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Conto integrande do livro Necrophagya, de Marius Arthorius.

“Faço-vos o elogio da minha morte, da morte livre, que vem porque eu quero”.

Friedrich Nietzsche

 

As flores que antes perfumavam o ambiente no qual nos encontrávamos, começam a murchar. Tais flores enfeitam agora a coroa fúnebre que adorna meu caixão. Todas as minhas lembranças me levam para as noites estreladas com ela compartilhadas. Quem dera tivesse tido a oportunidade de ter passado um dia inteiro na presença dela. Assim talvez eu não tivesse ansiado pela morte. E não estaria sendo levado para o cemitério neste instante. A noite que eu agora espero não é noite escura na qual eu admirava o olhar dela. A noite presente neste momento é apenas a escuridão da morte.

Vejam os vermes, os besouros e as bactérias que marcham ao meu encontro. Devoradores famintos, irão se fartar com o corpo deste símio antropomórfico que morreu por tentar amar. Se eu não fui capaz de manter a felicidade em minha presença, posso apenas ficar tranqüilo ao saber que tais seres necrofágicos poderão sentir satisfação de forma farta e feliz com o meu inútil corpo. Finalmente encontrei a dama de vestes negras, a querida Morte. Se bem que eu preferia ter permanecido na presença dela, aquela que era o sol que iluminava minha vida e perante a qual eu era um beija-flor audaz.

Estou mergulhado em um mar de vermes necrófagos. Tais seres abundam gloriosamente em nossa sociedade tão pútrida. O que eles buscam em mim? Buscam minhas lembranças, pois eles querem tentar experimentar a imensa felicidade que na presença dela eu pude sentir. Querem devorar e destruir toda e qualquer moral que eu formei para tentar combater o amargo destino da sociedade.

Lembro como eu dormia tranqüilamente, há apenas algumas semanas, como era bom. Toda noite, ao me deitar para dormir, minha mente abundava em felicidade, eu não conseguia dormir tamanho era tal sentimento. Quando o sono chegava, minha mente era inundada por sonhos doces e tranqüilos. Todo novo dia que raiava era mais um dia de felicidade para ser vivenciada. Hoje, cada novo dia é simplesmente mais um passo rumo ao nada.

Agora vejo que a felicidade dura pouco. Se hoje não consigo dormir é por tristeza. Pela depressão instaurada pelas lembranças. Meu organismo anseia por sentir novamente a felicidade e não encontra tal sentimento em lugar nenhum. Para acalmar a tristeza, restou apenas a Morte. A apaziguadora do sofrimento. Se eu tivesse tido a certeza de que teria uma segunda chance. Eu não teria optado pela morte. Teria pacientemente esperado, mesmo que de forma angustiante. A vida se foi e não há mais retorno. O abismo se abriu abaixo de meus pés. Sem ter como me agarrar à vida. Caí na escuridão. Minha última visão foi o semblante dela se afastando. Enquanto eu permanecia chorando.

O céu da vida que antes era azul e radiantemente iluminado. Tornou-se tomado pela névoa obscura que destroçou meus sentimentos. A Vida me torturou, e a Morte me ofertou um presente. Um pequeno presente, com o qual tudo poderia terminar. Nas profundezas enraizadas da minha confusão mental aceitei o presente sem questionamentos. A dor foi forte e manteve-se por algum tempo. Até que finalmente eu não senti mais nada. No entanto, esta dor não foi tão forte quanto a da rejeição. Sinto agora a convulsão ocasionada em meu abdômen, originada pelos vermes que nela festejam. Sejam felizes meus companheiros. Destruam este corpo que teve uma vida que de nada serviu. A única coisa que me fornecia real felicidade na vida era meu ateísmo. Que me fazia ver toda a real beleza do mundo, da vida e do universo. E a presença dela, aquela de quem eu tanto falo. Lembranças entremeadas por sorrisos e lágrimas.

Vocês, pequenos vermes que habitam a escuridão da terra, nunca estão sozinhos. Sempre possuem a companhia de algum ser necrófago com o qual vocês podem compartilhar algum momento. Eu, eu sou um símio. Macaco nu. Não sou um predador solitário. Isto não condiz com minha natureza. Macacos vivem em bandos, em sociedade. Dependem uns dos outros. Ninguém consegue viver em completa solidão. Sempre precisamos da companhia de alguém para compartilhar nossos sentimentos e até nossos pensamentos. Sejam eles de tristeza ou felicidade. Aflição ou diversão. Eu não queria a presença de muitos, queria apenas a presença de uma pessoa. Mas vejo que isto pode ter sido pedir demais, pois em minha busca por tal companhia, só consegui ainda mais solidão. As coisas poderiam ter sido diferentes. Toda a aflição e lamentação poderia ter sido evitada. Vejo que eu nada significo para ninguém. Gostaria de ter significado algo especial para ela. Pois ela significa muito para m im, significa mais do que a minha própria vida.

Infelizmente ou felizmente somos todos movidos por sentimentos. Por conta deles dei fim à minha vida. Minhas moléculas irão se separar, meus átomos estarão livres para comporem outros seres. Alguns talvez melhores e mais úteis do que eu. Átomos que se deslocam pelo universo, seguindo seu ciclo. Em quantos seres nossos átomos já não viveram antes de formarem nossas estruturas corpóreas? Com a minha putrefação quanta felicidade eu irei fornecer para outros seres viventes deste pequeno planeta? Um planeta tão pequeno e insignificante perante o cosmos. No qual, macacos se autoproclamam senhores, possuidores de grande poder imaginário. Que perante o todo, nada significam. Eles são apenas mais um agrupamento falante de átomos.

O que está feito, já está feito. Muitas vezes pode ser desfeito. Na presença da Morte, sonho com o retorno para a Vida. Sonho em escapar dos seres necrófagos e de seu banquete no qual eu sou o prato principal. Tal sentimento é originado pela Esperança, que em meus pensamentos continua com sua dança. Ela que me faz desejar o retorno à vida. Para que mais uma vez eu pudesse segurar nas mãos dela, olhar nos olhos dela, e enfim, compartilhar amáveis momentos.

Acima de mim, vejo quem novamente chegou. A Morte! Olá querida! Minha viagem ainda não está completa? Como ainda não? Afirmas que minhas preposições atéias estão erradas? Não. Certamente não. Sei que tu Morte, és o único fim. Então, o que reservas para mim? Mais um presente? Não. Mais torturas. Irei novamente ao encontro da Vida? Com o corpo decomposto não há como as lágrimas escorrem sobre minha face. As lágrimas escorrem para dentro, inundando a minha caverna craniana. Encharcando os sentimentos que se escondem nas profundezas do meu encéfalo.

Sinto o calor da dor que começa a se espalhar por todo meu corpo. Meus músculos rígidos e decompostos tentam se debater. Aprisionados pelo caixão. Como os sentimentos que eu sinto por ela e que aprisionados estão, apenas aguardando esperançosamente que possam novamente rumar para presença dela. O que se passa, Morte? Esta dor bem poderia ser maior do que a dor de um parto. Pode ser o parto de minha vida, que voará para longe de mim. Dos meus sentimentos que agonizam em tentativas de voarem para perto dela.

Esta claridade que começa a ser emanada do interior da terra, do que se trata, Morte? Tal afirmação vai contra a minha descrença. Sabes o quanto eu repudio qualquer misticismo. Se assim você afirma. Então que seja. Venha para mim o Inferno! Se a Morte não foi o bastante para matar o amor que há dentro de mim, não será o fogo do Inferno que conseguirá apagar meus sentimentos e meus sofrimentos.

Sinto os meus restos mortais ardendo em chamas, fervendo no caldeirão da Morte. É para tal lugar que a alma que eu nunca tive ruma. Para as eternas tormentas. Somente assim poderei me livrar desta dor que nem mesmo a Morte conseguiu diminuir. Enquanto faço essa viagem dolorosa para as chamas eternas. A imagem dela, ainda permanece em minha mente. Ainda lembro das palavras que para ela eu disse. Que se fosse preciso ir até o Inferno e voltar, para que eu pudesse estar na presença dela mais uma vez, então assim eu faria. Lembro que se fosse necessário queimar nos eternos tormentos do Inferno, para poder voltar a compartilhar meus sentimentos com ela, que assim então seria.

Aqui estou, rumando para cumprir as promessas que para ela eu fiz. Entreguei a você a minha vida, ó doce amada. E agora meu corpo ruma para cumprir todas as demais promessas. Direto para as profundezas da terra, para o mar de fogo e tortura. No qual serei despedaçado e devorado por demônios sanguinários. Meu couro será arrancado, meus ossos quebrados. Serei crucificado por ter tentado amar. Serei um beija-flor empalhado que alguma estante irá enfeitar.

E aqui cheguei ao Inferno solitário que possuiu minha vida...




Marius Arthorius, autor dos  livros Antropophagya, Antropophagya Addendum, Sociedade Insana, Emili meae laudes e Necrophagya, todos disponíveis para download gratuito no blog: http://antropophagya.blogspot.com/




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