Dom, 04 de Dezembro de 2011 09:00
Escrito por Luciano Pereira Mello - Guaiba, RS
Com seus fantasmas, ele ouvia e sentia e adentrava na canção, mente... alma... música. Cantarolando baixinho, com um cigarro no canto esquerdo da boca, pôs-se à janela. Curioso.
Lá embaixo ela, coadjuvante em sonhos, protagonista nos seus pesadelos e o caminho de sua vida. Misteriosa, até então indecifrada.
Uma dose de uísque e mais música, this is the end beautiful friend...,
era sem dúvida uma melodia aveludada ou aveludava-se em meio a densa fumaça de cigarro.
Misteriosa, ela o chamava; venha, venha, venha para a verdadeira vida, verdadeiro desafio, eu sou a vida...
Impossível, como pode ser tão bela? tão mágica e enebriante? pensava o incauto, olhos vidrados rumo ao chão, eram dez andares e a brisa e a vertigem até àquela que dizia-se vida. Vemos o que queremos ver, somos o que queremos ou precisamos ser. As vezes não basta precisar ser, ser, torna-se uma necessidade, uma busca, ser é o existir.
Lá de cima ele a via, ela sabia, sentia. Assim como uma fêmea que busca um macho, o seduzia ficando mais bela, mais misteriosa. O mistério é apaixonante até ser desvendado, depois é o comum e daí pode-se duvidar como pôde causar mistério, isso... assim... tão sem graça ou tão desgraçado...
Envolta num manto branco parecia ser, ter a magia de planetas virgens e de vidas que se foram. Com melindrosidade sorria pra ele, "venha, venha ver a verdade. Sou tão bela, sou a saída pra essa tua vida desgraçada, formo o coração dos amores que não conquistastes, comigo os terá, venha, junte-se a mim, comigo, não estarás mais sozinho... venha... venha".
Um gelo, duas doses, dois goles e a janela e a figura lá embaixo. Desta vez travestida de riquezas, o ouro que enxergas pode ser teu, basta que venhas, te dou não só o ouro mas o que mais quiseres. Queres as estrelas? Te dou. Queres as águas? As jorro sobre ti... Vinho? Tal qual Dionísio, te servirei.
The blue bus...................... is calling us...
Gelo e mais uísque. Por um momento pensou em sair da janela, impossível, era atraído. Fitou-a por um momento, tampou os ouvidos, queria ser surdo para não poder ouvir a voz que o chamava. Em outras situações pensara ser forte o bastante para resistir às piores tentações, mas agora...
Um gole forte e fechou os olhos, estrelas passavam diante deles. Fitou-a pela última vez. Apertou os olhos e foi-se. No trajeto sentiu o que realmente era ser livre, o vento na cara o mundo a seu dispor.
Antes de encontrá-la, ainda cantarolou
father i want killer you...
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