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Conto integrande do livro Necrophagya, de Marius Arthorius.


"O suicídio é a grande questão filosófica de nosso tempo, decidir se a vida merece ou não ser vivida é responder a uma pergunta fundamental da filosofia".

Albert Camus

 

Aqui eu estou, apenas esperando as duas damas que devem chegar a qualquer momento. A Vida, com todas as lembranças. E, a Morte, com a solução final. Difícil é a escolha, qual das duas é mais bela? A decisão só depende do Tempo, pois ele conhece todas as respostas. Maldito livre-arbítrio ilusório.

Qual a melhor maneira de se matar? Suicídio é uma escapatória? É o remédio que alivia o sofrimento deste corpo. Pensei e pensei, percebi que esta será a melhor solução. De enfim, destruir toda a minha emoção. Muitos afirmam que ninguém deve se matar por outra pessoa. Ou, que quem se mata é covarde. Tolos fazem tais afirmações. Afirmação de pessoas que nunca amaram. Portanto, também nunca se alarmaram. A vida é o bem mais precioso que temos. Por ele nos mantemos.

É uma única oportunidade de você fazer tudo que se tem vontade. Faça e diga tudo que é necessário, pois você não terá outra oportunidade. Não difame o suicida, ele tem seu direito de morrer quando quiser. Independente das escolhas que fizer. É necessário ter muita coragem ou insanidade para dar fim à própria vida. Ou basta ter uma doce paixão destruída.

Eu deveria pular de um prédio? Jogar-me na frente de um carro? Sufocar-me? Afogar-me? Estourar a minha cabeça? Qual a melhor opção? Escolhas e mais escolhas, até perto da morte temos que fazer escolhas. No último segundo o suicida ainda tem que escolher entre a vida e a morte. Veja quem chegou? A Morte e a Vida! Sentem-se ao meu lado. Eu falava justamente de vocês duas. As duas damas que tanto nos acompanham nas reviravoltas cíclicas de nossos percursos através deste mundo.

Que presente você trouxe para mim, Morte? Oh! Veja que lindo! Uma seringa com agulha e querosene para acompanhar. Conseguirei injetar tal substância no meu encéfalo através do foramen magnum? Pode ser complicado, mas agradeço seu presente, Morte querida. E você, Vida, tem algo para mim? Uma caixa? Sim, uma caixa cheia de lembranças, afinal você não é tão bondosa como dizem, gostas de ver um pouco de sofrimento, não? Vale a pena viver pela felicidade do passado? Se tal sentimento não se faz presente atualmente. Qual de vocês duas eu devo escolher? Qual de vocês duas poderá me satisfazer?

Talvez eu seja apenas mais um fraco, lutando por seus sonhos utópicos. O que eu posso fazer? Se a visão dela ainda se desloca em minha memória. Eu lembro do manto de sua glória. Como eu queria suportar a eterna solidão. Solidão na qual eu vivia e com esta eu convivia tranqüilamente. Ao menos assim parecia, por ser o estado normal com o qual eu passei a vida toda. Não, aquilo não era vida.

Mas com a presença dela este hábito mudou. Com ela não havia mais solidão, eu não estava sozinho. Nem fisicamente e nem mentalmente, mesmo estando longe parecia que eu nunca estava sozinho. Sempre havia a lembrança do rosto dela, daquele olhar iluminado. Como eu gosto de ficar olhando para ela. Lembranças que me trazem sorrisos e lágrimas. Então o sonho se desfez, um belo dia você acorda e tudo terminou. Terminou? Preferia que a morte tivesse me encontrado. Arrebentado meu corpo, arrancado minha coluna vertebral comigo ainda vivo. Para que assim eu ficasse tentando me contorcer de dor. Imagine o movimento corpóreo gerado por um corpo que teve seus ossos arrancados!

Nesta vida, quantas tentativas são necessárias para algo dar certo? Nossa única vida! Que deveria ser tão bem aproveitada. Muito melhor seria na companhia de pessoa tão adorada. Com ela parecia que eu tinha encontrado um objetivo maior pelo qual continuar essa vida. Agora nada mais faz sentido. Os objetivos parecem ridículos se não puderem ser compartilhados com ela. Para ela, eu me autodeclarei senhor do universo. E entreguei minha posse, o universo, para ela. Não tenho a presença de mais ninguém. Nem dela e nem do universo. Somente às vezes eu ainda rimo algum verso. E estes em geral falam da morte.

Olhando a caixa de lembranças que a Vida me trouxe. Lembro-me de alguns pensamentos do passado. É Vida, acho que você também quer que eu permaneça com a Morte. Queres que eu volte a buscar o objetivo que eu tinha antes de conhecer ela? Lembro-me de alguns pensamentos que se passavam em minha mente antes de conhecer ela. Assim eu pensava: “passarei para o papel todas as minhas ideias e pensamentos, publicarei meus livros, após, minha vida estará finalizada. Poderei morrer e quem quiser me conhecer poderá consultar meus escritos. Meu corpo já terá se decomposto”.

Não quero a atenção dos outros, não quero o amor e a compaixão de milhares. Isso é ridículo. Suicidas não fazem tal ato para chamar a atenção. Matam-se, pois alguma coisa está errada no âmago de seus sentimentos. Gostaria apenas de voltar a sentir aquela felicidade que ela me passava, ou de poder voltar a ter o amor pela Vida que ela me fazia sentir. No momento, apenas a Morte parece ser amável. Riam de mim por querer amar, pouco me importo com as opiniões alheias, a mente é minha, uso-a como eu quero. Somente em tal lugar posso tentar ser realmente livre. Se vocês deixam-se levar pela promiscuidade que cada vez mais toma conta da sociedade, isso é problema de vocês. Quero ver o dia em que suas filhas se tornarem prostitutas gratuitas, aí então vocês se lembrarão de mim, e perceberão que eu estava certo. Não sou obrigado a pensar como os outros e nem a viver conforme seus padrões.

Tem algum questionamento, Morte? Pergunte, por favor. Antes que nossa união seja completa. Objetivos de vida? Sim, tenho alguns de cunho profissional, para iniciar a busca por eles seria necessário esperar mais algum tempo, ver o que o futuro me reserva nesse meio tempo. Servimos ao tempo. Talvez a felicidade retorne neste período, estaria eu me auto-iludindo? Ah! Sonhador que eu sou, ninguém vive sem seus sonhos. A esperança ainda permanece em minha mente. Não sei se isso é bom ou ruim.

Não cheguei nem à metade da vida e já anseio por seu fim. Existem pessoas que são realmente únicas. Para uma em especial eu entregaria a minha vida, sem pensar duas vezes, assim ela é. E eu, bom, eu nada significo. Sou apenas mais um exemplar de Homo sapiens. Lutando contra todas as ideias que tentam me impor. Não sei ao certo o que eu consigo com essa luta, entretanto, é melhor do que ter a mente completamente acorrentada. Vivam minhas utopias, vivam e cresçam! Vocês ainda me fornecem alguma força. Com ela eu pude vivenciar parte de tais momentos utópicos. Ao menos posso afirmar que vivi parte de meus sonhos. Seria isso o bastante? Reviver todas as doces lembranças.

Meus dias são sempre imersos em saudades. Tenho que manter oculto os sentimentos de tristeza. Apenas para não me distanciar ainda mais da sociedade, e seus integrantes tão ridiculamente sorridentes. Pois infelizmente não sou completamente independente dos aglomerados humanos. Caso eu fosse independente, eu não sofreria tanto.

Espere mais um pouco Morte, vamos degustar o presente que a Vida me trouxe. Mexer dentro da caixinha, reabrir a ferida ainda não cicatrizada. Ah! Sim! Dentre todos os momentos compartilhados com ela. Todos inesquecíveis. Lembro cada segundo como um filme que passa em minha mente. Entre eles teve aquele dia em especial! O último dia. Lá estávamos nós. Perante a noite, sob o olhar das estrelas. Quantas palavras belas ela me disse, e como podem as palavras influenciar tanto os nossos sentimentos? Aquele dia foi o momento em que meus sentimentos por ela atingiram o ápice. Foi o dia em que eu deixei de simplesmente gostar dela, para começar, efetivamente, a amá-la. Apesar de todo o medo que as pessoas possuem de usar a palavra “amor”. Poucos dias depois e tudo estava terminado.

Sou um beija-flor audaz que no caminho para encontrar sua flor acabou por ser apedrejado. Faça-me voar novamente, para encontrar mais uma vez o néctar da felicidade que tu me fornecias. Quantas noites mais eu ainda irei chorar, quanto tempo mais eu permanecerei sem dormir direito e a ser atormentado por pesadelos. Quantos dias mais eu terei que me amaldiçoar. O doce sentimento que sinto por ela permanece vivo em mim, sem diminuir, e por inúmeras vezes tenta crescer ainda mais. Saudades de quando a Vida tinha algum valor. Agora venha Morte! Rapidamente! Leve-me desse lugar! Sem ela não vejo mais motivos para continuar na presença da Vida.

Sim, a seringa e a querosene. Preparo a ferramenta do ato final. Afasto meus cabelos que ocultam a nuca. Entre o encontro do crânio e da primeira vértebra. No crânio, o buraco, o foramen magnum. A inserção da agulha não vai doer nada, apenas uma mordida de formiga. Mas dói, e dói muito! Uma dor constante e regular. Só resta pressionar a seringa e injetar seu conteúdo. Começo a pressionar e... 


Marius Arthorius, autor dos  livros Antropophagya, Antropophagya Addendum, Sociedade Insana, Emili meae laudes e Necrophagya, todos disponíveis para download gratuito no blog: http://antropophagya.blogspot.com/




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