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Conto integrante do livro Necrophagya, de Marius Arthorius.

"Não há outro inferno para o homem além da estupidez ou da maldade dos seus semelhantes".

Marquês de Sade

 O calor e o fogo, que queimam meus sentimentos. São como a saudades, sentimento que nos faz sofrer, mesmo tendo sua origem em bons pensamentos. Para onde tu me trouxeste, Morte? Estou aqui para cumprir minha promessa? Vejo em minha frente esta claridade alaranjada, o cheiro de enxofre toma conta do ambiente. Os corpos que se contorcem nas chamas são os apaixonados que sofrem por seus sentimentos. Sim Morte, eu bem sei que meu tormento será pior do que o deles. Pois se eu tivesse uma alma, poderia afirmar que ela é mais profunda do que a destes seres que no fogo se encontram. Como um poço que a claridade do dia não consegue iluminar o fundo.

Você será minha orientadora neste mar de dor, Morte? Acompanhada dos demônios! Os três demônios cruéis que assolam a vida humana: a Solidão, a Tristeza e a Saudades. Venham a mim, pois tenho uma promessa para cumprir. Se para ela entreguei minha vida e é isso que para mim ela deseja, então que assim seja. Para as chamas os demônios me levam.

O fogo purifica e destrói a aparência superficial humana. Primeiro o calor das chamas, depois o frio de não ter mais nenhuma barreira que separe o exterior do interior. Quem és tu primeiro demônio que de mim se aproxima? A Saudades! O primeiro demônio que me atormenta com o espírito do pesadume! E qual sua ferramenta? Nada além do que meu cérebro já não possua. A memória e suas lembranças. A enorme dor que assola meu corpo, que devasta minhas entranhas. Dor mais forte do que a originada pelo fogo. Contorço-me no chão e gritos fogem do interior dos meus pulmões. Quanta felicidade com ela compartilhada e que agora se foi. Vida, em que lugar você está? Volte para mim, Vida. Deixe-me poder olhar as estrelas na presença dela, pelo menos mais uma vez.

Ah! Demônio! Elevas as sinapses de meu cérebro ao extremo! Você busca nas sinalizações neuroquímicas todas as sensações armazenadas pela memória. Sufoca minha mente com todas estas recordações. A noite, as estrelas. A árvore, o canto da coruja. A estrela cadente. Os dois loucos percorrendo a escuridão, perdendo-se em pensamentos filosóficos. Os galhos e os buracos. Os obstáculos insignificantes. E a Lua! Ah! Trio de demônios nefastos, por que apresentam nomes femininos? Para fazerem os poetas sofrerem? A Lua! E quando olhares para a lua, não importa onde estiveres, saiba que nela nossos olhares se encontrarão. Sorrisos compartilhados. Tudo será como se estivéssemos próximos um do outro. Acabou a sua parte, Saudades?

Não, certamente não. Pois agora vejo que vocês três atuam juntos. São três em um só, e um só que se separa em três. Demônios torturadores de sentimentos. Pare, Tristeza, pare. Minhas glândulas lacrimais já estão decompostas. Não há mais lágrimas, pois em vida elas escorreram até formar um oceano de lamúrias. O que eu choro agora é o sangue. Semicoagulado, semipútrido. Lágrimas de um cadáver moribundo, que perdeu sua vida e sua amada. Então esta é a sua tortura, vil Tristeza demoníaca? Olhe para meu rosto! E diga que não foi tudo ilusão! Minha face agora impregnada de sangue que escorre pelas reentrâncias e fendas da pele que se desfaz. A pele estica-se e tenta resistir. Retorce-se e tenta não se destruir. Antes de finalmente arrebentar. É como a vida que tenta não ser suprimida perante os sentimentos.

E para onde vocês vão agora, Saudades e Tristeza? Morte, não me deixe? Já perdi a Vida e minha amada. Perante você deverei ficar? Tu és o terceiro demônio? Dentre muitos és um dos mais cruéis e destruidores. Possui características da Tristeza e da Saudades, e até mesmo da Morte. Acompanhado de algo mais. É a Solidão! Meu podre corpo cadavérico não suporta mais. Meus músculos e ossos, tendões e tudo mais. Estão se arrebentando. Por que me deste esse futuro cruel? As chamas do inferno estão se apagando. Tais chamas que produziam dor eram as chamas da esperança, sim, esse é o fogo que abunda no inferno. Que nos queimam, e mesmo assim, nos protegem da fria escuridão infernal.

E esta que se aproxima de mim? É a Escuridão! Que auxilia a Solidão! Nada posso fazer. A não ser por tua honra desvanecer. Perante a imensidão do tempo. Tudo perde seu sentido. Até o universo já parece aflito. Com recordações, lembranças e momentos. No caldeirão da vida primordial fui arremessado. Em tal lugar apenas há o sofrimento atemporal, profundamente sentimental.

Recordações. Lembranças. Momentos. Flechas que me acertam seqüencialmente. No inferno eu permaneço. Com o demônio, a Solidão, e sua auxiliar, a Escuridão. Saudades da vida e da presença dela. Durante a batalha, a Tristeza assassinou a Felicidade. No escuro eu nada vejo, apenas as imagens gravadas no meu maldito encéfalo que tanto me atormenta. Um dragão que se oculta em minha caverna craniana. Contra o qual eu nada posso fazer. A não ser morrer. Um local em que nada se sente. O frio parece eterno, pois já não existe mais as suas correntes de convecção de calor. Perante as quais o frio do inverno era inexistente.

Se o paraíso em terra, o verdadeiro paraíso, não o metafísico, era em sua presença. Então, em sua ausência, só existe a desgraça do purgatório penitencial. Aqui isolado. Ainda ouço o vento soprar. Não o vejo, mas posso senti-lo e ouvi-lo. Em seu caminho ele circula pela atmosfera. E ainda proclama seus cânticos. Que falam de sua pessoa, afirmando eternamente o quão bela tu és. Já os ventos infernais, proclamam outros cânticos. Falam de minha pessoa, enterrado entre vermes. Se em sua presença sinto-me ser elevado às alturas, em sua ausência sou levado para as profundezas demoníacas da terra.

Estas frias mãos que arrastam meu cadáver pela escuridão, para que lugar me levam? Arrastado por este chão, eu sinto os outros corpos que formam o tapete deste recinto. Eles apenas permanecem aqui. Não sou digno de sofrer tão pouco. Há alguma claridade em minha frente. Mais uma vez os fogos da esperança iluminam a escuridão. Vitima sacrificial, proclamador da antropofagia. O que eu posso fazer?

Ah! Essa maldita escuridão. Que devora minha vida, obscurece o céu antes azul e brilhante. Torne as coisas como antes. O abismo aumenta abaixo de meus pés, é a morte que chega mais perto, novamente retorna para minha presença. Sou apenas uma cobaia, sofrendo com as experiências deste mundo. Um universo que se expande. Devorando-me e aniquilando-me. Ensine-me a viver, para que eu escape do eterno anoitecer.

Pendurado por correntes. Formadas pelo inconsciente. Esta misantropia que me deixa impregnado de autocomiseração. Por que me deixam aqui demônios? Pendurado neste alto lugar? Vejo que vocês riem e choram ao mesmo tempo. O que passa dentro da mente de vocês? Querem que eu sirva de exemplo? Não, creio que não. A resposta de vocês é que me assusta. Afirmam já terem passado por tal situação. Sabem que nem mesmo toda a tortura poderá parar o meu coração. Continuem eu lhes digo. Já estou morto. Tornem a tortura etérea. Pois se eu permanecer na ausência daquela que ilumina minha vida. Certamente, preferirei a presença da Morte e destes três demônios que tanto flagelo me fornecem.

Quanto tempo eu ficarei aqui? Pendurado, acorrentado e sendo acertado seqüencialmente pelas flechas destes demônios? Tempo o bastante. Ou talvez até mesmo tempo além do tempo. Não tenho mais forças para continuar. Como eu poderia desta desgraça escapar?

Não há como esquecer a imagem dela. Não há criatura que possa trazer tal amnésia. Enganei-me ao afirmar que a Morte teria a resposta para o fim de meu sofrimento. Na tentativa de me ajudar, a Morte ainda me forneceu uma outra opção. O Inferno. Neste local os demônios choraram por minha amarga desgraça. Pois suas torturas também não foram a solução. Acho que como eles eu sou criatura obscura. Amaldiçoado a vagar pelos muitos universos e infernos. Carregando o espírito do pesadume. Quem me dera eu fosse forte, e agüentasse as revoltas correntezas do mar da vida. Não sei nadar. Sou ave que nasceu para voar. Não uma ave solitária. E sim uma ave que queria apenas uma companhia para voar por estes céus.

Vejo que isto não acontecerá. Ah! Trio de demônios! Estariam algumas pessoas fadadas a permanecerem em eterna solidão? Poderá haver algum momento no futuro em que eu volte a compartilhar meus pensamentos com ela? Não chorem demônios. Pois suas lágrimas são o fogo que mantém o inferno aceso. De suas lágrimas se origina a esperança. As chamas do inferno. Como sinto sua falta.

E agora para onde rumo, o que vocês reservam para mim? A ressurreição, o retorno para a Vida e para ela? Ou a verdadeira morte, o fim após o fim?


Marius Arthorius, autor dos  livros Antropophagya, Antropophagya Addendum, Sociedade Insana, Emili meae laudes e Necrophagya, todos disponíveis para download gratuito no blog: http://antropophagya.blogspot.com/


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