição tornou-se lúgubre. Conteve-se como podia e chamou um taxi. (Meu Deus, que Charlie esteja bem, que seja só um susto)

O taxi logo chegara. Susie desceu num instante ainda com os olhos cheios e com o rosto de funeral, seus cabelos loiro-escuro meio despenteado.

— Para onde Senhora? — Pergunta o taxista; observando a curiosa face de velório de Susie.

Metropolitan Hospital Center. — Respondeu Susie com uma voz tremula, o timbre lembrava discurso de velório.

— Claro, Senhora.

Entraram no taxi e assim que partiram Susie tornou a deixar as lagrimas a vencerem. O taxista olhou pelo espelho retrovisor e viu Susie em discreto pranto.

— Não, não... — As mão tremulas e voz quase inaudível. — Nada bem, nada. Disse ela secando as lagrimas com as mãos.

— Não se preocupe Senhora. Tudo ficara bem. — E continuou dirigindo; rápido.

A maca finalmente chegara a seu destino a seu destino a infame sala de autópsia 2; o lugar que cheirava a morte, ali médicos brincavam de médico. Abririam a caixa torácica do cadáver, removeriam o tampo do crânio, vão examinar cada órgão interno e divulgar a causa mortis; o laudo do óbito sairia depois de fatiar pouco a pouco o corpo de Charlie. Passaram pela porta; com certeza não era um lugar para passar as férias. A maca parou de mover-se, Charlie sentia seu fim se aproximado. (Me tirem dessa merda! Agora! AH!!! Por Favor, me escutem!!!)

— Eu aposto em algum tipo de overdose, o que acha? — (Esses executivos adoram cheirar uma “neve”) — Pensou.

(O que “neve” vocês estão loucos, eu não to morto e eu não usos drogas! Porra me tirem daqui!) Claro Charlie sabia que vários de seus colegas os são chamados “homens de negócio” utilizavam muita droga em especial a cocaína, era comum um homem rico e bem sucedido em Wall Street trancar-se no escritório para consumir um pouco.

— Bem ele não faz o tipo, mas quem sabe? Creio em enfarto, por motivos menos ortodoxos já que o paciente parece ser um esportista, stress e excesso de trabalho nesse perfil de homem são grandes fatores para enfartes. — Respondeu o médico mais velho – era responsável pelas autópsias; Dr. John ele conduziria a dissecação de Charlie.

Os dois médicos encostaram a maca na mesa de autopsia; (Lugar horrível) pensava Charlie.

La dentro o visual era pouco convidativo a menos é claro que o convidado em questão fosse uma peça de carne bovina. A extensa mesa central feita de material metálico equipado com uma espécie de torneira e com pequenos furos para dar vazão a líquidos; – sim, era ali mesmo onde a carne seria fatiada. Uma grande luz de quatro focos era utilizada para iluminação, imediatamente ao lado da luz havia uma peque mesa também metálica coberta com um espesso pano azul, alguns instrumentos pousavam sobre ela; enterótomo, cinzel de crânio, talhador de costela, pinça dentada, serra de osso e um bisturi. Aquele lugar parecia mais com um local onde se praticava tortura de guerra ou rituais de sacrifício do que um hospital. Macabro essa era a perfeita definição para descrever aquilo tudo.

O taxi de Susie aproximava-se do hospital, estava a menos de três minutos e logo chegaria. Talvez Susie já esperasse pelo pior dia de sua vida; o aperto no coração que sentira mais cedo na mesma noite continuava a persegui-la. Susie encontrava-se inerente, a mercê dos maus pensamentos que pouco apouco povoavam sua delicada mente. Com as palmas das mãos suando, seu coração acelerado e apertado ao mesmo tempo, Susie seguia aflita mal vendo à hora de chegar ao hospital. (Calma Susie, calma, você precisa ter calma; OH MEU DEUS CHARLIE!!!) Pensara.

— No três. — Disse o médico mais novo a Dr. John.

(No três o que? Não, me larguem, me tirem DAQUI!!!)

Seguravam com firmeza no corpo de Charlie, pelo tronco e pelas pernas.

— Um, dois, três! — Contaram juntos e o colocaram na mesa de autópsia.

Olharam o corpo ali jazido feito um animal que morreu a beira da estrada; se entreolharam, pareciam estarrecidos pela condição do corpo, pelo porte do homem e como parecia quase vivo de tão fresco.

(Como podem? Estou VIVO, – na mente de Charlie ele tentara gritar, mas os sons não saiam de sua mente, era um estado psicológico perturbador – isso é um terrível engano.)

Dr. John moveu a luz para o corpo de Charlie enquanto Dr. Ben – o jovem médico – vestia seu avental. (AH! Pelo amor de Deus, tirem essa luz de meus olhos, essa merda queima, arde! AH! Inferno, porque não me ouvem?) Então Dr. John vestiu seu avental – agora sim, estavam prontos para prosseguir com dissecação, sem saber que seria uma vivi dissecação.

— Remova as roupas para prosseguirmos com o exame físico externo. — Observou secamente Dr. John.

(Não, parem com isso imediatamente. Alem de me matarem ainda vão me expor ao ridículo?)

— Claro. — respondeu Dr. Ben enquanto apanhava a tesoura.

Ben começou a cortar a calça de Charlie, lentamente subindo em um corte preciso, quando passou pela altura do ventre Charlie só pensava em sair correndo, mas nenhum movimento se seguiu, ele continuava ali como um morto vivo. Removeu devagar a calça. Agora partira para a peça de vestuário superior. Novamente bem devagar foi passando a tesoura afiadíssima pela camisa de Charlie, (Não pare com isso seu sádico, filho da mãe! SUSIE!!!) Bem removeu a camisa com cuidado estava um pouco suada, eles estranharam. Os médicos entreolharam-se e em seguida dirigiram a atenção ao corpo.

— Genitália masculina adulta comum sem circuncisão; (Que merda é essa?) abdome reto com certo desenvolvimento; musculatura peitoral desenvolvida; (Vocês não vêem minhas pupilas se retraindo com essa luz infernal na minha cara? Eu to vivo, VIVO!) membros inferiores e superiores desenvolvidos de forma mais sutil. Um homem em perfeita condição física. Nenhum sinal aparente de escoriações; possui uma cicatriz de cinco centímetros no braço direito logo abaixo do cotovelo. Nenhum sinal de contusão no pescoço ou crânio. É, a provável causa de morte encontra-se no interior, vamos prosseguir com o exame interno dos órgãos. — descreveu detalhadamente Dr. Ben, não notando nada de anormal na parte exterior do corpo de Charlie agora seguiriam com o detalhamento dos órgão s internos.

Neste momento o taxi de Susie chegou ao hospital, os médicos ainda não haviam prosseguido com a avaliação interna; Susie tinha um sentimento ruim dentro de si, mas não fazia idéia de que seu marido havia sido dado por falecido.

— Quanto?

— 35,00 $.

— Fique com o troco! — Susie joga uma note de cinqüenta ao taxista e sai avoado em direção a entrada do hospital.

— Por favor, Charlie, Charlie Stiles, meu marido onde ele está. — Pergunta Susie para a enfermeira no balcão da recepção.

— Só um momento..., — A enfermeira pega o telefone e disca o ramal interno do hospital para informações; ele olha com olhar de pena para Susie, algo não estava certo. — entendo. Sra. Stiles um dos médicos responsáveis lhe passará os detalhas, por favor, aguarde aqui.

— Isso não pode ser bom, por favor, o que é? — Com aflição Susie tenta arrancar alguma informação da enfermeira.

— Desculpe Senhora não posso lhe informar nada, na verdade não sei de nada. — respondeu a enfermeira segurando-se.

— Por favor. — Clama Susie, porém a enfermeira apenas balança negativamente a cabeça.

Dr. John deixou a sala de autopsia para conversar com Susie; tinha acabado de entrar no elevador. Apertou para subir até a recepção, provavelmente odiava esse tipo de conversa, talvez fosse a pior parte de ser médico. (Noticia de morte) Pensou John.

O elevador abrira; agora John estava a poucos passos de Susie; ele caminhava lentamente sem pressa alguma, pensava e repensava os modos de lidar com tal situação sem piorá-la, claro sem duvida não há um modo fácil de fazê-lo, as pessoas morrem isso é fato lidar com essa situação mesmo que diariamente não é tarefa simples. Logo John chegara à recepção. (É hora) Pensou.

— Sra. Stiles?

— Sim, sou eu.

— Como vai, sou Dr. John, mas pode me chamar de John.

— Claro, e então, como está Charlie? — Perguntara Susie em tom apreensivo.

— Não, — fez uma breve pausa umedecendo os lábios e prosseguiu cauteloso. — não há modo fácil de dizer isso, quero que entenda que a situação é muito difícil. — Susie já sentira o impacto das palavras do Dr. John e as lagrimas apanharam-na mais uma vez.

— Por favor, — engoliu em seco, secou seus olhos antes de prosseguir. — seja direto doutor, diga o que aconteceu a Charlie. — Susie já parecia esperar pelo pior.

— Claro, como preferir. — John respirou fundo buscando as exatas palavras, mas optou por apenas falar o que houve. — Senhora, seu marido chegou a nós com uma parada cardíaca grave, não respirava e estava imóvel não respondendo a nenhum estimulo. — Fez uma pequena pausa olhando fundo nos avermelhados olhos de Susie, John viu o desespero habitando a mente dela, mas ele tinha que terminar o assunto. — Senhora, infelizmente ele não resistiu e veio a falecer às 23h58, sinto muito.

— NÃO!!! — Gritou Susie de forma perturbadora desfigurando seu rosto, as veias a pareciam virtuosas em seu pescoço e têmporas.

— Senhora, por favor, acalme-se. — Disse a enfermeira saindo de trás do balcão. — Quer um copo d’água? — Emendou.

— CHARLIE!!! — Susie parecia inconformada com a situação acometida.

Após alguns instantes de desespero sucedeu um desejo abrupto de ver Charlie, mesmo morto.

— Eu quero vê-lo! — Exigiu Susie.

— Senhora, somente depois da autópsia. — Respondeu John calmamente.

— Não, quero ver ele AGORA! — Disse Susie bruscamente. — Exijo que não seja feita nenhuma autópsia, quero ele imaculado para o velório.

— Senhora, a autópsia é um procedimento padrão, nós precisamos saber a causa mortis de seu marido para emitir o laudo de óbito.

— Não, não quero que seja realizada a autópsia.

— Senhora, me desculpe, mas A Senhora está... — Susie o interrompeu:

— Não, ou você fazem o que peço ou processo o hospital e os envolvidos individualmente, eu só quero o corpo de meu marido inteiro para o velório, vai negar um simples pedido a uma viúva desamparada?

— Sim Senhora, tem todo o direito. — Dr. John foi até o telefone do balcão e discou o ramal da sala de autópsia 2.

— Dr. Ben, pare a autópsia, a esposa não quer o procedimento realizado.

— O que? Ela não pode fazer isso!

— Por favor, pare com o procedimento, preencha os papéis de liberação do corpo e deixe a sala.

— Mas...

— Apenas faça. — Desligou o telefone e dirigiu a atenção para Susie. — Senhora, quer que contatemos um serviço para seu marido?

— Não, não, eu mesmo o faço. Obrigada. — Respondeu Susie.

— Sinto muito senhora, sinto por sua perda. — E se retirou.

— Sra. Stiles quer usar o telefone para chamar o serviço? — Indagou a enfermeira.

— Sim, obrigada.

III

— Sr. Stiles, — passando a mão na testa de Charlie — em poucos dias faremos seu velório, sua esposa parece inconformada amava-o muito e ainda ama provavelmente. Sabe, a Sra. Stiles fez as mais estranhas exigências sabe, — (Calado! Sádico maldito, esses bastardos! Eu não estou morto, não conseguem ver?) — em hipótese alguma deixara retirar seu sangue e substituir por formol, basicamente eu apenas o vestirei, arrumarei sua maquiagem e o colocarei no ataúde, espere só um pouco e — pegando a mão de Charlie acariciando-a delicadamente — (Me largue imbecil! Não vê? Todos estão cegos? NÃO ESTOU MORTO!) — bradava Charlie, mas suas palavras não saiam de sua mente. — seu alivio virá, logo encontrará a paz eterna.

O tempo passava as pressas no glamoroso outono de New York City, o tempo que Charlie não mais possuía, sua esposa continuava há passar seus dias em lágrimas, cada gota derramada era como um grão caindo de cima para baixo numa ampulheta, esse era o relógio que contava os momentos para a real morte de Charlie; seus pensamentos continuavam a correrem soltos em sua mente, mas nada podia fazer, absolutamente nada, Charlie permanecia em total inércia no desespero do aguardo de seu enterro o qual seria efetuado ainda em vida, o pior pesadelo estava prestes a se tornar realidade.

Um homem muito esquisito fazia os preparativos para o velório de Charlie. Sempre enfiado em um terno negro de penteado impecável, uma pele pálida e fantasmagórica destacava-se de sua roupa escura, os cabelos já a tornarem-se grisalhos, as reações aquele homem era sempre de espanto. Trabalhar em uma funerária realmente não fazia nada bem e sua reputação era de que nem ao menos seria deste mundo; um anjo da morte.

Um dia após a morte de Charlie o corpo já estava preparado para o enterro que aconteceria no dia seguinte a preparação, pois ele permanecia em estado natural; sem a retirada dos órgãos internos e sem conservantes como o formol seu corpo se deterioraria rapidamente.

Riverside Memorial Chapel

Velório de Charlie M. Stiles às 17h30

Enterro após velório

New Montefiore Cemetery

Assim anunciava a placa do lado de fora da Riverside Memorial Chapel na W 79th Street, capela que Susie escolheu para a realização do velório de seu marido.

O dia correu rápido para o desespero mental de Charlie, seria um velório rápido para amigos íntimos e familiares seguido imediatamente do enterro. O estado catatônico de Charlie conseguira enganas aos médicos, sua esposa e a todos que o viram naquele estado, a conclusão obvia era a de que ele estava mesmo morto, talvez estivesse preso em seu próprio corpo de onde sua alma recusava-se a deixar. Era chegado o fim.

No velório estavam à esposa de Charlie Susie Stiles, alguns de seus colegas e amigos dos negócios, sua irmã Dorothy M. Stiles e seu marido. Um evento triste para um homem que em vida era considerado como único. Nada de lágrimas falsas, nem mesmo de seus colegas.

Susie aproximou-se do caixão pela ultima vez, seu vestido escuro de gola alta e seu véu também de um negro extremo mostrara o quão sentida a viúva estava. Os olhos de Susie estavam vermelhos e inchados. Ela dirigiu seus lábios de encontro aos de Charlie para beijá-lo pela última vez.

— Adeus Charlie, — com as lagrimas escorrendo por seu rosto logo encontrando a face de Charlie — sempre o amarei. — As ultimas palavras antes de o caixão ser fechado e transportado até o cemitério; foi o beijo mais melancólico que já se fora presenciado.

O momento foi de tamanha emoção que até mesmo a mente de Charlie parou de funcionar por alguns minutos. O caixão lentamente ia sendo fechado, ao ultimo raio de luz a mente de Charlie tenta comunicar-se uma vez mais. (NÃO! SUSIE! NÃO ME DEIXE!) Em vão.

O Cadillac Limo 1990 sacolejava levemente rumando para o New Montefiore Cemetery onde ocorreria o enterro de Charlie. Os carros dos familiares e amigos andavam quase juntos numa espécie de procissão, Charlie provavelmente foi merecedor desse respeito. Apenas um carro andava mais rápido que a limusine funerária, era o carro de Dorothy Stiles guiado por seu marido e que levava Susie; fora um pedido pessoal de Susie que chegasse antes no cemitério.

Durante todo o caminho Charlie refletiu interiormente se no final das contas não era aquilo a que chamavam de morte. Não tentou gritar, nem ao menos se esforçara para mexer um músculo que fosse, apenas permaneceu estacado com a consciência presa num corpo que parecia realmente morto. Não podia comunicar-se com o mundo dos vivos, ele era um morto-vivo e aguardava agora pacientemente por seu derradeiro fim; um buraco no chão e terra sobre sua cabeça.

O céu escurecia rapidamente anunciando uma chuva para tornar o clima de funeral mais real. Os pingos começavam a cair fazendo estridentes ruídos no teto dos carros, relâmpagos clareavam o céu negro, seria o fim perfeito.

Susie, Dorothy e seu marido chegaram ao cemitério; Susie desceu do carro passou seu lenço já encharcado nos olhos avermelhados e seguiu ao tumulo reservado a Charlie. O carro do padre chegou logo em seguida. Dorothy segurando o buquê de rosas vermelhas saiu caminhando atrás de Susie. Carros começaram a parar frente ao cemitério e a limusine entrou pelo portão principal do cemitério; o marido de Dorothy e mais cinco colegas de Charlie carregariam o caixão até seu devido sepulcrário. Levaram a passos lentos, minutos se decorreram até que chegassem ao local e até mesmo a mente de Charlie permanecia quieta, ele já não lutava mais, desistira de reconhecer sua vida e acolheu sua morte.

Quando o corpo chegou um coro de pranto se sucedeu, as pessoas pareciam inquietas, pesarosas. A cerimônia começou, seria ministrada de forma conservadora como nos velhos tempos; seria praticamente uma missa, os ritos da morte.

O corpo foi descido na sepultura, Dorothy entregou uma rosa a Susie que caminhou em direção a aquele imenso buraco de onde seu marido nunca mais sairia. Susie chegou próximo ao buraco, abaixou-se ao lado olhou para o caixão, as lagrimas escorreram novamente, pegou um punhado de terra com a mão direita e disse:

— Adeus, meu Charlie, adeus. — Chorando ela jogou a rosa e em seguida a terra, levantou e saiu andando cambaleante; Dorothy foi a seu encontro e a suportou.

As palavras finais do padre continuaram após o ritual de jogar terra sobre o caixão. A cerimônia continuou:

— Entregamos a terra o corpo do nosso querido irmão Charlie. Terra a terra, cinza às cinzas, pó ao pó; e encomendamo-lo ao julgamento justo e misericordioso d'Aquele que conhece inteiramente o coração dos homens, Jesus Cristo, nosso Senhor. — Todos responderam “Amem”; Susie não mais podia segurar seu choro e desabou, gritou por Charlie diversas vezes interrompendo o andar da cerimônia. A chuva que havia dado uma trégua no inicio do ritual voltou a dar o ar da graça, o clima era fortemente fúnebre.

O lúgubre ritual terminara com o Amem em coro, Susie já havia se retirado não aquentava mais precisava pousar sua cabeça em algum lugar e sonhar com seu marido ainda em vida.

Todos haviam se retirado e o coveiro começou o processo final, o real enterro. O homem estranho vestindo galochas, chapéu e capa de chuva encheu a primeira pá de terra; não se via seu rosto, mas parecera um homem de meia idade com uma espessa barba e olhos aguçados de quem já muita coisa.

Um barulho estremecera o caixão de Charlie, era a terra que caia sobre ele fazendo com que acordasse de sua quietude mental. (POR FAVOR!!! ME TOREM DAQUI, EU NÂO TO MORTO!!! SUSIE!!!) De nada adiantava, suas palavras permaneciam inaudíveis, resguardadas para dentro de si mesmo. Pá a pá, terra a terra; a cada punhado de terra que o coveiro lançava sobre o corpo de Charlie o desespero aumentava; se Charlie chegasse a acordar seu ar logo acabaria e mesmo que pudesse bater tampa da caixa ninguém ouviria. O tempo ia soterrando as expectativas de Charlie nunca mais teriam sua vida de volta.

(Não, por favor, — Em sua mente ele estava chorando em total desespero, mas nenhuma lagrima era realmente derramada, estava tudo em sua cabeça; talvez isso fosse o pior. — eu to vivo, vivo, vivo, — Enquanto isso a terra ia caindo sobre sua cama de morte; faltava pouco para fechar à sepultura. — eu to vivo, vivo, VIVO! Vivo...)

Com as ultimas gramas de terra sendo jogadas sobre Charlie, ele acorda de seu transe.

— Meu Deus! — Arfando ele busca forças para tentar sair dali. — Eu to vivo! — Charlie se toca, percebe sua respiração e logo entra num estado de angustia, não há maneira alguma de sair. — Susie, Susie, SUSIE! — Ele grita, berra com todas suas forças, mas ninguém iria ouvi-lo; o coveiro já havia se retirado, não tinha ninguém ali; somente o homem que foi enterrado vivo.

Charlie começa uma corrida contra o tempo, o ar restante dentro de seu caixão logo acabaria. Ele batia com força na tampa; passou a tentar perfurar o caixão com as unhas; o medo provoca as mais estranhas reações. Charlie socava, esbofeteava, esfregava suas unhas no caixão que não cedia. Golpeou com tanta força que quebrou o dedo indicador da mão direita liberando um grito de intensa dor; seu dedo arqueou de forma estranha, mas ele estava decidido a sair e continuou. Apela por Susie durante o processo. Usou suas unhas de tal forma que começaram a rachar uma a uma, finalmente suas unhas principiaram a cair; lentamente iam descolando-se da carne, as lagrimas escorriam, o rosto Charlie reportava uma feição perturbadora com olhos esbugalhados e vermelhos, sobrancelhas arqueadas, veias pulsando por toda parte, com o ar se extinguido rapidamente sua respiração tornava-se cada vez mais ofegante tornando tudo aquilo muito tortuoso.

O sangue escorria de onde antes havia unhas, agora somente espaços vermelhos de carne viva; Charlie era forte e continuava seu calvário rumo ao fim provável de morte. Os sulcos produzidos por suas investidas contra o caixão tingiam-se de forma lenta de escarlate; Charlie tentara, porém falhara, rendendo-se a falta de ar e forças.

Um dia havia se passado desde o enterro e Susie estava dormindo no quarto de Dorothy, já que não aquentaria ficar em casa depois de tudo que aconteceu. Dorothy a observava mesmo triste por ter perdido seu querido irmão ela queria dar o suporte necessário a Susie.

— AH! — Acorda Susie sobressaltada, branca feita um lençol e suando como se estivesse em uma sauna.

— Calma Susie, calma, eu to aqui. — Diz Dorothy que assistia ao sono conturbado de Susie.

— Dorothy?

— Sim.

— Acho que estou endoidecendo, tive um estranho sonho e agora estou com um pressentimento mais esquisito ainda.

— Diga, o que é.

— Pressinto que Charlie poderia estar vivo.

— Por favor, Susie, faz pouco tempo que Charlie faleceu nós apenas não conseguimos assimilar as coisas tão rapidamente, é só.

— Não, não é isso.

— Então o que é?

— Sabia que não permiti a autopsia? E que não existe a causa confirmada da morte de Charlie, e ainda mais, nós sabemos o quanto era um homem saudável em plena forma, não tinha problemas de coração, — Susie engoliu a seco, controlou suas lagrimas e prosseguiu. — exercitava-se e consultava-se regularmente no médico.

— Está com caraminholas na cabeça Susie, tente descansar; temos mesmo é que aceitar o fato de que nosso amado Charlie não está mais entre nós.

Susie levantou abruptamente, foi avoada até o closet vestiu qualquer coisa e saiu correndo como uma lebre fugindo do lobo.

Uma estranha chuva outonal acometia a cidade desde o enterro de Charlie, não era intensa, mas era constante; o céu chorava por sua alma era o que Susie pensava.

Susie desceu as escadas de forma perturbadora parecia rumar com destino certo e Dorothy tratou de segui-la. Susie ligou para o taxi seu destino era obvio e mórbido.

— Susie, Susie, o que pensa estar fazendo? — Indagou Dorothy.

— Nada, só preciso ir a um lugar.

— Por favor, não faça nada estúpido, por favor, largue esse telefone, você precisa descansar.

— Dorothy. Eu preciso.

Não demorou para que o taxi chegasse; Susie apenas correu para dentro com uma estranha feição embrutecendo seu rosto. Dorothy correu atrás dela em vão, apenas fitou-a enquanto entrava no taxi, Dorothy estava com a preocupação estampada em seu rosto não gostando nem um pouco do semblante obscuro que Susie ostentava.

Vou desenterrá-lo. — Pensou Susie fechando a porta do taxi.

— Susie! Susie! Susie! — Dorothy clamara em vão.

O taxi partira e a localização que o aguardava era a da mais estranha natureza, era como se Susie estivesse sendo guiada por uma força além de sua própria; a mulher estava obstinada.

A chuva apertara um pouco mais, mas Susie não pararia por nada.

— Espere aqui, eu já volto. — Disse Susie ao taxista.

— Sim senhora.

O taxi estava parado frente a uma loja de departamentos, Susie correu para dentro da loja; foi como um raio para a seção de ferramentas. Pegou uma pá média e dirigiu-se ao caixa, pagou e foi correndo para o taxi novamente.

— Continue, por favor. — Disse Susie e o taxi despontou.

O motorista olhou Susie pelo retrovisor se aquiesceu e indagou:

— Senhora, pra que ess... — Parou por ai, pois Susie o interrompeu:

— Por favor, não pergunte, se eu responder me achará louca.

— Sim senhora, como quiser.

Decorrido certo tempo o taxi chegou a seu enfadonho destino o New Montefiore Cemetery; Susie tratou de pagar pela corrida e desceu. O taxi arrancou e Susie se encontrava correndo cemitério adentro. A triste feição de Susie era passível de pena suas lagrimas misturavam-se a chuva que caia sedenta. Toda encharcada segurando apenas sua pá Susie chegara ao tumulo de Charlie, sem cerimônia começou a cavar. Cavou com todas suas forças.

Nas ultimas porções de terra quando Susie já estava dentro da cova o coveiro do apareceu. Com seu estranho visual perguntou:

— Senhora, senhora, — Susie olhou rapidamente para cima e continuou a cavar. — o que pensa estar fazendo? Se não parar terei que chamar a policia. — Susie não respondeu.

Finalmente a terra chegou ao fim a lama escorria pelas beiradas da cova. Susie golpeou com vigor atlético as travas da tampa do caixão, deixou a pá de lado e abriu o caixão; uma feição fantasmagórica lhe tomou conta, a chuva caia, mas as lagrimas de Susie ainda eram distintas. Um tremor correu pelo corpo da viúva transtornada.

— Meu Deus! — Disse Susie.

A tampa estava arranhada por dentro, sangue preenchia parcialmente as marcas, Charlie estava quase sem unha alguma, as mãos dele estavam em estado deplorável – dedos quebrados, unhas arrancadas, sangue endurecido e sua expressão era a mais assustadora de olhos e boca abertos. Susie o puxou de dentro e o abraçou, a chuva banhava-os. Susie olhou para os céus no mais forte choro. O coveiro tirou seu chapéu e o apoiou em seu peito olhou para cima e depois baixou sua cabeça. Susie permanecia afundada ali chorando e berrando; Charlie havia sido enterrado vivo.

Foi realizada a exumação de Charlie M. Stiles; no laudo oficial de óbito foi declarado que Charlie sofrera de uma rara doença chamada de Catalepsia Patológica onde os músculos permanecem rígidos porem sem contrações. O caso do Sr. Stiles permanece nos dias de hoje como um caso raro em que um ser humano fora enterrado vivo.



Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho
Banner
Nós temos 67 visitantes online