Banner
(8 votes)


Todos os abajures estavam amontoados pelo quarto, dando a ele um aspecto amarelado. Alguns deles estavam no chão, outro em cima de uma escrivaninha comprada por uma bagatela em um brechó na cidade, podia-se ver outro no alto de uma estante de um tom marrom escuro, o mesmo tom da escrivaninha, sobre um banco baixo e bambo de cor oliva havia outro abajur. Todos tinham formatos diferentes e pareciam vir de décadas diversas. No piso de linóleo cor de laranja havia um tapete redondo na cor âmbar que lembrava urina e diversas almofadas quadradas nas mais variadas cores com fios dourados já gastos. Em um canto descansava uma poltrona moderna verde-limão e nela um Khao Manee, o “gato da boa sorte”, de pelo branco e com um olho com a cor azul e o outro com a cor amarela-esverdeada.

Na estante de tom marrom escuro, vários livros por ordem de tamanho e cor. Todos possuíam capa-dura, destacavam-se os vermelhos, azuis, verdes e laranjas, além dos pretos e roxos. A estante também guardava uma coleção de adagas onde muitas haviam se perdido. Era preciso tomar cuidado ao passear com as mãos pelos livros ou um dedo poderia ser ferido por uma ponta afiada.

No lugar de janelas o quarto abrigava espelhos dos mais variados formatos e refletia todos os objetos e luzes desse esconderijo.

Entre a estante e um dos espelhos, encostada na parede, Elisa, com um vestido de seda fina branco, quase transparente, com babados e laços que desciam dos seus ombros até seus punhos, olhava fixo para os pés descalços. A pele branca não possuía vigor algum, estava pálida e seus olhos mal piscavam, fazendo com que ela parecesse um peixe, além disso, quase não possuía cílios. A boca era ressecada e esbranquiçada e os cabelos longos e pretos não estavam penteados, com pontas indo para todas as direções e mechas colando-se na testa devido ao calor do quarto.

3:20 da madrugada Adrião entrou no quarto. Era um homem corpulento, alto e cheio de sardas. Chegou com o hálito cheirando a vinho barato, cambaleando e chutando as almofadas com seus pés tamanho 43. Como um talo de flor frágil, Elisa estremeceu, mas não se moveu, estava abafado demais para qualquer movimento brusco. No entanto, Adrião reclamava do calor, da luz e do gato estúpido que o fitava.

Ele deveria ser uns 15 anos mais velho que a garota, mas isso não parecia importar para o homem que já começava a tirar o cinto com certa dificuldade. De forma desajeitada tirou toda a sua roupa, a camiseta azul-escura que fedia a tabaco e álcool, o jeans gasto, as meias sujas e os sapatos pretos incrivelmente lustrosos, a única peça que parecia merecer algum cuidado.

Nu, andou pelo quarto enquanto posava para os diversos espelhos no aposento, seria cômico, se não fosse trágico, pois Adrião não era o tipo que agradava mulheres (ou garotas), tanto pelo seu corpo quanto pelo seu temperamento. Elisa percebeu que ele era ruivo natural, pois o ruivo era abundante ao redor de seu membro molenga.

Ao se aproximar de Elisa, Adrião puxou a garota pelos punhos com força e jogou-a na poltrona verde-limão, fazendo com que o gato soltasse um miado estridente e pulasse para as almofadas. Ao ver o terror de Elisa, Adrião começou a excitar-se e a garota percebeu que aquele membro molenga ganhava força e tamanho.

Adrião rasgou seu vestido, espalhando aquela seda branca com babados e fitas para todos os lados.

- Hahaha! Você não está se divertindo?

- Claro – Respondeu a garota.

O homem imaginou que ela apenas estava assustada, o que o deixou mais animado. Percebeu que a garota não usava nada por baixo do vestido agora feito em trapos. Pensou bem e admitiu para si mesmo que deveria ser uma vagabunda.

Com os corpos mal acomodados na poltrona, Adrião por cima de Elisa, penetrou-a sem nenhuma preliminar, arrancando um suspiro da garota e um urro do homem. O suor dos dois corpos se misturavam, o do homem era fétido, o da garota lembrava mofo e leite.

Adrião não poupou forças e submeteu a garota com toda a sua virilidade tão latente naquele momento. Grunhia, debatia-se, deleitava-se. Revirou os olhos e gozou. Pensou na morte. Melancolia. Sentiu-se estranhamente sóbrio e amaldiçoou a garota.

- Te amo – Disse Elisa, e o mundo ardeu em chamas.

Adrião vestiu-se depressa e saiu do quarto.

Depois de uma semana sem dormir direito, resolveu voltar ao quarto de Elisa. Saiu de sua casa, pegou o seu carro, dirigiu até a periferia da cidade, deu voltas e mais voltas, incrédulo.

- Merda! Merda!

O prédio antigo de 5 andares número 742 havia sumido e em seu lugar havia um casebre abandonado com a vegetação cobrindo-lhe por completo.


Comentários  

+1 #1 RE: EsconderijoRaquel 04-12-2011 15:39
Incrivelmente estronho e... fantástico!
Citar
+1 #2 RE: EsconderijoLucas 05-12-2011 06:21
O conto é encantador!

"- Te amo – Disse Elisa, e o mundo ardeu em chamas."
Citar

Contos Estronhos - Contos e Crônicas

Facebook Page: estronhobook Twitter: estronho YouTube: EditoraEstronho
Banner
Nós temos 51 visitantes online