Já fazia alguns dias desde que centenas daqueles estranhos objetos voadores entraram em nossa atmosfera, incendiando pelos ares devido ao atrito com os gases que envolvem nosso planeta. Os estranhos seres que assumiram formas humanas vinham de muito longe, universos branas, universos paralelos, era disso que eles falavam. A prerrogativa inicial destes seres era formar alianças e acordos interplanetários para combater ameaças violentas que se espalhavam por todos os recantos do cosmos. Aparentemente assim como nós eles não conseguiam viver em paz, acordos políticos com manchas de sangue deviam ser feitos para manter o clima pacífico entre as diferentes nações interdimensionais.
Para demonstrar que eles eram pacíficos ofertavam a todas as pessoas uma pequena pílula denominada “controle”. Todos que ingeriam este estranho medicamento, uma bolha azul e viscosa, ficavam com ótimas condições de saúde e curavam-se de inúmeras doenças. Em algumas cidades eles ainda não haviam chegado e em minha cidade só conhecíamos estes seres através da televisão e da Internet, mas eu me preparava para o dia em que eles apareceriam por aqui, pois eu bem sabia que considerando o caráter corrupto da maioria dos humanos, tratados e acordos de paz nada valiam quando riquezas estavam escondidas por detrás das cortinas do show. Muitos já desconfiavam que a pílula na verdade servia para o controle mental das pessoas.
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Era um final de tarde e as nuvens brancas tornavam-se rosadas com o Sol da primavera, uma brisa agradável soprava do Sul, dando ao dia uma sensação inigualável de que a vida vale a pena ser vivida. Acho que era o que muitos chamam de sentir o numinoso e que acaba por influenciar algumas pessoas a acreditarem em deidades inexistentes.
Foi quando eles chegaram com suas naves como que incendiando o céu. Eu e minha esposa tentamos proteger um pequeno grupo de amigos em nossa casa, tudo o que tínhamos para nossa defesa eram alguns facões. Trancamos todas as portas, mesmo sabendo que seria em vão, portas não os retardariam por muito tempo. Mas sempre lutamos por nossas vidas mesmo quando sabemos que não existem mais opções para escapar da morte. Nós ficamos esperando em uma grande varanda que havia no segundo andar da residência.
Estávamos todos aflitos e as conversas giravam em torno das reais intenções daqueles seres de outros universos. Alguns queriam fazer contato pacífico com eles, afirmando que seres avançados não seriam violentos, porém olhamos para a humanidade e mesmo com todo o avanço e progresso tecnológico ainda assim continuamos a agir da mesma forma que nossos ancestrais que habitavam cavernas, se é que não agimos de maneira pior. Não poderíamos facilitar uma comunicação desprotegida com aqueles seres.
Nossa conversa foi interrompida, ouvíamos as portas da casa sendo quebradas com grandes estrondos. Olhamos para a cidade e ao longe observamos pessoas andando lado a lado com aqueles estranhos seres de forma humana.
Eles estavam diante da grande porta de madeira escura que dava acesso para a sacada. Mais um estrondo e pudemos ver cara a cara aqueles estranhos seres de forma humana. Caminharam lentamente em nossa direção, atrás de mim alguns diziam que eles não pareciam malévolos, que deveríamos confiar neles, pois eles supostamente eram como nós. As pessoas sempre confiam naqueles que possuem um aspecto físico parecido com elas, se esquecem que às vezes o lobo se disfarça em pele de carneiro.
Não dei atenção a tais comentários, avancei com o facão empunhado, berrando fortemente em direção daqueles seres, decepei o braço de um quando ele tentou se defender de meu ataque. Não havia sangue, nem ossos, apenas uma massa gelatinosa com a cor de pele. O ser me ofertou um sorriso sarcástico. Acertei outros dois seres, um na face e outro no tórax, apenas uma massa gelatinosa escorria dos grandes cortes. Para minha surpresa algumas pessoas já tomavam a pílula “controle”, minha esposa e eu tentávamos lutar contra eles.
Na luta o seres me acertaram com os punhos no peito e fui jogado ao chão, deslizando no piso liso e batendo com as costas na cerca da varanda. Fiquei desacordado por alguns minutos e quando me recuperei da pancada, ainda com a adrenalina correndo em minhas veias foi que vi minha esposa amarrada em uma cadeira. As outras pessoas tinham tomado o “controle” e permaneciam paradas em fila, e agora aqueles malditos seres queriam dar o mesmo destino à minha amada. Levantei reunindo as forças que ainda me restavam, gritei para chamar a atenção deles, corri em direção dela, os seres se intrometiam em minha frente, usei de minha animalidade para conseguir vencê-los. Socos, chutes e mordidas. Senti o gosto adstringente de carne alienígena. Enterrei minhas mãos dentro daqueles falsos humanos.
De passo em passo eu me aproximava de minha amada, ela chorava assustada e percebi que eu também chorava com o desesperado tomando conta de meu corpo, minhas pernas tremiam e era difícil manter o equilibrio. Alguns seres pularam sobre mim, caí batendo o nariz no chão e fazendo-o sangrar, ignorei a dor, os seres tentavam me puxar para trás e com todas as minhas forças eu me debatia, caído no chão eu movia rapidamente minhas pernas, me arrastava para frente e por vezes chutava algum deles que pulavam novamente sobre mim. Minhas unhas começavam a quebrar por eu tentar cravá-las entre no rejunte dos pisos e assim não ser afastado de minha amada, o piso branco começava a ser manchado de vermelho com o sangue que saía da ponta dos meus dedos. Faltava pouco para eu conseguir alcançá-la e libertá-la.
Foi quando um dos seres empunhou uma estranha arma e uma descarga elétrica atingiu meu corpo, eu estava diante dos pés de minha amada, nossos olhos cheios de lágrimas se encontraram em olhares desesperados que pareceram fazer o tempo parar. Eu sentia o gosto salgado das lágrimas que acidentalmente entraram em minha boca. Nossos olhares falavam por nós. A única coisa que consegui fazer foi esticar meu braço, encostar no pé dela e proclamar as últimas palavras que ecoavam em minha mente quando o choque começou a fazer meus músculos falharem. Eu disse à ela:
- Eu te amo! Sempre te amarei... nunca se esqueça disso...
Minha visão se tornou turva e escureceu, meus músculos vibravam com a eletricidade, urinei e defequei em minhas roupas, pois perdi o controle sobre meu corpo. As últimas palavras que ouvi meio desconexas diziam:
- Levem esses dois daqui, precisamos estudá-los, pois eles agem de forma diferente dos outros que aqui estão.
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Alguns dias depois...
Uma visão de um final de tarde, um campo de trigo dançando diante da brisa de primavera. Uma visão que alegraria a qualquer um... Pessoas acorrentadas plantavam, capinavam e colhiam, enquanto do topo de grandes torres aqueles estranhos seres apenas monitoravam sua mais nova mão de obra escrava, por vezes eletrocutando algum ser desobediente.