Dom, 27 de Novembro de 2011 09:02
Escrito por Keiti Daian - Jaraguá do Sul, SC
Tive de esperar até a noite para agir. Já tinha me resolvido. Peguei uma lanterna e um machado pequeno. Procurei ir despercebido até o casarão no fim da rua, aquele que sempre me dera medo e no qual eu estava prestes a entrar.
Forcei a maçaneta da porta com o cabo do machado, não me importando se poderia chamar a atenção da senhorinha Müller ou de qualquer outra pessoa. Entrei e olhei para o alto da escada, esperando enxergar a idosa como uma vigilante no escuro. Sem demora eu fui até a cozinha. A porta fortemente trancada estava lá mesmo, exatamente como me disseram. Desci o machado na porta até fazer um buraco grande o bastante para eu passar. Procurei por um interruptor e, como não achei, segui no escuro mesmo. Bastou um passo depois do último degrau da escada para as coisas se complicarem.
Perdi o chão literalmente. Devo ter caído uns quatro metros e só não me machuquei seriamente porque caí no que parecia palha. Levantei-me rapidamente e apontei o facho de luz da lanterna ao redor. Aproximei-me da parede e a toquei. Retirei rapidamente, sentindo minha mão úmida e suja. Aquelas paredes eram de terra. Pelo o que eu via, os Müller cavaram um buraco em seu porão. Um buraco profundo e forrado com palha para garantir o conforto da criatura que mantinham em sua casa. Eu estava louco para quebrar algo, para fazer um estrago enorme em qualquer coisa que caísse na minha mão.
Por isso dei alguns passos e continuei mirando a lanterna para a frente. Meus olhos tiveram de se ajustar e quando a imagem ficou nítida, eu arfei. Havia uma coisa peluda e embolada. Pelo barulho que fazia, deveria estar dormindo e, se aquilo era mesmo o ronco da coisa, deveria estar sonhando. Eu esperava que seus sonhos fossem ótimos e que ela aproveitasse ao máximo, porque eu ia lhe tirar o sono. Definitivamente.
Dei um passo com m uita cautela. Queria aproveitar seu sono, utilizá-lo numa vantagem contra ela. No entanto, as luzes acenderam sem qualquer aviso. Uma coisa negra e comprida se estendeu em minha direção e eu me encolhi. Era cheia de articulações e peluda. Meu Deus, aquilo era uma pata de inseto do tamanho de um poste. Quando ela me tocou, eu quase gritei. Ao invés disso, dei um passo para trás e pisei numa coisa que se partiu com estrépido. Olhei para baixo e vi que tinha pisado em um osso velho. Olhei ao redor só para confirmar o que eu já sabia: o buraco estava repleto de ossos que, devido ao tamanho, só podiam ter pertencido a animais como cachorro ou gato.
Já pensava em desistir da minha empreitada, planejando voltar com autoridades ou, no mínimo, um excelente caçador, quando veio o pior. A criatura me encarava; todos os oito olhos fixos em mim, fazendo eu me sentir um alvo de fuzilamento. Então, lentamente ela se ergueu, cada pata tornando-a maior e m ais feroz. Ela se moveu um pouco mais e um barulho em seus membros inferiores chamou minha atenção. Algumas de suas patas estavam acorrentadas à duas grossas pilastras, por isso, ela era impedida de quebrar paredes e sair passeando pela cidade. Mas isso não lhe tirava o movimento livre pelo porão.
Não sabia quanto as outras aranhas, mas aquela era carnívora, portanto já previa seu próximo movimento. A aranha, uma coisa de uns quatro metros, avançou na minha direção e eu joguei minha lanterna, mirando seus olhos, mas acertei o topo de sua cabeça. Nada muito sério. Comecei a jogar todos os ossos em que botava a mão, todos não causando grandes efeitos e eu já estava ficando sem opção. Minhas costas estavam coladas na parede de terra e eu agarrava o cabo do machado de maneira tão apertada que minha mão entorpecera. Só então me lembrei qual o motivo de ter trazido o machado e usei-o. Decepei uma de suas patas e, enquanto a aranha urrava, fazendo os pelos dos meus braços arrepiarem, eu procurei um apoio que pudesse me ajudar a subir. Então recebi um golpe que me jogou contra a parede; o machado voou da minha mão. Levantei com sofreguidão, pois a dor era terrível, e pulei para escapar de mais um golpe. Abaixei-me rapidamente, peguei um osso e atirei em seus olhos. Desta vez tive êxito. A aranha berrou e eu usei suas patas para subir em suas costas.
Assim, agarrei-me firmemente nos seus pelos grossos e esperei ela sair do buraco. A aranha se sacudiu algumas vezes, mas não me derrubou. Quando ela parou, eu aproveitei para pular. Rapidamente ela se voltou na minha direção e avançou. Eu desviei-me de seus golpes, ao passo que tentava me aproximar da escada. De súbito um golpe me levou ao chão e a aranha tentou me acertar com sua presa. Eu rolei, mas não fui rápido o bastante. Sua presa acertou minha perna, prendendo-a ao chão. Eu tentei me livrar desesperadamente e senti que ela s e preparava para o último golpe.
Comecei a chutar em tudo o que eu podia com minha perna livre. Um desses chutes acertou a pata decepada e a aranha gritou, um grito que parecia humano, e me liberou de seu peso. Eu corri da melhor maneira que pude e, após uma recuperação breve, a aranha me perseguiu. Felizmente as correntes a detiveram bem a tempo de eu subir a escada.
Não olhei para trás, minhas pernas tinham vontade própria e me levaram para fora daquela casa sem que eu percebesse.
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