Olhou atenta os bibelôs minúsculos e coloridos, milimetricamente organizados em cima da antiga cômoda. Tudo cheirava a velho. As roupas, os móveis, a casa, o ambiente todo ficou no passado, congelado em lembranças.
Com cuidado, passou as pontas dos dedos em um dos abajures que adornavam a sala. O local era pouco iluminado, apenas uma luz fraca e amarelada se fazia presente. Por alguns anos temeu aquele momento. Mesmo sabendo que seria inevitável teve medo. Desde que foi embora nunca falou com ninguém. Não se viam há muito tempo. Aconteceu tudo tão rápido...
Uma chuva fina caia sobre a cidade tornando-a deserta. Andando a passos curtos e trôpegos pelo corredor onde as paredes sustentavam quadros que retratavam vilas e morros tão vazios e solitários quanto a própria casa, percebeu que o lugar sempre esteve “vazio”. Sem crianças, sem pessoas, sem felicidade. A vida, abdicou de morar ali há muitos anos.
Olhava os cômodos lembrando dos acontecimentos que ocorreram nos poucos anos que ali passou. Sua memória tornava-se clara neste momento. Como em um flashback via nitidamente todos materializados em suas ações de sempre. Vinte anos haviam passado desde o último dia em que dormiu sob aquele teto. Vozes, pessoas e cheiros, todos agora tomavam formas repentinamente.
A porta gemeu, como se sentisse dor ao ser aberta. Seu quarto estava ali. O tempo não tocou nele. Sua cama, seus objetos, tudo estava exatamente como antes. Uma suave respiração em sua nuca fez com que um arrepio subisse pelo seu corpo. Olhando para trás, nada encontrou, a não ser o corredor após a porta. Fechou os olhos, pôde ouvir o choro abafado de uma criança, um choro sofrido em que as lágrimas teimavam em escorrer pelo rosto mesmo depois que os gemidos cessaram. Pode ver a criança abraçando o travesseiro como se este fosse seu último alento, aquele que a seguraria se caísse. O medo e a agonia estampados no rosto daquela criança faziam com que retornasse em um passado remoto, que ela conheceu em algum momento, mas recusava-se lembrar. Procurou em si mesma e encontrou apenas um estado de torpor quase mudo.
Gritos e barulho de couro cortando a carne invadiram a casa, sons que emudeciam repentinamente só para recomeçarem momentos depois, e novamente, e novamente... Sempre acontecia em intervalos de dias, dois ou três. Tapou os ouvidos tentando em vão silenciá-los.
O tempo levara a todos. Só eles estavam ali. Já faziam parte de cada canto daquela casa, como se fossem parte não somente da história, como também de todo ambiente físico daquele lugar.
Voltou deixando a criança de cabelos negros iguais aos seus com seu choro interminável.
As paredes pareciam ter vida, moviam quando passava, talvez quisessem tragá-la em uma estranha simbiose, assim não poderia ir.
Com receio, parou em frente ao último quarto. Suas mãos suavam e tremiam. Sabia o que encontraria. Esta porta recusou-se a soar, calou. Sempre, neste quarto, o silêncio imperava, por mais atrozes que fossem as ações ali passadas. Um cheiro de sangue velho e poeira invadiu suas narinas e a imagem foi montada em quadrículos na sua mente. Lençóis jogados ao chão, respingos de sangue... Na cama uma mulher de grandes olhos verdes fitava o vazio esperando por algo que não viria nunca. Aos poucos virando o rosto, a mulher encontrou seus olhos. E seu olhar morto atravessou seu corpo e sua alma em um pedido mudo de socorro. Saiu dali com certa angustia, tremia, suava, queria sair respirar. O ar não entrava por inteiro em seus pulmões. Seus passos ligeiros agora não venciam o corredor que parecia muito mais longo que antes.
Como uma sombra demoníaca ele saiu da biblioteca prostrando-se a sua frente. Tomou coragem e continuou, passaria por ele. Pouco importava o que podia fazer, não a feriria nunca mais. Nem a ela, nem a ninguém. Estava muito perto agora. Tão perto que o cheiro cítrico de Whisky e limão queimou sua cabeça, quis evitar o olhar, mas a sombra insistiu. Ainda era o mesmo, o mesmo cabelo dourado, as mesmas mãos enormes de longos dedos, o mesmo terno acinzentado que agora... A ânsia subiu do seu estômago ao ver que em meio ao peito ele ainda carregava o ferimento. O sangue escorria por todo o corpo dele. Percebendo-se úmida, passou as mãos em si e sentiu que o sangue também estava nela, impregnado em si como pele. Fixou seus olhos nos olhos negros do homem ferido a sua frente. Ele sorria maliciosamente com um olhar irônico e suave. O pavor que há muito lhe era negado voltou derrubando todos os muros que durante anos construiu envolta de si. Sua alma doía ao lembrar sua face. Tentou correr e encontrar a saída, mas seus pés não caminhavam tão rápido quanto a sua vontade. Deixando a imagem pútrida para trás, abriu a porta. Só então percebeu que ainda segurava a arma, as cenas foram sendo refeitas como em um quebra cabeça, a mulher, as surras, o sangue, o choro, a risada, o barulho seco e quente do revólver, mais sangue... Tudo tomou forma dentro de si. Devolveu a arma ao chão do passado e sem querer olhar para trás saiu. Outra vez fugia, outra vez corria, aconteceu assim há vinte anos, era assim agora.
Estava ciente do erro que cometeu, não voltaria mais. Não podia voltar, as lágrimas escorriam por seu rosto. Correu tanto quanto antes. Tinha que esquecer outra vez. Matar dentro dela, matar-se se fosse necessário.
A certa altura parou ofegante, podia ver a casa ao longe, olhando assim não a assustava. Era como uma pintura congelada em uma tela. Iria embora agora. Só uma ou outra vez em que o vento soprasse no seu ouvido, lembraria dela. Vinte anos se passaram, passariam mais vinte. Trinta quem sabe? Um dia voltaria. Ele a queria e ele a teria, talvez quando a morte chegasse e não mais pudesse fugir, enfim ele a venceria...